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Poesia - Drummond e Chicco Lacerda
por fatimarezende em 21/03/07 - 12h:02m
Aparição amorosa
Carlos Drummond de Andrade
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Chicco Lacerda
Nada é mais surpreendente do que o amor... e o amor inacabado é algo que continua por toda a vida, por mais que estejam distantes os amantes. Tenham sido separados pela morte, pela guerra, pelo desemprego, pela sogra, por qualquer outro cavaleiro que tenha o apocalipse guardado na manga, a verdade permanece e desafia o destino... O vento volta com o nome da pessoa amada, inclemente insônia, misto de tesão e terror...
Muitas soluções são oferecidas: cartas, msn, orkut, telefone, sinais de fumaça... Tudo é válido, desde que não sejam flores no túmulo. Não deixe o amor morrer em ti por mais impossível, distante, desafiante, desconcertante que seja... Seja uma nota blue que você nunca consegue harmonizar no violão... Seja um beijo que ficou pra depois e este momento acabou adiado pra tarde do dia de são nunca... Seja uma pedra no caminho dos coitados... Ame e deixe rastros do vexame pra todos os lados...
A priori, toda aparição é bem vinda. Fértil de fantasmas, vago pueril pelas ruas do Rio... vago pressentimento de que você virá... E aí, então, não serás um nome... aí haverá um corpo e uma vontade me apertando...
Vago despertar... O blues acabou de rodar no CD. O que resta é a revolução. Toda subjetividade é sublime quando tocada pelo desejo de revolução.