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Blog
Carta
por ahjose1150 em 28/11/05 - 23h:28m
Teresina, 23 de Outubro de 2005, 09h45min.
Estou cansado. Muito cansado. Não é um cansaço físico. Não é a mente cansada. Não. Meu problema está na alma. Coisa difícil de tratar. Nem sei quem foi mais ingênuo. Se eu, em minha imaturidade adolescente, se os meninos, tão ansiosos por realizar.
Produzir esse filme foi uma das decisões mais sérias que tomei. Acabou prejudicando o meu trabalho, a minha saúde. Cheguei, inclusive, a me afastar da faculdade. Lá se vai meu curso de psicologia. Mas tudo bem. Criou-se uma expectativa enorme. De repente, O Confidente, era o filme mais esperado do ano. Só se falava nisso pelos corredores. A internet respirava O Confidente. A imprensa anunciava como um grande evento. Um mês antes da estréia, todos os ingressos vendidos. Onde já se viu? O piauiense valorizando tanto assim o que é produzido por aqui. Loucura demais. Mas...
A natureza humana revelou-se plenamente. Não foi capaz de compreender algumas faltas. Cansaço. Rim. Gengiva arrasada por um dente mesquinho. Mesquinho... O estresse. O rim. O dente. O ser humano. O ser humano(?). Enquanto trabalhávamos, uma legião de aproveitadores elaborava planos mirabolantes para lucrar. Lucrar. A mesma cobiça que já destruiu impérios estava agora destruindo um sonho bonito. Ontem, Vítor fez uma pergunta interessante: Por que tantas pessoas parecem não gostar de ti, Ajosé? Porque estamos trabalhando desde o início do ano, voluntariamente. Porque não enchemos a cara quando chega o final de semana. E, principalmente, porque estamos criando. E ao criar, não estamos explorando. Não estamos prejudicando ninguém. Deve ser isso.
O filme não estréia na data prevista. 30 de outubro. Não há tempo. Como não há tempo? Desde abril e não há tempo? Que palhaçada é essa? Tantos domingos... Tantas reuniões... Horas e horas de filmagem... E não há tempo? Não. Não há. Tempo. E olha que fomos sempre pontuais. E olha que nenhum ator jamais faltou a um ensaio sequer. E olha que fomos corretos em tudo. Em tudo? Tudo bem... Escolhi mal a produtora. Molecagem. Sete dias para a estréia. Apenas seis minutos editados. Seis minutos. O filme deve ter uma duração de oitenta minutos. Oitenta minutos. E para essa gente tudo é mais importante. Nosso suor é lixo. Interpretaram mal o silêncio. Como não somos agressivos, como não xingamos todas as vezes que foram irresponsáveis, acreditaram, suponho, que éramos idiotas. Quão poderoso é o silêncio... Quão poderoso é o pensamento que se constrói em silêncio...
Estou envergonhado. Muito envergonhado. Como voltar para a sala de aula depois de tamanho fracasso? Não dá para encarar meninos e meninas que esperaram tanto. Não dá para conviver com aqueles que se realizarão diante do fracasso. O fracasso alimenta. O fracasso confirma a ociosidade. O fracasso ratifica o comodismo. O fracasso alimenta o desejar nada fazer. O fracasso.
Não sei bem o que significa essa carta. Nem as conseqüências dela. Muito menos o que farei de agora em diante. Espero somente que tudo isso não tenha sido inútil. Que alguma boa lição possa ser construída. Pior do que o fracasso só há uma coisa: o sacrifício vão.
Antonio José Fontinele da Silva
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