03/04/08 - 12h:58mDenunciar

Relato de uma viagem a SP

Dia 22 dezembro de 2007

Hilton Simões



Finalmente estou na estrada! Comecei rodando pela BR 101 na auto-estrada de Porto Alegre a Osório.....O Misto de alegria, euforia, apreensividade e tranqüilidade é conflitante. O Medo é palavra proibida no meu dicionário, desde que não afete minha segurança física, pois medo se tem daquilo que não se conhece e eu conheço bem a moto que eu estava, minhas convicções de estar na estrada eram inquestionáveis, pois definitivamente depois de muito planejamento de roteiro, pontos de parada e abastecimento, equipamento para levar e etc...eu tinha apenas uma certeza.



De não precisava da metade das preocupações que fiz surgir, o que interessava era estar na estrada rodando e o resto era conseqüência, minha convicção era de que alguma coisa eu buscava, mas não sei o que e se encontraria....Eu queria era aquilo mesmo: Ronco do motor, vento no rosto, velocidade cruzeiro de 100 km/h, música nos ouvidos, dois alforges, roupa de couro e a sempre presente sensação de liberdade que a alma motocilista é agraciada quando se está numa estrada em linha reta com a linha do horizonte a nossa frente....Não tinha idéia de onde seria o próximo ponto onde iria dormir ou me alimentar, apenas uma vaga idéia do em deveria pensar em abastecer a ZECA.



Antes de sair mantive a tradição de abastecer no mesmo posto que sempre abastecia, é coincidência, me dei conta porque o frentista ou o bombeiro, como se diz em Sampa, perguntou para onde eu ia desta vez, caiu a ficha que para cada viagem que faço o abastecimento é lá no posto Charrua perto da universidade Luterana....



A Moto estava pronta um dia antes, carregada e limpa. Já no meio do caminho mudei o roteiro e ao invés de ir direto a praia de Araçá em Capão da Canoa/RS resolvi dar uma passada na casa do meu Pai para dar um abraço de feliz natal e depois ainda numa outra praia , Remanso para abraçar minha Irmã. O Fato de estar indo para outro lugar cheio de expectativas, desconhecimento de caminhos, referências e outros elementos que te passem um mínimo de segurança gera uma certa apreensão, insegurança não!, porque você tem que confiar no teu "taco" de espírito aventureiro e isto faz parte do show mas por via das dúvidas porque não passar e dar um abraço naqueles que você ama ( vá que de alguma M... pelo menos me despedí...).



Depois de alguns questionamentos do tipo: - Tá levando telefone celular? -Manda notícia etc. resolvi pegar a estrada.

O Paizão ficou emocionado na hora da despedida, entendí a reação dele e fui solidário, mas segurei o tranco afinal deveria passar tranquilidade e não queria deixar ninguém preocupado.....



Na minha Irmã ainda pude pegar um feijãozinho com arroz, pelo menos esta seria a minha última refeição com o tempero da família. No almoço conversamos sobre as pretensões sobre a viagem , ví o relógio novo do meu afilhado/sobrinho/Mano Rudí que mostra o horário das marés, temperatura da água e exposição UV apropriado para quem prática o Surfe e eu mostrei que ia no meu pulso o relógio presenteado por ele que me dá as informações de previsão de chuva, altitude etc ( no relato a Foz falo sobre este relógio).



Depois do rápido almoço rumei para o Hotel para encontrar meu filhão e passar o natal com ele.Lá, nos aguardava meus Primos Flávio ( O mineiro mais Gaucho que conhecí!) e Isabela.







Fiquei no Hotel por dois dias aproveitando a convivência entre pesoas que eu prezo muito, tomando muita caipirinha, espumante da melhor qualidade pois esta é uma das qualidade do Primão Flávio e que desenvolvi junto com ele , degustar um bom vinho ( de preferência Argentino tipo Malbec ou uma espumante.Passamos a festa do natal fazendo a ceia no restaurante do Hotel e esperando o Papai Noel, aqui vem uma frustração, a gente compra uns brinquedos bonitos e caros para os filhos e quem ganha os louros é o Papai Noel. O Sorriso do Dudi agradecendo ao Papai Noel, a bateria que ele ganhou ´sabendo que foi vc que pagou é de dar ciúme, o que me consola é daqui uns anos ele vai saber da verdade...



Muitas coisas na cabeça para pensar... De vez em quando me pegava pensando na viagem e naquilo que estava por vir, a maior preocupação é com a segurança pessoal e depois problemas mecânicos, meu maior receio é um pneu furado, desde que tenho moto acho que isto é um fator de preparação, se furar o que fazer? Empurrar até o borracheiro? Tentar o conserto no local? Sei lá vou deixar isto para a hora que ocorrrer e tomara que não aconteça.



A moto ficou estacionada na entrada do hotel, a cada saída junto ao saguão dava uma olhadinha nela no segundo dia percebi que a pobrezinha estava a mercê de muito sol e poeira, minha companheira de viagem não merecia este tratamento mas a garagem que havia disponível era um terreno cercado, sem proteção ao sol então ali ela estava assistida dia e noite pelo menos. Não agüentei ficar sem andar de moto acabei indo no dia 24 a praia da minha irmã para uma visitinha rápida, aproveitei e comprei um repelente pois me avisaram que os borrachudos de lá gostam de sangue novo.



Passada a noite de Natal no dia 25 fomos todos para minha irmã passar o dia e na manhã seguinte pegaria a estrada.



Resolvi sair para Curitiba via BR 101, iria ir até onde conseguisse chegar, eu estava com falta de estrada, queria rodar o dia inteiro, me sentir um aventureiro, um motociclista sem destino sem planos e sem preocupações de tempo de saída e chegada. Vou para a direção de São Paulo, pensei que quanto mais perto chegar do litoral sul estaria ótimo! Viagem tranqüila, sol e algumas nuvens.



A temperatura variava em torno dos 25 graus, céu com poucas nuvens, até passar a divisa de Santa Catarina com o Paraná. Depois, a presença de nuvens no horizonte vindo da serra começou a ficar intensa e um azul mais escuro que o normal era gritante junto a serra para acesso a Curitiba.







