27/10/08 - 19:51Denunciar

SER CAIXA

O Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo da América Latina, tem o código diferente no Domingo, quer dizer, uma nova numeração, a qual é passada para todos os caixas logo cedo. Isso porque neste dia ele custa 3,00 reais. Pois se você registra-o pelo código de barras, espécie de cordão umbilical com o intestino financeiro da loja, diziam os caixas veteranos, nossos treinadores, aparecerá no visor o valor de 1,50, que pertence aos outros dias da semana. Absorvi a informação com certa curiosidade. Pareceu-me que a Saraiva de Recife, com um ano e meio de vida, era sempre pega de supetão com a mudança de preço do periódico em dias de Domingo. Será, ou fazia parte do treinamento? Um plano maquiavélico para observar nossa atenção dentro do ritmo da loja? Não sei bem, mas o difícil mesmo era esquecer o que repetiam sempre: âentão não se esqueça, vice, senão irá faltar no fechamento do seu caixa e quem paga é vocêâ. Mas este era um procedimento simples, confortavam-nos, e que depois de um tempinho a gente gravava que o periódico no domingo tem o preço errado e a coisa flui automaticamente, embora a regra do âquem paga é vocêâ prevalecesse para todas as outras operações, sejam elas fáceis ou embaraçadas. Entendeste?
Eu e mais dez amigos saímos de Salvador para receber o treinamento de operador de caixa, em Recife, durante treze dias. Viajei tão pouco em vida, muito menos a trabalho, e menos ainda como caixa. E pra fechar não conhecia Recife. Acredito que por essa e outras razões que foi uma viagem de surpresas. A primeira foi sentir que o grupo tornou-se unido, cada um ligado ao outro e o outro a cada um, mas não esquecendo algumas duplas que surgiam, posto que natural. Estranho seria se não surgissem. Mas digo estar surpreso neste ponto porque sempre fui meio sem jeito com equipes, deslocado para trabalhos em grupo. A segunda, e essa uma surpresa dura, mas que já imaginava, foi perceber que o caixa é um terreno poético de terra batida, seco, e que de certa forma também cruel, porque uns versos que lhe ocupam alguns minutos podem, literalmente, custar dinheiro.
Desde que cheguei à loja, 23 de Abril, bati o olho num quadro que estava em exposição no espaço de eventos Manuel Bandeira, cujo desenho na tela, em traços infantis e ingênuos, mostrava uma menina fotografando um siri, apesar do título dizer tratar-se de um caranguejo. De pronto quis comprar para Aninha, que me esperava em Salvador. Era a cara dela, não havia como não comprar. Despendi boa parte de meu tempo no encalço de Lìvio, o encarregado dos eventos da loja, querendo saber o número do celular da expositora. Acho até que exagerei na cobrança. Mas acontece que o tempo passava e eu ficava aflito por não ter o quadro em mãos. Talvez por essa ansiedade eu tenha me passado no caixa ao receber João Gilberto, que vinha registrar uma compra de mais de 200 reais em CDs e DVDs comigo. João Gilberto não é o famoso cantor, mas outro caixa que veio receber treinamento junto com a gente, e que inclusive faz faculdade no mesmo campus que eu, em São Lázaro. âOlha, Groba, esses CDs que vou levar pra Salvadorâ, dizia ele ao chegar ao meu caixa, empolgado, â são raridades!â. âDê uma olhada aí.â Reconheci que eram verdadeiros achados; um âPhono 73â, com o vídeo de Chico e Gil sendo censurados cantando Cálice, âDoces Bárbarosâ etc. Logo me escalei para pegá-los emprestado. Disse-lhe que se caso não levasse o quadro, compraria o âPhono 73â. Não poderia voltar pra casa sem um presente pra Aninha! Foi nessa conversa mole, na frente do caixa, passando lentamente os produtos no leitor, pìììì, criando fila, pìììì, que acabei não registrando o cartão Saraiva para que ele pontuasse na compra. Ele não notou isso, tampouco eu. Alcançaria uns 500 pontos, quase um bônus de 15 reais. Sou xingado até hoje, mas me defendo!, pois ele deveria perceber a falha logo no ato, e não depois de um século, oxi! Mas veja!
Fui ter o quadro nas mãos somente no último dia, imagine, quando já procurava o âPhono 73â. Sairíamos do shopping direto para o aeroporto. Era sábado, loja cheia, angustiado com a incerteza de conseguir a tela ou não, aconteceu-me o pior, o fantasma dos caixas, uma falta de dinheiro no meu fechamento. 16 reais. Que dor! Estávamos todos com pressa de pegar o avião, meu quadro às pressas, as malas, as notas fiscais, a despedida, sistema lento, cliente estressado, produto com encomenda, cheques pré-datados, tinha que dar nisso: 16 reais! Que dor! São mais de dez Diários de Pernambuco!

MEU AMIGO: Thiago Groba

Comentários (2)

1. jornalistadalua 27/10/2008 - 21h:40

O mais me chamou a atenção foi o agradável uso de dialetos regionais (vice; oxi, mais veja...). Oxalá que a Aninha tenha um final feliz pós-final infeliz aqui citado..rs

ramiles
2. ramiles 29/10/2008 - 09h:08

olá...:D:

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