O Anatomista - Federico Andahazi
{Saudações nobres filhos de Goethe}
Música de acompanhamento: http://www.radioblogclub.com/search/0/classical___beethoven___fur
_elise_mp3
... Apenas leiam a história toda, tenho certeza que irão gostar:
De quando Mateo Colombo conheceu Mona Sofia.
I
Foi durante sua breve estada em Veneza, no outubro de 1557, que o anatomista conheceu Mona Sofia.
Isso ocorreu no palácio de certo duque, por ocasião da festa que o próprio anfitrião ofereceu a si mesmo em louvor ao dia do seu santo. Mona Sofia já era uma mulher adulta e experiente. Tinha quinze anos.
...
A festa não estava ainda pela metade Mona Sofia entrou no salão. Não precisou ser anunciada. Seus dois escravos mouros ajudaram-na a descer da liteira junto ao vão da porta. Se até então três ou quatro mulheres eram as que incitavam a atenção de todos, a mais bela dentre elas não pôde evitar sentir-se uma entrevada, manca ou corcunda em comparação com a recém-chegada. Mona Sofia possuía uma estatura augusta. Usava um vestido aberto nas pernas até o começo das coxas. A seda transluzia perfeitamente todo o seu corpo. Os seios agitavam-se a cada passo nas bordas do decote, que exibia a metade do diâmetro dos mamilos. Em sua testa pendia uma esmeralda cujo o objetivo não era outro senão deslustrar-se ante o resplender dos seus olhos verdes.
Mona Sofia foi recebida por um verdadeiro carrilhão, uma centena de viris badaladas.
II
Mateo Colombo permanecia num canto solitário do salão. Ele tampouco pudera furtar-se à beleza da recém-chegada. Com efeito, teve o atrevimento de deixar falando sozinha uma dama hipocondríaca que não findava nunca de enumerar os seus males e da qual ele não sabia como se desembaraçar.
Mona Sofia foi recebida pelo anfitrião, que imediatamente integrou-a na dança do beijo. Como impunha a regra, o cavalheiro devia tirar a dama com um beijo e, após ensaiar uns breves passos, a dama devia substituir o seu par por um outro, e assim sucessivamente. Tratava-se, naturalmente, de um baile propício para a sedução; as regras eram estas: se uma dama não estivesse interessada em nenhum cavalheiro, a saída diplomática consistia em chamar um homem casado para dançar. Se, em contrapartida, escolhesse um homem solteiro, ficavam claras suas intenções.
...
Mona Sofia executava uma dança que parecia oriental: balançava os quadris com ambas as mãos na cintura. Todos esperavam com curiosa ansiedade o momento em que haveria de escolher um novo par; motivo pelo qual todos os jovens disputavam a primeira fila. Exibindo, sem poupar nenhuma obscenidade, seus volumosos ânimos ornamentados. Porém, Mona Sofia havia conhecido, em outras circunstâncias, vários daqueles cavalheiros cavalheiros sem outros enfeites senão aqueles com que vieram ao mundo, a exibir agora umas virilidades inexplicáveis. Olhava para cada um dos que esperavam ser o escolhido, dirigia-se a algum deles e então, quando parecia estar decidida, girava os calcanhares e partia em direção a outro homem, o qual também acabaria decepcionado.
Sem deixar de se agitar ao compasso dos alaúdes, Mona Sofia abriu passagem entre um grupo de eufóricos galãs, e transpôs o circulo, e então Mateo Colombo viu como os seus seios tremulando na borda do decote, apontavam para ele os mamilos. Mona Sofia caminhava decidida na direção ao anatomista. Em outras circunstâncias, Mateo Colombo se sentiria envergonhado; agora, porém, enquanto via aquela mulher olhando-o como nunca antes se sentira olhado, não pôde evitar a impressão de que não havia mais ninguém no salão além dela. Não obstante, podia ouvir a balbúrdia dos outros e a música dos alaúdes; podia, mesmo, ver a multidão de convidados. Sentia-se exatamente como um rato diante de uma serpente.
Não conseguiria, mesmo que o desejasse, olhar para outra coisa a não ser aqueles olhos verdes que faziam empalidecer a esmeralda pendente entre as sobrancelhas. Mona Sofia levou os seus lábios até os do anatomista, que sentiu o hálito de mente e água de rosas e, então, como uma brisa quente, efêmera, registrou na comissura dos lábios a breve carícia da língua de Mona Sofia. Dançou, sim; não perdeu a compostura, isso não; foi galante. Conseguiu, até, que dali por diante, e até o dia da sua morte, não poderia prescindir daquele hálito de mento e água de rosas, daquela brisa quente e efêmera, do aconchego daqueles olhos verdes. Dançou. Ninguém diria que, como a vítima de uma serpente cujo veneno vai invadindo, implacável, o seu sangue, aquele homem severo que estava dançando acabava de adoecer definitivamente. Dançou e dançou.
Para sempre, até o dia da sua morte, haveria de lembrar que dançou sob o encanto daqueles olhos maliciosos; até o último dia, tal como se comemora a data de uma mártir, haveria de lembrar como fugiram por corredores, jardins e galerias e como beijou, numa alcova recôndita do palácio, ao som do distante sussurro dos alaúdes, aqueles mamilos rosados, duros como pérolas porém mais suaves que a pétala de uma flor. Até o dia da sua morte haveria de lembrar, como uma efeméride negra e no entanto tão doce, aquela voz de lenho ardendo, a algazarra de uma língua cuja matéria era a mesma que a do fogo do inferno. Até o último dia haveria de lembrar que, como alguém que fez promessa de jejum e renuncia ao manjar permitido para adiar a ânsia de comer, rejeitou aquele corpo e, ajeitando o lucco, declarou:
- Quero fazer-vos um retrato.
E como o náufrago que confunde as nuvens do horizonte com a terra firme, acreditou ver amor naqueles olhos verdes repletos de pestanas arqueadas. E não passavam de nuvens.
- Quero fazer-vos um retrato – repetiu, com o ânimo turvado pela emoção.
E acreditou ver emoção nos olhos da serpente.
Mona Sofia beijou-o com uma ternura infinita.
- Podeis ir ver-me quando quiserdes - disse, e num sussurro acrescentou: - Vinde amanhã mesmo.
O anatomista viu-a arrumar o vestido, viu como lhe oferecia por última vez os mamilos duros para que os beijasse e viu-a girar os calcanhares em direção à porta. Então ouviu-a dizer, antes de perder-se do outro lado:
- Vinde amanhã, estarei vos esperando.
E não passavam de nuvens.
...
Continua... href=http://www.radioblogclub.com/search/0/classical___beethoven___fur target=_blank>Beethoven - Fur Elise
Apenas quem tem uma conta no Flogão pode comentar.
1. tranceyangblu 4/10/2006 - 23h02m
rsrs vc tá demais viu???
huuuuuummmmmmmmmmmm