Não deu outra! O “azul escuro” ficou mais escuro e percebi que vinha muita chuva. Como já havia passado o parâmetro de abastecimento (150 km) resolvi abastecer num posto antes de Guaruva/Pr”. No abastecimento perguntei para a Frentista se vinha muita chuva, ela olhou para o ‘azulão da Serra” e com uma segurança de quem conhece tudo da região me disse:-Se você esperar uma meia hora você não pega nada de chuva forte, se esperar uma hora mais ou menos só pega chuva fina!. Tudo bem, pensei eu, e será que levo em consideração?. Não arrisquei! Paguei o abastecimento e coloquei o impermeável. Comecei a subir a serra. Paisagem das montanhas muito legal! Mas não deu outra!, peguei uns 20 minutos de uma chuva de lavar até a alma, reduzi a velocidade e segui adiante depois a chuva parou, o conselho da Frentista não saiu da minha cabeça....



A visão privilegiada que tive na serra de Curitiba é quase indescritível. Como havia parado a chuva, no cume das montanhas formaram-se pequenas cascatas que se projetavam nas encostas verticais a partir do cume. Eram no mínimo seis e o contraste das cores do verde da mata virgem, o escuro das rochas e o azul mais claro do céu transformavam a água, ás vezes empurrada pelo vento, como um véu de noiva vestindo as montanhas, apresentando a quem apreciasse aquela visão como um convite ao casamento com a natureza.



Ás vezes observamos a natureza com uma visão fria e esquecemos de nos investir de sensibilidade suficiente para reparar na beleza daquilo que nos cerca. Coisas que podemos ver e sentir quando estamos viajando de moto....



Gostaria de ter tirado uma foto, mas a parte que descrevi era desprovida de acostamento e com muitos caminhões subindo, a oportunidade já havia passado, pensei comigo: - Esta é aquelas imagens que só eu terei para mim....



Tive a sorte de subir aquela maravilhosa serra sem chuva, sendo que uma chuva fina recomeçou ao chegar no topo, juntamente com o Frio, coisa de seus 16 graus. Ainda estava cedo e Curitiba já estava chegando perto e a estrada tranqüila, conclui que minha idéia de chegar a Sampa ainda naquele dia seria possível, mais alguns quilômetros a resposta seria outra.....







Passados alguns quilômetros, passei por vários triciclos aos quais nos saudávamos por sinais de farol ou levantando o braço, o movimento para a descida da serra era intenso e o congestionamento já estava formado, o trevo para a BR 116 em direção a São Paulo apareceu rapidinho e ainda sorri pensando que a viagem estava rendendo muito mais do que pensava.



Prestando atenção nas placas de sinalização dobrei á direita para São Paulo, sabia que a próxima cidade era a 40 km, Piraraquara, me distrai com a nova paisagem pois estava saindo da serra e entrando num planalto quando certas luzes intensas apareceram no horizonte, demorei um pouco para entender o que via, tanto que desloquei meu óculos que até então estava com as lentes escuras para entender o que não conseguia processar.



O Horizonte era uma cor apenas, preto!, Nunca tinha visto cena daquelas! Nuvens carregadas, pretas e um contraste com as árvores que na linha do horizonte apenas delineavam o formato das árvores e morros, os raios que formavam eram assustadoramente potentes, contínuos e intensos.....há muito tempo que não sentia um “pavorzinho” daqueles por causa de uma chuva, mas aquela era desproporcional!. Nem pensei, parei no primeiro posto e sem retirar o capacete entrei na sala de atendimento e perguntei onde encontraria um hotel ali próximo e a resposta foi a que eu não esperava:-Daqui a 40 km talvez tenha hotel.....perguntei em tão como poderia voltar e a moça me ensinou um caminho que era por uma estrada de terra, na contra mão da rodovia. Peguei este caminho.



Tive que mais uma vez andar por uma estrada de terra (achei que a experiência para Foz do Iguaçu era a última) com muita caliça e buracos cheios de água. Pobrezinha da ZECA estava fazendo um trail forçado. Para andar na tal estrada tive que tentar ficar de pé sobre a moto para tentar distribuir melhor o peso e não perder equilíbrio e também suportar os trancos por causa dos buracos. Mas consegui chegar até a rodovia, não sem antes passar por uma vila em que os olhares surpresos eram obrigatórios para que olhasse uma custom cromadona numa estrada de terra toda embarrada.....



Rumei para São José dos Pinhais atrás de um hotel, depois de achar um retorno elegi um hotel muito simples que me inspirou por ter minhas iniciais, hotel HS, pedi para ver o quarto e me surpreendi garagem, café da manhã, cama boa e perfumada, banheiro e toalhas limpas! Apesar de ter trocado de quarto porque o chuveiro estava estragado (fui descobrir isto, depois que estava abrindo o registro do chuveiro), a estada foi muito boa.



No que eu entrei no quarto a tormenta que eu havia escapado chegou. Eu tinha razão quando na minha decisão exclamei que o mundo estava desabando, foi muita água, muita trovoada e muitos raios.



Depois de passar a chuva e ter tomado um banho peguei a moto e fui comer num “MAC “ ali perto e aproveitei para entrar no orkut e deixar notícias aos amigos que estava acompanhando a aventura.



Arrumei a bagagem para o próximo dia, torcendo que não chovesse e ainda tinha muita fome de estrada, tinha rodade apenas 7 h de viagem. Não sei por que fiquei com uma frase que me apareceu nos pensamentos “Acelerar e amar é preciso!”. Fui dormir.



Até o momento a ZECA fez as seguintes médias: 14 km/ l; 17 km/l; 21,4 km/l e 22,5 km/l gastei R$ 125,00 em abastecimento e lanches e R$30,00 de hotel (muito barato!)

Fica a dica: Quando entrar no quarto e decidir ficar, certifique-se de duas coisas: Chuveiro estragado e vaso sanitário entupido.



