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Texto de Sociologia da Arte II - Rosane Pires

por galeradoteatro em 16/08/05 - 18h:43m

Capítulo 2
DENISE ESTÁ CHAMANDO

Direção: Hall Salwen
Origem: Estados Unidos
Ano: 1995


“A massa distraída faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com ritmo de suas vagas, absorve-a em seus fluxos.”
Walter Benjamin.


A história do filme é narrada na cidade de New York, e não por acaso. O país no qual essa cidade está situada representa a consolidação de uma cultura que objetiva se mundializar (ORTIZ, 1994, p.29,31).
A narrativa desenvolvida por Salwen lembra o “método de montagem típico de Griffith – o método de uma progressão de montagem de cenas paralelas interligadas umas às outras” (EISENSTEIN,1990, p.187). Salwen constrói duas histórias que vão sendo contadas paralelamente e cujos segmentos vão se entrelaçando. Partem de lógicas diferentes e os valores que condensam tais lógicas são contrários e sugerem percepções de mundo contraditórias. A primeira trata de Denise, uma personagem que se coloca de forma diferente das demais e que busca, durante todo o tempo, uma aproximação com o pai de sua filha. A segunda refere-se a um casal que estabelece um namoro com a ajuda de uma terceira pessoa.
Assim como em Sexo, mentiras e videotape, em sua maioria, as imagens do filme são produzidas em interiores de apartamentos, sempre com pouca luz e neste caso com uso excessivo de close-ups. A grande utilização desses close-ups é associada a uma montagem rápida, o que lhe confere um outro dinamismo, uma certa velocidade que desfaz a possibilidade de monotonia das imagens para quem as observa. Conseqüentemente, o diretor constrói um ritmo com imagens, traduzindo dessa forma sua percepção de tempo, pois o “tempo específico que flui através das tomadas cria o ritmo do filme, e o ritmo não é determinado pela extensão das peças montadas, mas, sim, pela pressão do tempo que passa através delas” (TARKOVSKI, 1998, p.143).
Da mesma forma que o filme anterior, esse é construído de maneira simples, sem muitos efeitos especiais, apesar de todos os recursos tecnológicos que estariam à disposição. O cenário do filme é quase restrito à intimidade dos apartamentos das personagens.
Outro motivo que deixa o espectador atento às imagens é que ali se passam histórias das quais ele próprio faz parte, com as quais ele se identifica, pois “ na medida em que identificamos as imagens da tela com a vida real, pomos as nossas projeções-identificações referentes à vida real em movimento” (MORIN, 1985, p.113).
A primeira imagem mostrada no filme é um relógio marcando 6:29 e, em seguida, uma personagem pega o telefone e sai da cama com ele na mão. A câmera passeia então pela mesa, na qual podemos ver uma quantidade grande e variada de comidas que não foram tocadas, o que sugere uma festa que não ocorreu. O telefone que já está em sua mão fazendo-lhe companhia toca: é uma amiga que, trabalhando num computador, se justifica por sua ausência na festa. A dona da festa falando ao telefone vai jogando toda a comida no lixo enquanto afirma à sua amiga que “não estava mesmo a fim de ver ninguém ontem”.
O filme, então, vai se desenrolando, com várias personagens falando sempre ao telefone, ao mesmo tempo que desenvolvem uma outra atividade, como, por exemplo, o trabalho, que vai sendo realizado em casa por meio de computadores e telefones.
A trama é construída por um conjunto de personagens (homens e mulheres) jovens, sozinhos, bem sucedidos profissionalmente e ligados entre si por linhas telefônicas, internet, fax, etc. São amigos (alguns há muito tempo) que se encontram e constroem relações afetivas por meio desses suportes eletrônicos. Esse é o lugar onde se efetiva essa amizade. Tais personagens, com exceção de uma (Denise), estão o tempo todo em seus apartamentos, vivendo de forma isolada num sentido físico, trabalhando e estabelecendo relações com outras pessoas pelos meios de comunicação.
Na primeira cena em que aparece a personagem Denise, a quem o título do filme faz referência, ela encontra-se tentando falar com o pai de sua filha por meio de um celular. Ao contrário dos demais, ela está na rua e não em seu apartamento. Sua aparência física sugere alguém que está fora do padrões da moda. Exagera no uso de roupas pouco convencionais, com acessórios grandes e coloridos.
As outras personagens estão sempre dentro de seus pequenos apartamentos cujas imagens são feitas com pouca luz. O ambiente revela elementos em que o moderno e o tradicional se encontram de forma harmoniosa. Apesar dos computadores, os livros sempre aparecem atrás das pessoas. São livros amontoados e velhos que nunca são lidos, pois não há mais tempo para isso. Há também fotografias em preto e branco dividindo espaço com aparelhos eletrônicos em cima de mesas. As fotos parecem ser antigas, demonstrando que também não há tempo para a realização de novas fotografias. Percebe-se por essas imagens que a sociedade ali apresentada convive com um tempo apressado e imediato, no qual não há mais interesse pelo passado e no qual não se deseja realizar novas fotos que permitam manter a memória individual das pessoas.
O desinteresse pelo passado percebido na cena descrita nos lembra uma conseqüência desse estilo de vida.

