18/09/06 - 21h:21mDenunciar

Uma história verídica



Éramos uma família normal. Meus pais, meu irmão com dois, eu com quatro anos, uma família mais para pobre do que classe media. Meu pai, caixeiro viajante, como se falava na época, hoje representante comercial. Minha mãe, dona de casa.



Nós, os dois irmãos, ainda tomávamos mamadeiras, que eram preparadas com Leite Ninho. Eu adorava quando minha mãe pegava a latinha. Mesmo aos quatro anos, já sabia que essa era a hora boa. Minha mãe preparava as mamadeiras com o leite morno, sempre pingando uma gota na mão para saber se estava no ponto. Eu mamava e dormia como um anjo, apesar de não saber se anjo dorme.



Inesperadamente, porém, mesmo na inocência dos meus quatro anos, comecei a sentir falta do meu pai. Estranhei, porque tudo começara a mudar, já não ficava mais com minha mãe o dia todo, fomos os dois irmãos para uma creche, com outras crianças, e me lembro que chorava pelos cantos, com saudades de minha mãe e principalmente de meu pai.



Com o passar do tempo, as coisas continuaram mudando. Não via mais meu pai, via minha mãe só no final do dia. Em casa, na hora da mamadeira, ela não mais pegava a nossa latinha de Leite Ninho, e sim uma caixa de papelão.



Dentro da caixa, havia um plástico grosso que embalava outro tipo de leite em pó. Por mais que minha mãe batesse, não se dissolvia totalmente e pelo bico da mamadeira passavam bolinhas inteiras que não tinham sido dissolvidas. O gosto era horrível, meio amargo. Sem conseguir entender, eu chorava que não queria, mas não tinha jeito. Eu adorava também pão com manteiga e um pouco de açúcar em cima, um habito de descendentes de alemães, ou pelo menos de minha mãe, que é descendente. Notei também que o gosto tinha mudado; já não tinha mais vontade de comer pão com manteiga e açúcar.



A falta da mãe durante o dia, a ausência total do pai, a falta da latinha que representava a hora boa, a manteiga horrível, tudo isso era muito difícil para mim, na inocência dos quatro anos. O tempo foi passando, a saudade do pai aumentando e as mamadeiras diminuindo, pois eu já começava a comer outras coisas. Mamãe explicava que ele estava viajando e que ela tinha que trabalhar. Com o tempo fui entendendo melhor. Quando eu tinha sete anos, ela nos contou que havia se separado de meu pai, e que ganharíamos um outro “pai”.



A partir daí as mudanças foram muitas, agora com um pai novo que me era indiferente, e o jardim de infância que hoje se chama escolinha. O pão com manteiga continuava, porém eu só comia com açúcar, sem manteiga. Mamadeira, só na hora de dormir, nunca mais de Leite Ninho nem daquele leite horrível, graças a Deus, mas sim de leite pasteurizado, que vinha em litros de vidro.



Alguns anos se passaram e finalmente entendi o que tinha acontecido com nossa latinha de leite. Com a separação de mamãe, que na realidade foi uma fuga de papai, começamos a passar necessidades financeiras. Ela cadastrou-se em um programa que o governo brasileiro tinha com o governo norte-americano, chamado Aliança para o Progresso, e que distribuía para famílias carentes uma espécie de cesta básica que continha leite de soja em pó e a tal manteiga, entre outras coisas. Entendi então a diferença da latinha para o pacotão com aquele gosto horrível.



Já adolescente, sentia que tinha vocação para lidar com a alma humana e fui para o mosteiro cisterciense de Santa Cruz. Queria me tornar monge. Foi uma experiência válida, porém não era o que buscava, já que, enclausurado, nada ou pouco poderia fazer pelo meu próximo. No mosteiro, o estudo da teologia me motivou para a parapsicologia. Sentia que minha missão estava caminhando para o que buscava: me conhecer melhor, me aprimorar para as adversidades da vida e, assim, contribuir com meu próximo.



Comecei a ministrar cursos motivacionais abertos para públicos em geral. Sempre observando os comportamentos humanos, pesquisando as crenças e os modelos de mundo que cada um cria para si próprio Sempre com uma crença firme de que o universo conspira a nosso favor, em todos os sentidos. Sempre com muitos desafios para conseguir o número suficiente de pessoas para que o curso pudesse acontecer, pois eu era apenas mais Um! Em uma cidade como São Paulo, minha terra natal, porém Um, que sabia, que acreditava que poderia fazer diferença na vida das pessoas.



Em um dos cursos, conversando durante o café, uma participante me deu o numero de telefone do trabalho de uma amiga para que a convidasse para participar do próximo curso. E assim o fiz.



Quando liguei, a pessoa que atendeu falou:



“Nestlé, boa tarde!”



Pedi para falar com a moça que me fora indicada, mas ela estava de férias. Deixei recado, com o número de telefone e meu nome. Meia hora depois, um senhor telefonou querendo saber informações sobre o curso, demonstrando interesse em participar, mas só no mês seguinte, pois iria viajar. Dali a um mês liguei para ele e, para minha surpresa, era nada mais nada menos que o chefe de treinamento da Nestlé. Falei sobre o curso, sem ter a exata noção de que estava falando com a pessoa certa no momento certo. Ele me fez algumas perguntas e agendou uma entrevista comigo, para falarmos mais detalhadamente sobre o curso.