No dia Seguinte (27/dez) acordei por volta das 7 h , comi um pedaço de mamão e uma xícara de café acompanhada de um sanduíche simples de pão francês, não queria encher o estomago para não dar sono....Partí em direção a Sampa com tempo bom!

A Estrada até a divisa de Sampa é boa, pista dupla para cada sentido, poucos buracos e a paisagem é dividida entre trechos de planalto e montanhas.







A viagem neste trecho faz o piloto relaxar e devido ao pouco movimento proporciona uma tranqüilidade ao piloto, tanta tranqüilidade que faz a gente passar por sustos que servem de avisos ou sinais, como todas as viagens que fiz até agora.



A Certa altura da viagem, ainda no Paraná, estava observando uma represa e alguns detalhes do tipo nível da água, tipo de solo coloração da água, ligação entre lagos e me dei por conta de várias coisas em poucos segundos.....Subitamente senti que a moto havia ficado mais leve ( sem atrito), a cor da estrada mudou, o ronco do motor também pareceu fazer menos esforço e me dei conta que havia passado uma piscina de óleo, possivelmente deixada por um caminhão estragado na noite anterior!.



Depois que passei a parte suja percebi que eu deveria estar no chão, mas o universo conspira ao nosso favor! A sensação é de surpresa e alegria, a minha sorte, talvez fosse a de que mantive a aceleração e sem manobras bruscas porque simplesmente não percebi o perigo, comparei minha passagem pela piscina de óleo com a de passar com a moto sobre uma corda bamba.



Depois deste susto a viagem seguiu tranqüila até a entrada em Sampa.

Quando cheguei à divisa do Paraná com Sampa, parei para tirar uma foto embaixo das placas de divisa como faço sempre quando chego a um estado que ainda não visitei de moto.







Ainda pretendo revelar todas elas e colocar num quadro no Bodegrill junto com as outras que tem um significado especial para mim. Tirada a foto acelerei e adentrei em São Paulo, mais uma vez estava conquistando um objetivo traçado, a questão é muito simbólico, ás vezes passo por estradas de carro ou chego a outro estado até mesmo de avião e sempre me pego pensando: - Será que virei aqui de moto? E sempre acabo vindo! São Paulo era uma destas constatações....



Mas ao passar pela Divisa me ocorreu de fazer o que sempre faço quando retorno ao meu querido Rio Grande do Sul, cantar uma música que é ícone por aqui que em certa parte diz “ ...é o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul terra e cor. Onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor....” mas estava entrando em Sampa e não sabia cantar o Hino do estado de Sampa então como eu estava indo para a casa de um corintiano e eu como bom Gremista ( time que não deixou o timão ir para a segunda divisão!) cantei numa primeira vez:- Salve o corintias! Campeão dos Campeões, eternamente...... Mas não pude deixar de cantar na segunda vez uma paródia que saiu na hora:-Salve o Corintias! Campeão dos campeões, eternamente na segunda divisão!.....Soltei uma gargalhada dentro do capacete e me arrependendo da minha atitude, mas perco o amigo mas não perco a piada! (desculpe ai PK! E demais “corintianos”)

Mas minha alegria e tranqüilidade não seriam mais a mesma após passar a divisa.....Quem mandou em brincar com o corintias!.....



Depois da divisa a estrada continuou boa por um tempo, mas de uma hora para outra surgiram buracos que cabiam uma ovelha dentro.Não demorou muito para eu achar um deles, apesar do cuidado na pilotagem, fui pego numa situação que, enquanto atrás de um carro, outro estava ultrapassando, neste momento apareceu um buraco sem a opção de desvio então fui com a roda cheia para ele, suspensão e pressão dos pneus foram solicitadas no limite, por sorte ou proteção do GADU o máximo foi uma leve vibração na roda que não iria atrapalhar o seguimento da viagem, mas a velocidade foi reduzida de 100 km/h para 60 km/h em média ás vezes até menos....



Assim segui a viagem até a entrada para a SP 22 para Peruíbe. Até chegar a este ponto curti uma paisagem muito bonita com montanhas limpas, poucas matas, a grama predominava por estas montanhas, deixando-as com suaves curvas como se fossem divas aguardando para serem retratadas por viajantes ávidos de beleza, cores e luz.



Apesar da paisagem, esta etapa foi cansativa, pois as seqüências de buracos tornavam a pilotagem tensa e demorada aos poucos o movimento de carros aumentava.



Ao chegar à região de Peruíbe percebi a diferença do que eu até então conhecia de litoral, aos poucos fui chegando às praias, minha visão de litoral era a que eu tinha aqui do sul, praias tranqüilas, organizadas, casas bem cuidadas, ou seja, praia aonde as pessoas vão para descansar e curtir. Confesso que minha primeira impressão não foi muito legal, mas estava aqui para conhecer, então vamos adiante.....







Meu sentimento prevencionista estava mais aguçado até por estar num ambiente novo onde a televisão nos enche de informações sobre a violência e acidentes com motociclistas. Foi então que um objeto no céu me chamou a atenção, duas pipas entrelaçadas caindo por sobre a rodovia, imediatamente a palavra cerol me alertou para mais este risco. Daí lembrei que o uso de antenas é recomendável pelas estradas e cidades. As pipas seriam uma constante na minha estada pelo litoral sul de São Paulo.



Parte do meu objetivo estava alcançado, estava no litoral Paulista, não tinha decisão de onde ficar, na internet Peruíbe me deu a impressão de ser uma cidade movimentada, a paisagem de muitas casas inacabadas e mal cuidadas me fizeram desistir da idéia de me hospedar por lá foi quando vi a placa escrito Itanhanhém e gostei do nome pois me lembrou o FHC falando sobre o nhém-nhém-nhém da política, resolvi ficar por lá, passado alguns quilômetros fui para a avenida beira mar que se chama Av. Senador Mario Covas e comecei a procurar lugar para dormir, isto eram 14h.