“A nossa ‘capacidade de rememoração’ é muito maior para o que é ouvido do que para o que é visto. Se, por um lado, Simmel afirma que na cidade grande vemos muito e ouvimos pouco, podemos perceber como a cidade grande é o lugar do esquecimento. E se a cidade grande é ainda o lugar do moderno, pode-se perceber como o moderno é um tempo e um espaço de esquecimento” (WAIZBORT, 2000, p.331).

O ritmo de vida na cidade assume uma velocidade acelerada que impede a lembrança do passado e o vislumbrar do futuro; o indivíduo, nesse sentido, só vive intensamente o tempo presente, faltando-lhe referências fixas.
O interior dos apartamentos, no filme, revela a sensação de solidão e vazio vivida pelos indivíduos. Dentro de suas residências, em função do trabalho, eles estão em contato com o mundo inteiro, mas, contraditoriamente, sentem-se cada vez mais sozinhos. A solidão é um dos elementos da sociabilidade contemporânea na medida em que o indivíduo se relaciona com outros apenas em função do trabalho pois “não existe mais tempo” para outros interesses.
Nas imagens de Salwen, ao mesmo tempo que o trabalho aproxima as pessoas ocorre um distanciamento entre elas quando se trata de relações pessoais. Nesse sentido, vale frisar que, “as relações do homem moderno parecem distanciar-se crescentemente dos círculos mais próximos e se aproximar dos mais distantes” (WAIZBORT, 2000, p.199).
O ritmo do filme vai sendo construído de forma lenta. Trancados em seus apartamentos, as personagens voltam-se para seu mundo interior enquanto o ritmo exterior é acelerado. Entretanto, em decorrência do ritmo exterior, o indivíduo da metrópole passa a conviver com uma sensação interna de tempo acelerado o que implicaria um estilo de vida. Para entendermos o que Simmel chama de estilo de vida, é necessário atentar para as conseqüências do dinheiro, na vida dos indivíduos e nas formas de sociabilidade.

“Os valores que orientam as ações tornam-se cada vez mais confusos, nada parece possuir um significado fixo, o indivíduo não encontra nenhum ponto de apoio, a não ser o dinheiro. Eis porque ele não pode parar: não há ponto fixo algum, e a única coisa na qual ele pode se apoiar, o dinheiro, está sempre em movimento” (WAIZBORT, 2000, p.171).

Há uma afinidade entre o dinheiro e o racionalismo, pois ambos fazem parte da lógica do moderno.

“O direito, a intelectualidade e o dinheiro são caracterizados pela indiferença frente à singularidade individual; todos os três extraem da totalidade concreta dos movimentos da vida um fator abstrato e universal, que se desenvolve de acordo com normas próprias e autônomas, e a partir desse fator intervêm na totalidade de interesses da existência e a determinam a partir de si” (SIMMEL apud WAIZBORT, 2000, p.173).

