22/05/06 - 10h:50mDenunciar

MORRE O FORROZEIRO ELINO JULIÃO

MORRE ELINO JULIÃO



FALECEU NO ÚLTIMO SÁBADO, AOS 69 ANOS DE IDADE, O FORROZEIRO POTIGUAR ELINO JULIÃO, QUANDO VIAJAVA PARA REALIZAR UM SHOW NA CIDADE DE ASSU. ELINO FEZ MUITO SUCESSO NA DÉCADA DE 1970 COM MÚSICAS COMO "COFRINHO DE AMOR", "NA TAMARINEIRA", "O BURRO" E "NA SOMBRA DO JUAZEIRO".

VEJA MATÉRIA ABAIXO (DO JORNALISTA JOSÉ TELES) SOBRE ELINO JULIÃO:



MÚSICA

Forró de Elino está com roupa nova

por José Teles



Houve um tempo em que a música nordestina não precisava de ser resgatada para que seus artistas tocassem em rádio e vendessem discos. O potiguar Elino Julião viveu a era dourada do forró, ao lado de Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva, Dominguinhos, Trio Nordestino, Marinês, Abdias, Marinalva, Gerson Filho, Genival Lacerda, Ludugero. Isto aconteceu até a segunda metade dos anos 60, quando os artistas regionais davam-se ao luxo de morar em pólos como Campina Grande, onde a Rádio Borborema mantinha concorridos programas de auditório, dos quais Elino Julião era presença constante.



Nascido em Timbaúba dos Batista, Rio Grande do Norte, ele ostenta uma discografia com mais de 60 títulos, entre discos solo e participações em coletâneas (como a lendária Pau-de-Sebo, da antiga CBS). Como compositor, tem músicas gravadas por Jackson do Pandeiro (Xodó de motorista), Luiz Gonzaga (Meu saudoso Ceará) e muito mais gente. Este fornido currículo fez com que Elino Julião acabe de receber uma merecida homenagem em Natal, na forma de um disco-tributo, intitulado O Canto do Seridó (produzido por Dácio Galvão, sob patrocínio da Fiern/Sesi). O CD agrupa uma das mais ecléticas reuniões de artistas para tal tipo de projeto, incluindo uma pá de artistas de Pernambuco.



Prestam reverências a Elino Julião cantores que aparentemente não têm nada a ver entre si ou com o forró. E é esta variedade estilística, que dá o molho ao disco. As partipações vão dos pernambucanos Silvério Pessoa, Lenine e Dominguinhos, às representantes da chamada Vanguarda Paulista, Ná Ozzetti e Tetê Espíndola. Entre uns e outros, tem Fagner, Maciel Melo, Elba Ramalho, Xangai, Marinês e até Chico Science & Nação Zumbi, numa misteriosa vinheta que encerra a faixa Filho de guaiamum.



Com um time de instrumentistas feras (Mingo Araújo, Maciel Salú, João Lyra, Genaro, Jamil Joanes, para citar uns poucos), Elino Julião repassa sua já longeva carreira e seus forrós mais conhecidos, alguns deles standards do cancioneiro nordestino. Um dos mais conhecido, sem dúvida, é O Rabo do jumento ("Nascimento você diz que é valente/ Você cortou o rabo do jumento/ Eu não quero pagamento, Nascimento/ Eu só quero outro rabo do jumento/...Veja pessoal, que mau elemento/ Não sei se o animal é ele ou o jumento/ Eu não quero pagamento, Nascimento/ Eu só quero é outro rabo no jumento"). Quem divide esta faixa com seu autor é o ubíquo Lenine, ambos esbanjando ginga e humor.



Outra das músicas bem conhecidas de Elino Julião faz a apologia do muar, é O Burro, uma das melhores do disco, na interpretação dele e de Dominguinhos ("Vamos dar valor a quem trabalha/ Vamos dar valor a quem dá murro/ O burro é quem merece uma medalha/ O burro é quem trabalha/O burro é quem dá murro"). Elino Julião ainda segura bem sozinho um arrasta-pé. Em O Canto do Seridó, ele reinterpreta algumas canções sem parcerias vocais, é assim com Finja que ainda me quer, São Severino Mártir, O Negócio, e outro dos seus hits, Tamarineira ("Só por te amar/ Tô desta maneira/ Na Tamarineira, sei que vou parar").



Com Fagner, Julião recria Meu saudoso Ceará, com Silvério Pessoa revisita Jackson do Pandeiro com Xodó de Motorista. A rainha do forró, Marinês está com ele em Na sombra do Juazeiro, e Xangai manda ver balanço na divertida Forró da Coréia. No mínimo curiosas são as participações de Tetê Espíndola em Relampiou e Ná Ozzetti em Puxando fogo.



O Canto do Seridó chega a ser um disco didático para quem acha que forró é uma coisa só, ou considera forró o produto transgênico criado no Ceará. Aqui tem xote, baião, galope, rojão, e algo fundamental que os atuais compositores do gênero vêm perdendo: a capacidade de abordar temas simples, com muito bom humor, dentro do formato que foi o segredo do sucesso popular tanto de Elino Julião, quanto de Jackson do Pandeiro ou Genival Lacerda: três estrofes, no máximo, e um refrão bem bolado, entre elas.







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