Depois de algumas paradas achei um hotel com garagem e estacionei por lá. O Hotel ficava na beira da praia, depois de instalado saí para comer alguma coisa e conhecer o local, parei para tomar uma água de coco numa barraca e observar as pessoas.







O primeiro impacto que faz a gente se sentir fora do contexto é o sotaque. Meu sotaque de gaúcho parecia que estava mais carregado que o normal, mas isto foi legal, pois as pessoas tornavam-se receptivas quando puxava assunto. Deste episódio posso dizer que conheci pessoas muito legais que ainda hoje lembro exatamente como elas são e o que conversamos.



Descobri que não estava onde eu pensava, acabei ficando na praia de Mongaguá que fica colada a Itanhanhém, não fez diferença. No dia anterior, após dormir até tarde, saí de moto para conhecer a parte Sul do litoral Paulista, fiquei surpreso com o que vi. Não esperava que tivesse tanta gente num lugar, era muito movimento, principalmente na região de Praia Grande. Vi cenas que se não fossem reais poderiam ser de filme. A primeira foi a ultrapassagem de três “motoqueiros” pela direita sendo um deles com carona em velocidade acima do normal e com jeito de assustados e logo a seguir a polícia atrás, outra com a diferença de apenas uma quadra, um banhista sendo recolhido por uma ambulância e logo a seguir uma mulher recebendo respiração boca a boca num dos bancos que ficam a beira mar, possivelmente afogamento.



Outra cena, a mais surrealista em minha opinião, foi a de um cara sem capacete e sem camisa, montado numa minimoto sendo perseguido por um carro da policia com a sirene acionada. A bizarrice da situação era a de que os policias se fossem a pé não pegavam o cara e de carro tinha que ir devagar cuidando para não atropelar o maluco.



Vi outras coisas também, mas por todo trajeto, tinha que ter o cuidado das pipas e as linhas de cerol, era criança e adultos soltando as ditas assassinas, só no período que estive por lá quatro motociclistas haviam caído e tido ferimentos graves por causa desta insanidade chamada cerol. Um destas foi a de uma motociclista, literalmente assassinada por uma linha de cerol, meia hora depois que passei pela SP 55. Não consigo definir este absurdo.



Terminei meu passeio quando cheguei ao forte de Itapoa em Praia Grande, neste lugar resolvi comer umas esfirras de carne, esperava comer o que conhecia, tipo Habib’s, mas fui servido com uma de carne crua misturada com miúdos. Tem certos miúdos de carne que não consigo comer, tipo rim e fígado, eram estes os que estavam na esfirra, mas o conjunto de carne crua, miúdos e tempero deram um sabor tão peculiar a iguaria que comi duas.



Esta é uma das certezas que tenho quando viajo, comida, hábitos e costumes não devem ser negados quando se vai a uma terra estranha. Não me arrependi de ter experimentado, estava muito bom! Era mais uma história para contar ao meu filho e meus amigos.....



O Passeio de 90 km serviu para testar a Drag Star (ZECA) no trânsito urbano, o trânsito lento é o que predominava no litoral sul, O aquecimento do motor não é tão intenso como imaginava, a ciclística não é como uma Hornet mas é aceitável para as características da DS o conselho que posso deixar é que para circular numa rua movimentada e no limite de tráfego , a paciência e prudência é a melhor forma de pilotagem, fica menos cansativo ou seja relaxa e aproveita, o consumo aumentou um pouco mas nada que faça o proprietário abrir falência...



No outro dia parti cedo para Ubatuba estava em Praia Grande, quando me deparei com a realidade Paulistana dos engarrafamentos, minha intenção era de sair de Mongaguá e ir primeiro a Parati que fica a cerca de 200 km de distância e voltar ao final da tarde para Ubatuba para encontrar o Mano PK.



Que desgraça! Passei o dia inteiro na estrada num anda e pára. Poucas vezes pude curtir detalhes da estrada, o calor começava a incomodar e a tensão de estar no caminho certo, apesar de fácil, tomava minha atenção. Sabia que em certos trechos se errasse o retorno consumiria tempo, distância e stress desnecessários. Até chegar em Bertioga não curti muito a viagem.



Nas poucas vezes que consegui observar a paisagem e particularidades da estrada, a certeza era a de que eu estava num belíssimo lugar, cercado de uma natureza abundante e em alguns pontos pouco explorados, o contraponto era o tráfego intenso que destoava totalmente daquilo que a paisagem exibia. Cheguei a ver macacos, por aqui chamamos de Bugio, em certos pontos de parada, coisas que só quem está de motocicleta tem o privilégio, optei por ir com um capacete aberto pensando nesta possibilidade, o de um contato maior com o meio ambiente.







Passei por várias praias e o movimento estava menor, quando estava perto de uma cidade é que as coisas complicavam. Minha velocidade era não mais de 50 km/h, não por causa do tráfego, mas pela beleza das praias que se observa a cada curva ou topo de morro.



Eu nunca tinha visto um lugar tão lindo como aquele, eu estava visitando o Paraíso. Minha vontade era parar em todas as praias Mas são tantas e tão bonitas que o ideal é voltar por lá, montar um QG e sair para visitar uma ou duas praias a cada dia, melhor ainda se for de barco, ai então o passeio será completo.



Fiquei satisfeito em tirar fotos enquanto andava de moto. A estrada (SP 55) é ideal para se curtir de moto, curvas fechadas, subidas e descidas garantem a emoção para quem curte as agradáveis sensações proporcionadas por uma pilotagem tranqüila e consciente. Recomendo esta estrada a todos motociclistas. Se a moto for uma de ciclística curta (Hornet, Fazer, V strom etc...) o prazer é multiplicado...







Depois de 6 horas de viagem para um percurso de cerca de 100 km, cheguei a Ubatuba.

Parati não era mais meu objetivo.....



Mas Ubatuba ainda não era meu destino, procurava a Praia de Maranduba e não encontrava então num posto de gasolina em Ubatuba pedi informação a um grupo de motociclistas que abasteciam suas DS, HD e Shadow’s. Com a fraternidade característica dos motociclísticas se dispuseram a me levar até a praia que eu procurava. Foi uma ótima aula de pilotagem. Os caras quando pegaram mais um dos congestionamentos saíram entre as pistas e eu sem alternativa saí atrás.