O estilo de vida moderno pressupõe um local para o seu desenvolvimento e este é a cidade grande. É nela que podemos perceber um grande conflito entre o indivíduo e a sociedade, entre o ritmo interior desse indivíduo e o ritmo exterior, referente à sociedade à sua volta.
Para Simmel (cf. WAIZBORT, 2000, p.200), ritmo deve ser entendido enquanto movimento e, nesse sentido, o ritmo da vida moderna é influenciado pelo dinheiro. Este termina por organizar não somente o tempo mas também o espaço. O ritmo possui um duplo papel, “ele é ao mesmo tempo alteração e regularidade”. Na cultura moderna, o ritmo é tão acelerado que se torna contínuo. O dinheiro, que possui um fluxo contínuo, termina desempenhando um papel significativo na determinação do ritmo, pois vale lembrar que a intensificação da economia monetária corresponde à intensificação do ritmo de vida.
Bárbara, uma das personagens da segunda história, está sempre vestida de forma clássica, com colar de pérolas, cabelo preso com fita e ouvindo ópera, mas mostra um grande medo de falar com um pretenso namorado . Após alguns contatos por telefone, ambos demonstram que desejam se encontrar, ao mesmo tempo recusando-se a fazê-lo.
A noção de tempo vai sendo construída principalmente pela utilização da técnica de dissolução associada ao uso de legendas que indicam a passagem dos dias. Essa técnica propicia um corte mais longo no tempo do filme.
O futuro romance é repleto de alguns desencontros, como na cena na qual ela está sentada no vaso sanitário. Nesta, a câmera dá um close em seu rosto que aparece de óculos. Ela está trabalhando e, em seguida, o telefone toca. Ao atender e ouvir a voz de Jerry, seu rosto fica imóvel e a câmera recua rapidamente, mostrando que ela está sentada numa privada, com um computador portátil sobre suas pernas e suas roupas íntimas abaixadas até a altura dos pés. Sente-se flagrada em sua intimidade e desliga o telefone imediatamente. Em seguida, liga para sua amiga Gale, conta-lhe o constrangimento que passou e afirma que se fosse uma ligação de trabalho ela atenderia normalmente naquela situação em que se encontrava. O trabalho aparece aqui como uma atividade que nunca pode parar, podendo ser executado inclusive junto com outras atividades, como as fisiológicas, por exemplo, na medida em que é realizado pelo telefone. O que não pode acontecer é uma relação pessoal existir associada a uma atividade fisiológica, o que acarretaria constrangimentos. Se fosse uma ligação de trabalho, ela permaneceria na linha, pois o dinheiro (intrinsecamente relacionado com o trabalho) socializa os indivíduos como estranhos.
Isso nos remete à idéia de que na difusão da economia monetária, destaca-se o papel crucial que o dinheiro desempenha. O dinheiro não possui qualidades;

“sendo o equivalente a todas as múltiplas coisas de uma mesma forma, o dinheiro torna-se o mais assustador dos niveladores. Pois expressa as diferenças qualitativas das coisas em termos de ‘quanto?’. O dinheiro, com toda sua ausência de cor e indiferença, torna-se o denominador comum de todos os valores; arranca irreparavelmente a ausência das coisas, sua individualidade, seu valor específico e sua incomparabilidade” (SIMMEL, 1973, p.16).

O dinheiro apresenta um duplo papel, na medida em que na relação de troca ele aproxima e afasta, ata e desata laços e círculos sociais. É nesse sentido que se percebe seu caráter duplo, ambíguo. E assim,

“ele impregna o moderno com uma mobilidade e maleabilidade absolutamente novas, que acabam por se tornar o elemento central na caracterização simmeliana do moderno. Ao mesmo tempo, ele aparece como se fosse um mundo em movimento contínuo e incessante, um ponto fixo em torno do qual todos, homens e objetos circulam sem parar. O moderno sob o signo do dinheiro, é ambíguo ” (WAIZBORT, 1996, p.27).

Com medo da aproximação de um estranho, Bárbara pede a Gale uma foto dele. Esta liga imediatamente para seu ex-namorado e pede a foto, pois os dois são amigos desde a infância. Após alguns minutos, a foto chega via fax nas mão da interessada. O detalhe da foto é que Jerry aparece nela com aproximadamente nove anos de idade. Seu amigo justifica que a ausência de fotos atuais é conseqüência da falta de tempo para estar entre amigos, pois o ritmo do trabalho no dia-a-dia não permite mais tal coisa.
Mostram-se angustiados com o excesso de trabalho e a “falta de tempo” para fazer coisas consideradas simples, como ir ao supermercado , ou a uma festa, ou mesmo sair para encontrar com os amigos.
Nessa direção, vale destacar que, atualmente, segundo Bruni, apresenta-se

“uma situação de generalizada falta de tempo para as pessoas, situação tanto mais paradoxal quanto mais se considera o avanço tecnológico atual e a redução visível de tempo gastos em inúmeras atividades cotidianas” (BRUNI, 1991, p.156).

