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O Crepúsculo (parte 2)
por flagelo em 30/03/05 - 14h:13m
Joranne estava de pé sobre a margem do rio Cânidas, já se haviam passado dois bastões de tempo da hora marcada, então a bela mulher-demônio começara a pensar que o condutor jamais retornaria, ou pior, que Lúcifer fora novamente traído.
Virou-se para trás num repente de percepção e pôde distinguir sob a luz dos archotes uma silhueta familiar, um de seus irmãos, conhecido como "Rompante Furioso" entre os almas menores da cidadela Kaldicuck encontrava-se agachado sobre uma saliencia próxima à margem.
- O que queres, cria?
- Após dois bastões de tempo - sua voz era o próprio prenúncio da destruição -, o que imaginas, pequena Sangue-Azul?
- Estrela-da-manhã mandou-o para descobrir se eu o estava traindo.
- Eu naturalmente sabia que tu nunca cometeria tal atrocidade, então...
Joranne aguçou seus sentidos quase no mesmo momento em que Kaldicuck arremessou o que restara do corpo para a luz logo a frente dela. Tratava-se de um Disforme, a essência ainda ocupava o receptáculo hominídeo, mas fora congelada sem forma para toda eternidade por Kaldicuck, a criatura jazia imóvel aos pés de Joranne, a carne do receptáculo já apodrecera e se rasgara em alguns pontos, Joranne podia contemplar o inimaginável por trás das fissuras na cútis, seria impensável uma definição já que o que há para ser visto é o vasto negro do caos pré-criação, mas estava congelada, impedida, destruída.
- Do que se trata isso - a voz vacilava -, irmão meu?
- O que houve com o tratamento formal, pequena Sangue-Azul?
Levantou-se relaxadamente e se dirigiu suavemente até o corpo em frente a Joranne, antes olhou para trás como se alguém estivesse a espera-lo. Quando a silhueta tocou a iluminação sobre o corpo do disforme Kaldicuck se revelou um homem magro e alto, usava um longo sobretudo aberto e jogado por sobre os ombros, por baixo sua roupa revelava tiras de couro presas a esmo por argolas agarradas à sua própria pele em sua cintura reposavam os maiores temores de toda a cidadela, as duas "Lâminas de Brannor", uma de cada lado, à direita estava Ímpeto Escaldante, o sabre de fogo e, à esquerda, Toque Congelante explicando o estado do Disforme, demonstrando que nem mesmo eles, fortes, sábios e mais antigos que quaisquer criaturas existentes, poderiam não temê-las. O rosto pernecia semi-coberto por uma tira amarrada sobre o nariz lhe escondendo a boca e o queixo, sua cabeça nua até o epicentro de onde brotava uma volumosa madeixa azulada que lembrava um moicano, mas o que mais lhe era característico apresentava-se aos olhos, existiam apenas as órbitas, nunca houvera pupila, nunca houvera vida, apenas destruição e morte.
Joranne tentou não recuar ante a aproximação de Kaldicuck, mas os sabres deviam ser mantidos a uma boa distancia, então ela deu dois passos para trás.
- Temerosa, minha irmã?
- Precavida. Afinal existe muita...
- Traição?
O se seguiu fora rápido demais para quaisquer olhos acompanharem, os movimentos graciosos e hábeis beiravam o absurdo pela velocidade com a qual eram realizados, mas Kaldicuck jamais desembainharia um sabre contra Joranne, estavam entrelaçados enquanto cobertos pelo aparentemente infinito sobretudo que esvoaçava a cada movimento confundindo ainda mais qualquer olhar que desejasse perscrutar o que acontecia durante o embate. Ela sentiu que não desejava ataca-la, não destruí-la, procurava no vazio dos olhos dele uma resposta para todas as perguntas, fossem sábias ou estupidas, então disse ele suavente na linguagem que jamais deveria ser falada por qualquer um que residia na cidadela, a língua dos disformes:
- Traidora!
Os olhos da mulher demônio arregalaram-se, ela queria, desejava rasga-lo, estripa-lo, mas havia algo que não estava em seu lugar, algo que ela não conseguia entender, como se...
- O que queres dizer com isso, Rompante Furioso?
Mas ele apenas sorriu alto enquanto girava Joranne em volta de si próprio colocando-a de costas para ele para segurar-lhe os pescoço, então ela viu.
Foi breve e embaçado mas ela viu o diabrete.
O golpe foi furioso e logo Kaldicuck caia como um felino próximo à saliencia onde esteve ainda pouco, por um breve instante Joranne podia ter jurado ter visto pupilas flutuarem furiosamente pelas órbitas de Kaldicuck, mas seria impossível, então desapareceram de sua visão e ela voltou a si. Outra fração de segundo e Kaldicuck caira no chão após ferir-se enquanto estava agachado e uma luz de compreensão transpassou seu rosto, andou suavemente até Kaldicuck que se contorcia.
Mas e as pupilas que jurara ver assistir ainda pouco?
Tolice.
A poucos metros uma embarcação que lembrava uma gôndola veneziana se aproximava sobre ela de pé com o longo bastão de locomoção nas mãos estava aquele que a qualquer lugar atingia, o Condutor, à sua frente jazia definhando um meio-demônio comum, parecia morto mas sua essência ainda possuía uma fagulha acesa para denotar que ainda existia neste plano. Tranquilamente a embarcaçãoparou próxima à margem e o espírito de agouro, mesmo para demônios, conhecido como Condutor levitou sobre as águas e posou sem ruídos sobre a margem, fitava Joranne.
Ela não o vira em momento algum, mas sabia que estava ali.
A bela mulher-demônio levantou aquele que fora criado do mesmo sangue que o dela dizendo agora na língua jamais falada - Não podes tu me tocar com tuas espadas, mesmo sangue, triunfo meu, agora se vá, ferido de imundice, jamais se intrometa em meus assuntos contra o pai novamente, esqueça-te do ocorrido, pois se houver uma próxima vez tornarei-me pária para meu pai - virou-se em direção ao alto vulto negro ereto de costas para o barcoe arremessou seu irmão aos pés da criatura.
- Leve-o para a nova e eterna morada de meu pai, deixe-o lá e passe esta mensagem a Estrela-da-manhã: "Guarde-me em um dos compartimentos da mente óctupla, mas não com zelo demais".
Balanaçou os olhos em direção do corpo arfante prostado no barco e em seu irmão uma última vez meneando a cabeça, catou o corpo do disforme, colocou-o sobre os ombros e partiu em direção à cidadela.
Sentiu o diabrete se desmaterializar e confirmou suas suspeitas de que era um espião, conseguira ludibria-lo juntamente com seu irmão, então ela voltou seu rosto em direção ao Condutor que ainda a observava e deu-lhe uma piscadela.
P.S.: Estou com preguiça de colocar legendas, de qualquer forma devo continuar o conto com mais calma, liberem suas mentes e se deixem viajar com as coisas que vocês não souberem o que são, deixo por parte do subjetivismo os termos estranhos.