Senti-me o próprio motoboy tirando “fininho” dos carros e até uma sensação de poder, pois os carros quando nos viam abriam dando passagem, eu sabia que não era tanto por educação, mas pelo senso comum que se espalhou por aquela região que se não abrir “os caras levam o retrovisor junto”, fato este que desmerece nossa imagem....



Percorremos vários quilômetros assim, vi e fiz muita coisa que não faria novamente, mas a situação não me dava muita opção de escolha.



Finalmente cheguei a Maranduba!. Liguei para o meu mano Paulista que me deu as coordenadas onde eu devia esperar, era só cuidar à esquerda e esperar no posto BR.

Quase que a viagem terminava por ali.... Quando estava na procura pelo dito posto de gasolina em meio ao congestionamento e desta vez atrás de um carro, o trânsito subitamente parou e eu em reação de segundos, larguei minha força nos freios....nunca pensei que frear uma Drag Star levantaria tanta fumaça e cheiro de borracha queimada dos pneus.



O Coração disparou, parecia que todos estavam olhando para mim. A Vergonha tomou conta pela “mosconice” do cara que se diz prevencionista e prega segurança etc...

Mil coisas passam pela cabeça da gente nesta hora, e se eu tivesse batido? O que faria? O que estragaria na moto? Será que teria condições arrumar? Onde arrumaria? O Check-list é imenso, fiquei tão atordoado que quando me dei conta havia passado da praia. Retornei e finalmente encontrei o posto BR, e nele também estavam os manos que me levaram até a Maranduba.



Agora podia dizer que estava num porto seguro, neste local eu ficaria três dias....

Cheguei a casa dos meus anfitriões todo molhado de suor o calor era de cozinhar o cérebro... acertei em ir com uma calça jeans e camiseta manga comprida, fui protegido do sol e o calor com a moto em circulação não é estafante.



A Família do PK é numerosa e muito legal, a risada por lá é constante, fiquei admirado pela harmonia da casa, a recepção foi calorosa, de cara me senti em casa, lá estavam o seu PP (Paulo Pai) , Dona Fátima ( não conseguia chamar pelo nome apenas!), Marcelo “teko”,Palmiro “Mirão”, Carlos “Minhoca” e os amigos Diego “Baboo”, Willy “ Wilber”, além do meu sobrinho Paulista Enzo que finalmente conheceu o Tio Gaúcho. Fora outros amigos e amigas entre elas a Tatiane “Tati” que estavam por lá. A Família tem uma cultura Nipônica com a alma de uma grande família de coração Italiano pelos sentimentos fraternos que estão presente naquele ambiente.



Grandes papos me foram oportunizados junto ao seu PP, uma parte da minha viagem estava ganha com as conversas que pude participar com ele o Fábio e seu cunhado que me abriu um horizonte sobre a potencialidade do nosso País.



Tive a oportunidade de aprender um pouco de japonês com os Irmãos do PK e um pouco da assessoria do seu PP (um grande Sensei ni jongo – Profesor de japonês). Coisas imprescindíveis num mundo globalizado e para me comunicar com o povo Japonês, segundo eles.



Foram coisas do tipo:

-Onaka sui ta! (estou com fome)

-Kusai ( cheiro ruim! Qualquer semelhança é mera coincidência!)

-Oichi (gostoso!)

-I Nioi (cheiro gostoso!)

-Doko i ku! ( esta foi a expresão que me levou a querer saber mais do japonês, pois achei que estava me zoando! Significa: Onde você vai?)

-Ohaio! e Oiassumi! Respectivamente: - Bom dia e Boa noite!



E para os momentos de mau humor:

-Kuno yaro! ( vai te F....!)

-Urusai (Não enche o saco!) ou então Baka! ( Bobo!)



Depois de alguns Saquês com morango eu falava fluentemente como um bom Yoparai! (Bêbado!). Foi uma grande diversão aquela aula.... O PK me levou para conhecer algumas cachoeiras, que são pontos turísticos por lá, algumas delas aparecem nas fotos da minha página no orkut. Conheci a cachoeira do “Zé correia”, do seu Duda e da Renata ou cachoeiras 1.2 e 3.







Até por uma Jararaca-açú cruzamos em meio a mata. A natureza é exuberante naquele local, encontrei morangos silvestres, sabia que existia, mas apenas em literatura, o gratificante é ter descoberto sozinho. A mata é fechada e a presença de animais e pássaros, habitantes da mata atlântica, é visível, quanto mais afastado da cidade, mais espécies vão aparecendo. Era comum ver gambás circulando a noite entre as casas. Como eu disse ao PK: -Vocês merecem ter uma natureza assim por aqui, é uma compensação pelo stress que o trânsito de Sampa dá para vocês!.







Para variar vi uma cena inusitada, um coelho no telhado de uma casa,( só em São Paulo para ver coelho em telhado e pássaro no chão!).Tirei uma foto para não dizer que estava mentindo.

Pude mostrar a todos meus dotes culinários fazendo uma ”paeja Gaudéria” e um arroz de carreteiro além claro do Quase verdadeiro churrasco Gaúcho, não saiu do jeito que eu queria porque lá os cortes de carne são diferentes, no mesmo pedaço de costela vem minga, vazio e peito. Mas mesmo assim consegui fazer algo do agrado de todos.

Passado muitos banhos de piscina, papos e festa de final de Ano o retorno para o Sul era necessário.....



O RETORNO - saída as 5:00Hs da manhã



A Despedida foi ás 5 horas da manhã enquanto eu saí com a ZECA o PK, PP e Dna. Fátima foram de carro. A despedida foi rápida até porque se demorasse muito, confesso que o nó que me deu na garganta se transformaria em lágrimas, pelos momentos fraternos que passei com aquela família a qual guardo com muito carinho em meu coração.