Com o desenvolvimento tecnológico, acreditou-se que o homem fosse dispor de mais tempo para realizar as atividades de lazer, de amizade, amor, etc., na medida em que a utilização de computadores e de equipamentos domésticos reduzissem o tempo gasto nas tarefas diárias e assim, portanto, deveria sobrar mais tempo livre. Entretanto, as imagens construídas por Salwen apontam para uma realidade diferente. O progresso tecnológico impõe cada vez mais atividades para as pessoas, num movimento infindável. Assim,

“contra o desejo de todos de mais tempo livre, a dura realidade de um inesgotável suceder de obrigações, compromissos, tarefas e atividades, uma sensação permanente de ‘falta’, de ‘perda’ de tempo, de não ‘ter’ tempo. Situação generalizada, envolvendo trabalhadores braçais, profissionais liberais, empresários, comerciantes, crianças, jovens, homens, mulheres” (BRUNI, 1991, p.157).

O progresso tecnológico como resultado do conhecimento científico é inerente ao processo de intelectualização e racionalização do mundo. Para Weber, tal processo não implica um conhecimento maior das condições sob as quais os indivíduos vivem. É nesse sentido que

“o homem civilizado, colocado no meio do enriquecimento continuado da cultura pelas idéias, conhecimento e problemas, pode ‘cansar-se da vida’, mas não ‘saciar-se’ dela. Ele aprende apenas a minúscula parte do que a vida do espírito tem sempre de novo, e o que ele aprende é sempre algo provisório e não definitivo” (WEBER, 1971, 166).

No filme, os computadores dos usuários estão ligados a uma vasta rede de comunicação e, assim, todos realizam seu trabalho sem sair de casa.
Os namoros ocorrem por meio de suportes eletrônicos, já que os interessados não conseguem fazê-lo de forma diferente, atribuindo isso a uma possível “falta de tempo livre”. É o caso de Bárbara e Jerry. Após uma seqüência de desencontros e encontros por telefone, eles decidem se aproximar. Isso ocorrerá mediante suportes eletrônicos e nunca por meio de um contato corporal direto.
Em uma cena de sexo, o casal está “junto” por meio do telefone, mas encontram-se cada um na sua cama. Ela num quarto de hotel e ele no seu apartamento. Começam a trocar carícias não pelo toque no corpo, mas com palavras que são transmitidas através de um fio preto que acaba representando a própria extensão de seus corpos. As imagens nessa cena sugerem uma certa erotização do aparelho com partes de seus corpos que são mostradas de forma sensual. Na cena seguinte, ambos acordam abraçados ao aparelho de telefone como se estivessem um nos braços do outro. Aqui se percebe a passagem da noite para o dia. Ela é acordada com uma ligação dele, que lhe dá bom dia. Nesse momento, a câmera faz uma panorâmica do quarto de Jerry, mostrando o seu corpo nu com o telefone sobre seu sexo. A imagem sugere que, mesmo dormindo separados, ambos estão juntos na manhã seguinte, com toda a cumplicidade que a paixão propõe, ainda que isso ocorra por meio do telefone.
O aparelho funciona como uma projeção do corpo que, segundo Lévy, se associa à noção de telepresença . Esta seria muito mais do que simplesmente a projeção da imagem. O telefone, nesse caso, assume a função de dispositivo de telepresença, pois ele

“não leva apenas uma imagem ou representação da voz: transporta a própria voz. O telefone separa a voz (ou corpo sonoro) do corpo tangível e a transmite à distância. Meu corpo tangível está aqui, meu corpo sonoro, desdobrado, está aqui e lá. O telefone já atualiza uma forma parcial de ubiqüidade. E o corpo sonoro de meu interlocutor é igualmente afetado pelo mesmo desdobramento. De modo que ambos estamos, respectivamente, aqui e lá, mas com um cruzamento na distribuição dos corpos tangíveis” (LÉVY, 1996, p.28,29).