O Centro de Treinamento da Nestlé ficava na Granja Viana, em Cotia, a cerca de vinte e oito quilômetros do centro de São Paulo. No dia marcado, fui pensando: será que vale a pena? Vale sim!Eu iria muito mais longe caso fosse preciso, pois este poderia ser mais um participante para o curso...



Quando lá cheguei, fiquei pasmo com o que estava vendo: uma estrutura fabulosa, uma empresa de primeiro mundo. Eu nunca tinha entrado em uma empresa como aquela. Apresentei-me e fui recebido pelo chefe de treinamento com uma simpatia de fazer inveja a qualquer um. No fundo pensava: o que estou fazendo aqui?



Começamos a conversar. Eu, um pouco tímido, nervoso, acho que naquele momento me parecia com Mazzaropi, o “Jeca Tatu”. Ainda não tinha me dado conta de que estava oferecendo um curso para alguém que era chefe de treinamento comportamental da Nestlé, um homem que conhecia a área comportamental como ninguém, há vinte oito anos trabalhando na maior empresa de alimentos de nossos país e uma das maiores do mundo. Competência, experiência e sensibilidade não lhe faltavam. Vencido o primeiro impacto e deixando o espírito do “Jeca” subir, conversamos bastante. Expliquei do que se tratava o curso, que era comportamental, focava muito no relacionamento interpessoal etc. do jeito que eu sabia falar, pois desconhecia o mundo e a linguagem corporativa.



Percebi que ele me olhava diretamente nos olhos. Vale aquele ditado: os olhos são o espelho da alma. Mas ainda não tinha caído a ficha: perguntei pela moça; afinal, era a intenção inicial. Ele respondeu: “Não se preocupe, ela poderá fazer o curso aqui mesmo, que tal?” Gelei, tremi e só então as fichas começaram a cair: eu iria ministrar um curso na Nestlé, a empresa da latinha da minha mamadeira! Naquele momento, uma grande emoção tomou conta do meu ser, mas eu tinha que disfarçar, não poderia chorar ali na frente do chefe de treinamento... busquei dentro de mim o melhor sorriso que poderia ter. Vários sentimentos e pensamentos se passaram dentro de mim, principalmente alegria e felicidade. Sabia que seria um grande desafio e sou movido por desafios. Estava perfeito!



Foi dado o nome do curso: ”Comunicação e relacionamento interpessoal”. Eu teria que adequá-lo para a necessidade da empresa, em apenas quinze dias. Saí de lá com o curso agendado para duas semanas depois. Exatamente no dia 6 de dezembro de 1995, às 8 horas da manhã, estava eu em uma sala de treinamentos com trinta executivos, todos muito desconfiados do que viria pela frente. Um curso piloto com um consultor desconhecido, uma linguagem mais simples que a linguagem corporativa e, na época, uma carga horária de vinte quatro horas. Fui apresentado ao grupo com um frio na barriga que sinto até hoje seja em cursos ou palestras. O novo nos tira da “zona de conforto”; era novo para mim, era novo para eles. E ali começou a quebra de paradigmas de uma parte da minha vida. No café, às 10h, já me sentia incorporado ao grupo e o grupo a mim. Na hora do almoço, sentei-me com o grupo e falávamos sobre vários assuntos, mas sentia que queriam saber mais a meu respeito, curiosidades naturais que deixei para o término do curso.



Encontrei-me com o chefe de treinamento no restaurante da empresa, que abriu um largo sorriso como se dissesse: “Está tudo correndo bem”. Eu estava sendo monitorado, viajante de primeira viagem. No fundo da sala, onde ministrava o curso, havia uma ilha de edição que pegava toda a extensão da sala com um vidro escuro, de modo que quem estivesse fora não via dentro e quem estivesse dentro via tudo fora, e tinha alguém lá dentro fazendo o curso por tabela.



Eu, um desconhecido sem indicação, sem que conhecessem meu trabalho, era compreensível que quisessem saber quem era aquele consultor. À medida que as horas iam passando, ia aumentando meu entusiasmo e o deles também. No último dia eu já sabia que tinha alcançado a meta, só precisava ter certeza. Porém, no momento do encerramento, depois que contei sobre a mamadeira e a latinha de Leite Ninho, algumas lágrimas - minhas e deles - se misturaram aos abraços emocionados. Eu tinha conquistado o primeiro passo para um novo paradigma. Comecei a conhecer o mundo corporativo com o melhor dos professores, o mestre e amigo chefe de treinamento Serafim Pires de Oliveira.



Pairava dentro de mim ainda uma curiosidade. Tempos depois, perguntei a ele:



“Por que você me contratou?”



Resposta: “Porque você tem paixão e desafio pelo que faz.”



Fiquei oito anos na Nestlé.







E você, caro amigo leitor (a)?



Quantas vezes surgiram à oportunidade de mudar seu paradigma? O que você fez? Acreditou em você no seu potencial? Ou se escondeu com medo?



Meu currículo não é feito de logomarcas, nem pelas empresas que atendo, ou pelos números de cursos ou palestras que faço. É feito, sim, de paixão, desafio, atitude!



Pense nisso. Você tem duas opções: ou encarar este texto apenas como uma história, ou achar que ela lhe diz respeito.



Ronald Artur Scoz

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