Assim que chegamos a SP 55 em direção a Ubatuba o trânsito segurou o carro deles e eu acelerei, minha meta era chegar até Paranaguá em tempo suficiente para procurar um hotel e conhecer a cidade.



Subi a serra em direção a São Paulo pela rodovia dos Tamoios, coisa linda aquelas curvas e a paisagem, a temperatura de amena passou ao frio me obrigando a usar a jaqueta de couro a variação da temperatura foi de 23 graus para os 18 graus no topo da serra, ainda voltarei para descer aquela serra e curtir melhor a Paisagem com menos movimento....



No topo da Serra, segui em direção para Mogi da Cruzes para cruzar a megalópole Sampa, a Rodovia tem quatro ou cinco pistas, como ela pedia acelerei e mantive a média dos 140 km até perceber que não tinha sentido andar tanto, comecei a pensar nos riscos que estava correndo, baixei a média para 120 km/h e ainda assim achando que era muito. Não tem muita coisa para se olhar neste trecho, a não ser de estar numa rodovia larga e bem sinalizada, aquele tipo de Rodovia era uma novidade para mim.



Meu foco estava em não errar o caminho e o receio dos assaltos, pipa já era passado. Aos poucos, pensei eu apareceria Sampa no horizonte.... Que nada! De repente aparece um povoado de casas que a gente acha que é uma vila, mas já é o começo de Sampa, depois era só casa e o trânsito aumentando. Quando percebi já estava nas Marginais. A Sinalização é muito boa! Para se perder só se não ler as placas. Pude ter a experiência de passar pelo trânsito de Sampa sem dificuldade. Só mantinha minha atenção com os motoboys, quando se aproximava eu abria passagem, fazia sinal para passar e ficamos numa boa.



Graças às orientações e dicas do S. PP e do Mano PK, encontrei fácil a entrada para a rodovia Régis Bitencourt, nesta altura já estava em Taboão da Serra, nem percebi que Sampa era passado. Nesta parte conquistei mais um objetivo: Mandei embora os “fantasmas” de andar de moto por Sampa.



Quando entrei na rodovia começou a chover, parei e coloquei o impermeável, logo a seguir, parei novamente para colocar o colete de sinalização, havia muito buraco e o trânsito de caminhões era intenso. Rodei mais um pouco e o espelho direito depois de passar por um buraco soltou, parei novamente depois de enfrentar um trânsito lento de cerac de 10 quilometros por causa de uma carreta estragada numa subida e mais atrás um acidente por causa do trânsito lento, perdi uma hora aproximadamente neste trecho. Depois de fixar o espelho e usar as ferramentas da moto segui viagem abaixo de chuva. O trecho era ruim, a chuva não tornava muito visível aos outros carros, mas acredito que pela distância, prudência e baixa velocidade de curso que tomei ( 80km/h) tudo correu bem.



A Serra é igualmente bonita, mas com visíveis sinais de exploração desmedida expondo a agressão contra a natureza. Como Engenheiro civil com especialização em rodovias posso dizer que identifiquei muitos pontos potenciais para desabamentos na rodovia por falta de cobertura no solo.

Meu desejo embaixo daquela chuva e daquela estrada esburacada e insegura era chegar na serra da divisa de SP com o Paraná. Lá eu sabia que também tinha buracos mas a pista era mais larga, a viagem seria menos tensa por lá. Ás vezes não contamos com todas as variáveis no nosso planejamento. Naquele trecho acabei conhecendo um inimigo da pilotagem que ainda não conhecia.....



Deixei a rodovia Régis Bitencourt , a rodovia da morte, para trás, foi um alivio quando avistei a divisa de São Paulo com o Paraná, a chuva tinha terminado e a temperatura estava agradável já havia umas cinco horas que eu estava rodando, aos poucos fui relaxando e curtindo a serra do Paraná novamente, os caros já pasavam por mim numa velocidade ainda maior, a minha permanecia entre os 60km/h e os 90 km/h, mais do que isso era perigoso por causa dos buracos. Comecei a pensar em coisas sobre mim, meus pensamentos se transportavam para coisas da minha vida que tinha que resolver, decisões importantes que mudam após ter uma visão diferente das coisas.....solidão para mim não era um inimigo era uma companhia.



Certas coisas são certas na vida, estar ou ser sozinho são duas constatações absolutas no nascimento e na morte. Chegamos e partimos sozinhos. O Motociclismo nos desenha isto; - Nascemos para a estrada quando partimos para uma aventura, carregados de energia, entusiasmo e vontade de percorrer quilômetros de aprendizado e conhecimento. Depois quando chegamos é um pouco do morrer.....A vontade é de ainda estar na estrada comendo os quilômetros e alisando o asfalto.....



Na medida em que meus pensamentos me levavam a sonhos, conclusões e divagações o sono interrompeu meus sentidos, quando percebi minha concentração estava afetada, não conseguia pilotar direito, meus olhos estavam pesados. Manter os olhos abertos eram uma dificuldade, o mínimo pensamento mais objetivo era motivo de susto. Não tinha mais adrenalina no corpo para me manter acordado. Café, chocolate bala ou apenas parar para descansar era impossível, ou pela falta ou impossibilidade, eu estava no meio de uma reserva florestal sem nenhum recurso de posto de gasolina ou algo que pudesse me dar guarida. Recorri a vento no rosto, muito tapa na cara, cantar bem alto, mas era uma batalha difícil.....



Consegui vencer este trecho com muito sono até chegar ao primeiro posto já em Quatro Barras/Pr onde tomei um café bem forte e um pastel. Encontrei um casal de Paranaguá que me aconselhou a não descer a serra da Graciosa, pois a pista estava muito escorregadia, para quem não sabe, esta estrada é paralelepípedos. Durante a conversa uma família estacionou perto de onde estávamos conversando e puxaram conversa conosco peguntando sobre as motos e a coragem estarmos viajando e etc... mas ao final revelou da vontade de comprar uma moto para fazer o mesmo....novamente a velha máxima do motociclismo se revelava: - Liberdade é sentir o vento no rosto; estar na estrada numa reta sem fim.... Trocamos adesivos e seguimos viagem, eles para São Paulo eu para Paranaguá e a família e seu patriarca foram para um lanche. E seguimos nossos objetivos.