Conforme Lévy (1996), essa máquina pode transmitir mais do que imagens podendo-se falar em uma “quase presença”. Entretanto, entendemos que a noção de “quase” pode, no limite, ser considerada como uma presença “nunca” efetivada de fato.
O casal construiu uma relação nos moldes tradicionais, com o encantamento, a descoberta, o ápice da paixão, e com direito ao processo de desencantamento, ciúmes e neuroses, que permeiam a relação amorosa. Entretanto, tudo isso ocorre por intermédio de meios eletrônicos. A aproximação “real” coloca-se na ordem do impossível, pois eles demonstram não saber mais fazê-la. Eles desejam realizar essa aproximação mas parece que não conseguem mais.
Segundo o filme de Salwen, a experiência amorosa é afetada pelos meios de comunicação. Poderíamos então nos perguntar se o espaço da Internet ou do telefone, ainda que estes tenham surgido em épocas históricas diferentes e hoje possuam uma relação de dependência na medida em que a primeira não existe sem o segundo, constitui novos lugares para os relacionamentos amorosos. Ou mesmo, podemos estar chamando isso de relacionamento? Aqui, a relação afetiva vai se desenvolvendo num outro lugar, de uma forma diferente da tradicional, como um jogo em que os participantes entram e “fazem de conta” que o relacionamento é verdadeiro e, como nos lembra Simmel (1983, p.173), “fazer de conta” não deve ser entendido aqui enquanto uma mentira. O amor deve ser entendido enquanto

“uma dinâmica que se gera, por assim dizer, a partir de uma auto-suficiência interna, sem dúvida trazida, por seu objeto exterior, do estado latente ao estado atual, mas que não pode ser, propriamente falando, provocada por ele; a alma o possui enquanto realidade última, ou não o possui, e nós não podemos remontar, para além dele, a um dos movens exterior ou interior que, de certa forma, seria mais que sua causa ocasional” (SIMMEL, 1993, p.127).

Ao referir-se à sociabilidade, Simmel constrói uma teoria sobre a Filosofia do Amor, assim como o faz em relação ao dinheiro. Elementos como amor e dinheiro são vistos em relação às suas influências na totalidade da existência do ser humano.
Em outra cena, Gale, numa conversa com seu ex-namorado (Frank), expressa solidão e a sensação de vazio que a atormenta. Expõe seu desejo de reatar o namoro, mas ele não demonstra nenhuma satisfação nisso. Numa outra conversa com Bárbara, ela confessa que a última vez que fez sexo foi há alguns meses, com o mecânico que foi consertar a geladeira em sua casa. Com a intenção de criar relações que permitam o contato corporal, ela resolve fazer uma festa com o objetivo de reatar o namoro com Frank, terminado há cinco anos. Mais isso não vai ocorrer, em função de um trágico acidente que ela sofrerá.
A imagem de sua morte não aparece. No seu lugar surge uma tia que descreve em detalhes a morte violenta devida a um acidente de automóvel, em decorrência do uso de aparelho celular no trânsito. A tecnologia aparece aqui como o próprio elemento que possibilita a morte. A notícia de sua morte é dada aos amigos por telefone e a imagem de seus rostos é de perplexidade diante do fato.
A morte, como um momento de passagem, leva os indivíduos a se reunirem em torno da pessoa falecida para um último adeus, mas, para Salwen, isso novamente não se efetiva como um encontro “real”. Todos combinam de ir ao enterro, mas novamente ninguém sai de casa e novas desculpas são trocadas por telefone, pela ausência em mais esse encontro. Com exceção do ex-namorado, que chega a sair de casa e caminha em direção ao local onde está sendo velado o corpo, mas que, em frente da porta de entrada, desiste e volta para casa. Essas imagens remetem-nos à construção de sentido dada ao fenômeno da morte na atualidade.
Na sociedade contemporânea, a morte se dá no silêncio dos hospitais e surge como um momento solitário. Destacamos aquilo que Weber coloca a respeito da morte: teria sentido esse fenômeno? Para o homem civilizado, a morte não tem significação e, assim sendo, a vida civilizada também não o teria.

“A vida individual do homem civilizado, colocada dentro de um “progresso” infinito, segundo seu próprio sentido imanente, jamais deveria chegar no fim; pois há sempre um passo à frente do lugar onde estamos, na marcha do progresso.(...) E porque a morte não tem significado, a vida civilizada, como tal, é sem sentido; pelo seu “progresso” ela imprime à morte a marca da falta de sentido” (WEBER, 1971, p.166).