Resolvi seguir para Paranaguá pegando a BR 277 que já conhecia e queria andar de moto por lá. A Paisagem, o asfalto e a. sinalização são ótimos. O desagradável é o pedágio de R$ 10,00 para a motocicleta, fiquei pensando para aqueles que utilizam a rodovia com mais intensidade. Deve ficar bem caro....

Antes de chegar perto de Paranaguá vi uma placa indicando Morretes/Pr, entrei para esta cidade e mais adiante outra placa para Antonina/Pr, resolvi ir até lá, afinal não tinha pressa nem destino certo....”on the road!”....Cheguei a Antonina. Paixão á primeira vista! Onde eu fui parar!?

No primeiro hotel que encontrei , parei, a certei o preço (R$25,00 com Café!) e fiquei. Guardei a moto e fui conhecer a cidade e tirar fotos...







A Cidade é linda! Muitas casas antigas da época de 1800. A Igreja data de 1719, circulei pela cidade, passei por uma Lan house e coloquei os e-m e o orkut em dia.

Fiquei encantado pelos detalhes construtivos expostos nas constuções, com argamassa feita com óleo de baleia e areia grossa, tirei fotos belíssimas naquele lugar. A cidade demonstra sinais de que teve um forte comércio, a riqueza está estampada nas casa com eiras e beiras. Segundo informações de um morador de lá, a cidade nasceu a partir do comércio de várias especiarias da região, uma delas a erva mate, que utilizavam o porto para enviar suas mercadorias para outras províncias. Conheci a fruta pão que não tem utilidade para alimentação.



Existem algumas árvores plantadas na praça perto da enseada. Nesta enseada existem vários restaurantes, num deles comi o Barreado, comida típica da região. É um prato a base de carne de panela, cozida durante quatro horas que fica desfiada, come-se acompanhado de salada, arroz branco, banana e laranja. O Sabor é peculiar, apesar de eu achar que podia ser mais temperada, mas é gostoso e vale a pena experimentar. O Show a parte fica por conta do garçom que ao preparar o pirão coma carne do barreado, diz que para saber se o ponto está certo, vira o prato acima da sua cabeça e se o prato estiver pronto para ser consumido, não vai cair....ele fez isto acima da minha cabeça....não caiu e eu filmei tudo! Foi muito legal!







O momento formado pela minha refeição, sozinho acompanhado pelo murmúrio das pessoas em minha volta e ao fundo uma baia lacônica e bela, com as montanhas e o mar emoldurado pelas janelas do restaurante me faziam ter certeza da minha pessoa. Ali estava eu, redescobrindo minha persona. Foi um misto de solidão e engrandecimento da alma. Vi-me como uma pessoa que não precisa de nada para ser o que sou apenas eu! Estranho em ter esta revelação numa situação daquelas.....







Arrumei minhas coisas para partir no outro dia, pela manhã tirei mais algumas fotos da estação de trem e segui viagem em direção a Paranaguá. O Dia estava ensolarado e temperatura agradável (24 graus), logo que saí uma placa indicava para S. João da Graciosa/Pr, pensei: -Porquê não? Vou pelo menos até onde começa a estrada secular....A Estrada mostra todo esplendor da natureza, a visão de estar indo para a direção de um paredão de pedras imponentes é imensurável, ao largo as árvores e o verde dos campos, o aroma da terra molhada e perfumes que variam de doces aos amadeirados tornam a passagem por esta estrada , um daqueles momentos marcantes na vida de um aventureiro pois são visões que ficam gravadas na memórias. Aquele foi um momento que marcou minha viagem. Senti uma forte sensação de liberdade e a verdadeira essência do espírito motociclista. Acredito que entre outros ingredientes um dos principais deve ser o vento no rosto, a paisagem, a velocidade certa para o momento e uma estrada com um bom asfalto formam esta mágica que o motociclismo proporciona.







Com toda aquela magia segui para percorrer a Serra da Graciosa. É uma estrada mágica, deve ser uma estrada obrigatória para todos aqueles que se querem considerar motociclistas, tudo está contido naquela estrada. Emoção, riscos, natureza exuberante e intocada. Passei por vários motociclistas que também aproveitavam as mesmas sensações que eu.







Resolvi ir até o topo onde a necessidade de reabastecer fez com que eu chegasse até quase Curitiba, lá o tempo apresentava nuvens carregadas e parecendo que a mesma chuva que me fez interromper o trajeto de Curitiba a Sampa estava lá me esperando, nuvens negras e pesadas de uma grande tempestade me aguardavam no Horizonte.

Depois de reabastecer, observei a movimentação das nuvens e conclui que se descesse novamente a Serra da Graciosa escaparia da tempestade. Puxa! Que ruim! Tive que fazer com satisfação a descida da Graciosa...Desci e ao final senti que tinha encerrado uma missão que nem tinha conhecimento, percebí que havia completado um ciclo. Paraná estava quase completo! Peguei a chuva logo após Morretes/Pr. Sobre esta região só tenho a registrar que deve ser um objetivo daqueles que querem se sentir motociclistas.....







Novamente na BR 277 fui em direção ao litoral. Por cerca de 50 km conheci todo litoral Paranaense, me chamou a atenção que as parais são semelhantes as nossas aqui do sul, a parte mais bela em minha opinião é a Região de Matinhos onde tive de pegar uma balsa para atravessar para Guaratuba/Pr (experiência interessante...)

Não posso deixar de registrar a beleza das mulheres Paranaenses (pelo menos no litoral!). As gaúchas são belas, charmosas e elegantes, mas as Paranaenses....dá vontade de casar várias vezes...