A sociabilidade que se desenvolve denota uma distância da própria vida e da própria morte como condição necessária para que a vida permaneça acontecendo.
Numa outra cena, Frank resolve realizar o último desejo de Gale e decide fazer uma festa, em seu apartamento, para reunir os amigos, na comemoração da passagem do ano. A cena final do filme é justamente a imagem de todos se preparando para ir à festa. Roupas, maquiagens e presentes na mão: todo um cenário festivo que indicava que a festa ocorreria. Alguns convidados chegam mesmo a sair de casa, como o casal de namorados. Salwen os mostra em câmera lenta andando pela rua em direção à festa. Close em seus passos que são cadenciados pelo ritmo da música. Em frente ao endereço da festa, os dois passam um pelo lado do outro e, em seguida, ambos olham para trás. Os olhares se cruzam mas tornam-se fugidios. A indiferença marcada nesse “encontro” fá-los continuar andando e voltar para suas casas.
O dono da festa espera seus convidados com um ambiente preparado para uma grande comemoração. Entretanto, sua expressão facial denota medo e angústia pela chegada de alguém. O ruído da campainha que toca o atormenta, seu olhar remete ao vazio. Diante daquele som, inflexível, ele não abre a porta. Tal atitude nos faz pensar numa tentativa de se proteger e/ou refugiar-se no seu mundo interior recusando-se manter uma relação mais próxima com o mundo ao seu redor.
Seu comportamento permite-nos pensar que a economia monetária em seu pleno desenvolvimento acarreta a aceleração da velocidade da vida e a intensificação do ritmo em todas as suas manifestações, promovendo, assim, o fortalecimento da vida nervosa (cf. WAIZBORT, 1996, p.28). O homem moderno é, no dia-a-dia, levado a deparar-se com um número grande de imagens e impressões, mas não consegue dar sentido à maioria delas, tornando-se indiferente a elas. Afastando-se do mundo ao seu redor e voltando-se para seu próprio mundo interior, o homem moderno é levado a ter uma atitude blasé e de reserva. A atitude blasé desenvolve-se genuinamente nas grandes cidades. Ela

“resulta em primeiro lugar dos estímulos contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos nervos. Disto parece originalmente jorrar a intensificação da intelectualidade metropolitana (...) Essa fonte fisiológica da atitude blasé metropolitana é acrescida de outra fonte que flui da economia do dinheiro. A essência da atitude blasé consiste no embotamento do poder de discriminar” (SIMMEL, 1973, p.16).

A metrópole é o local propício para o desenvolvimento da economia do dinheiro. Nela, o ritmo de vida deve estar integrado de forma pontual, com todas as atividades e relações mútuas em um calendário estável e impessoal.
Ao interagir, o homem metropolitano desenvolve para com outro uma atitude mental que Simmel (1973, p.17) chama de reserva.

“O aspecto interior dessa reserva exterior é não apenas a indiferença, mas, mais freqüentemente do que nos damos conta, é uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo, ainda que este tenha sido provocado” (SIMMEL, 1973, p.17).

Essa reserva implica uma liberdade pessoal dada de forma qualitativa e quantitativa ao indivíduo, além de uma individualidade específica que tem seu ponto culminante na divisão do trabalho.
Para se manter, o ritmo de vida metropolitano requer, uma hierarquia de simpatias, aversão oculta e indiferença. Mas o que aparece como dissociação nesse estilo de vida podemos considerar como uma das formas fundamentais da socialização (cf. SIMMEL, 1973, p.18).
Na continuidade da imagem anterior, quem toca a campainha é Denise, uma pessoa que rompe com toda a lógica desse contexto. Ela, insistentemente, busca comemorar a passagem de ano e, desconsolada, senta-se nos degraus do prédio, com sua filha num carrinho, esperando, talvez, o pai de proveta aparecer.
Ao contrário dos demais, Denise está sempre circulando pelas ruas da cidade. A cidade em suas poucas tomadas não possui transeuntes, pois as pessoas não mais se sentem preparadas para sair de casa. Os recursos tecnológicos são também utilizados por Denise, mas de modo diferente. Ela não se deixa regular por eles. Denise está chamando para um outro lugar. Ela fica grávida por meio de recursos tecnológicos, mas deseja intensamente o contato com o pai da criança. Ao receber a notícia da gravidez, este fica perplexo e liga para um amigo para contar-lhe a novidade. Ele desabafa, revelando que, no passado, fez doação de espermatozóides a um banco de sêmen.
Acreditamos que Denise resolveu ter um filho por inseminação artificial, por falta de possibilidades de fazê-lo de forma diferente. Na sociedade apresentada por esse diretor, ninguém tem tempo - ou assim argumentam - para realizar, num sentido tradicional, o lazer, o amor, a procriação. Ninguém está disposto a um movimento em direção ao outro. Compartilhar é o que Denise deseja. Entretanto, seus anseios não cabem nessa sociedade.
Isso nos faz pensar que, na vida metropolitana, há um crescimento da cultura objetiva em detrimento da personalidade do indivíduo, na medida em que