Após muitos trechos com trânsito lento consegui chegar na divisa com Santa Catarina, a viagem estava sendo muito rápida. Minha intenção de parar em Joinville/SC ficou para trás, o Sul estava me chamando e a cada cidade que alcançava a próxima era meu objetivo para parar e descansar. Assim foi até Florianópolis/SC onde o tradicional congestionamento de Palhoça/SC fez diminuir o ritmo, mas consegui passar tranqüilo, graças as técnicas adquiridas com meus amigos motociclistas de Sampa driblei o trânsito.



Um fato que me marcou foi que havia um acidente com danos materiais e quando esta passando por ele, que era a causa do congestionamento. Havia um carro Argentino na minha frente e a frente deste um vazio na estrada pedindo para ser preenchido por carros e motos. O “Hermano” simplesmente parou para olhar os danos materiais, não tive dúvida, pensando naqueles por quem passei suportando calor e trânsito lento, levantei a viseira e gritei.: - Anda-lê seu mierda!, num portunhol cheio de raiva. Funcionou! o cara acelerou, ultrapassei e segui meu caminho...







Determinei que minha parada fosse após Garopaba/SC, calculava que ainda tinha três horas de sol e após Garopaba/SC definiria onde iria dormir. Passando Imbituba/SC a noite já estava quase presente, foi quando ao ultrapassar um caminhão na BR 101 ouvi o barulho dos freios segurando o caminhão e logo a frente um desvio mal sinalizado, o caminhoneiro segurou percebendo o obstáculo na pista, graças a ele consegui passar com segurança por entre os sinalizadores de pista, acredito que o colete refletivo foi um grande auxilio , pois percebia que a passagem era concedida, quando as pessoas me avistava no retrovisor . Aquele momento de risco foi interpretado por mim como um sinal, estava na hora de parar. Depois de 11h e 45 minutos encerrava minha jornada motociclistica. Logo a seguir encontrei um Hotel simples mas limpopelo preço de R$ 20,00 sem café da manhã.



Alguns caminhoneiros ficaram observando minha moto e puxaram papo, ficamos conversando enquanto desarrumava as bagagens, falamos sobre a moto e a minha viagem. Ofereci em pagar uma cerveja para eles, recusaram de forma prudente, mas combinamos jantar na lancheria ao lado para saber mais sobre minha aventura. Assim foi feito, conversamos por cerca de uma hora ou mais e depois fui dormir. Falei sobre minhas impressões da viagem e eles sobre a vida de caminhoneiros, suas dificuldades e o que presenciam nas estradas. Estórias mito diferentes da minha realidade: Andarilhos, aventureiros sem destino e objetivos, prostituição etc.. Foi bom trocar idéias e principalmente conhecer um mundo diferente do meu. Amanhã o Sul me receberia e novamente poderia dar um abraço no meu filho.

Não tinha a sensação de cansaço mental apenas o físico.



Num dado momento em que estava deitado comecei a observar o quarto, ele tinha móveis antigos e um armário que me lembrou minha infância, comecei a imaginar coisas como fantasmas ou seres estranhos. Cheguei a pensar se nunca tinha acontecido algo de pior naquele quarto pois a aparência dele assustava, será que um crime ou suicídio já havia ocorrido por ali? E se alguém escondeu um corpo dentro daquele armário? Ou se ali estivesse uma alma esperando para se manifestar? Levantei abri a porta do armário. Estava vazio. Fiquei falando para mim: - Pára de Nóia e vai dormir Hilton! E fiz isto acho que doze horas de moto deixam a gente fora da casinha..... Dormi!



Apesar de estar muito cansado do dia anterior acordei cedo cerca de 6h, os caminhões que estavam estacionados na frente do hotel me acordaram enquanto aqueciam os motores. Levantei arrumei as poucas coisas que estavam desarrumadas me despedi dos fantasmas do quarto e fui embora, abasteci a moto e segui meu caminho...

Estava perto do meu destino a casa de minha irmã, e confesso que passou muito rápido, a estrada ainda estava vazia e percorrer quase 300 km era pouca coisa. Neste momento sempre penso que por estar perto o cuidado deve ser redobrado, pois estatísticas comprovam que os acidentes ocorrem mais vezes no entorno de 10 km da casa ou do destino e isto ocorreu comigo. Depois de ter percorrido toda a serra do rio do Rastro, 700 km e pouco antes de chegar em casa resolvi pegar um atalho que tinha estrada de chão e cai num macio de areia. Desde então procuro pensar este episódio para lembrar que devo ter mais cuidado ainda.







Os pensamentos já eram para o passado, de tudo que conheci e das pessoas com quem tive o privilégio de estar junto. Não posso dizer que conheci uma ou outra pessoa em especial que tivesse marcado minha viagem. Todos foram importantes! Desde a Dona da Barraca que puxou papo comigo em Monganguá até o desconhecido que me perguntou se eu não tinha medo de furar um pneu.



Uma viagem pequena como esta que eu fiz é significativa, não pelos quilômetros percorridos, mas principalmente porque o que se busca está dentro da gente e eu encontrei!. Tiro como lição desta viagem o fato de que não precisamos de outro para ser feliz, precisamos mesmo é descobrir aquilo que nos faz feliz e ser como tal, independente do outro, ter coragem e atitude. Eu aprendi isto! Voltei mais centrado, com uma visão diferenciada daquilo que me incomodava antes de viajar.



Era o dia 08 de janeiro de 2008. Faltando alguns metros para chegar ao portão da casa onde minha família estava pensei: - Faria tudo de novo! E para mais longe. Eu sou um vitorioso! Assim me senti......e a visão maravilhosa do meu filho, vindo correndo em minha direção para abrir o portão com um sorriso de alegria no rosto me recepcionar e ao abraço da minha família, me fez ter certeza que a vida é muito boa comigo.

Rodar e amar é preciso!



Contato Hilton: hiaton@terra.com.br





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Moto Esporte: Parabéns Hilton... a família Moto Esporte está muito contente com seu relato. Você conseguiu transmitir o que é um sentimento verdadeiro sobre duas rodas... Viagem, curtindo paisagem, curtindo a ZECA, isso não tem preço... Felicidades



Marcos Branco "Diretor Moto Esporte"

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