“ o indivíduo se tornou um mero elo em uma enorme organização de coisas e poderes que arrancam de suas mãos todo o progresso, espiritualidades e valores, para transformá-los de sua forma subjetiva na forma de uma vida puramente objetiva (...) Nos edifícios e instituições educacionais, nas maravilhas e confortos da tecnologia da era da conquista do espaço, nas formações da vida comunitária e nas instituições visíveis do estado, oferece-se uma tão esmagadora inteireza de espírito cristalizado e despersonalizado que a personalidade, por assim dizer, não pode manter sob o signo do impacto” (SIMMEL, 1973, p.23,24).

Os computadores e as telecomunicações tornaram-se tão decisivos para o modo como intercâmbios econômicos e sociais são conduzidos quanto para a criação e recuperação do conhecimento. Estamos falando de novas maneiras de agir e pensar, na medida em que a tecnologia passa a ser parte integrante da cultura e a vida cotidiana cada vez mais se desenvolve com o controle de computadores ou de dispositivos digitais como o cartão de crédito, etc.
A sociedade contemporânea parece conviver com

“uma assustadora re-significação do tempo, caracterizada por uma crescente desvalorização cultural do passado, uma progressiva perda de perspectiva e de esperança em relação ao futuro, e uma acentuação exasperada da vivência de um presente, preenchido exaustivamente” (OLIVA-AUGUSTO, 1998, p.9).

Com Denise, Salwen sugere que ainda é possível a manutenção de traços tradicionais de humanidade como o prazer de contemplar a vida e de compartilhar sentimentos e acontecimentos que estão sendo dissolvidos nesse contexto. Com suas roupas coloridas e fora do padrão, ela passeia pela cidade, contemplando-a. Em uma dessas cenas, num plano fechado, vemos um cavalo andando numa avenida de New York, tendo ônibus e táxis à sua frente. A câmera segue os arreios do cavalo, passando pela mão do homem que o guia, e vai para trás deste mostrando Denise, que está sentada de pernas abertas, com um buquê de flores coloridas sobre seu colo. Sua cabeça está caída e o olhar contempla a paisagem da cidade. O ritmo do cavalo contrasta com o ritmo dos carros que passam ao lado. Essa imagem nos sugere haver contradição entre o ritmo interior da personagem e o ritmo externo a ela. Vale ressaltar que “o olhar contemporâneo não tem mais tempo” (PEIXOTO, 1998, p.179), mas, para Denise, ainda há tempo já que ela se permite contemplar a cidade sem pressa.
Mesmo com um ritmo de vida diferente das demais personagens, Denise participa dessa mesma sociedade. Nesse sentido, vale lembrar que para Simmel, a idéia de sociedade implica uma noção de interação entre indivíduos. Tal interação ocorre a partir de motivações que impulsionam ou ainda em função de certos propósitos e isso obriga os indivíduos a formarem uma unidade, ou seja, uma sociedade. Para Simmel, a sociedade é um eterno fazer-se. E é através da interação, da relação recíproca, que se constitui a sociação, entendida portanto como um permanente vir-a-ser da vida social.

“Tudo que está presente nos indivíduos ( que são os dados concretos e imediatos de qualquer realidade histórica) sob a forma de impulso, interesse, propósito, inclinação, estado psíquico, movimento – tudo que está presente neles de maneira a engendrar ou mediar influências sobre outros, ou que receba tais influências, designo como conteúdo, como matéria, por assim dizer, da sociação” (SIMMEL, 1983, p.166).

Nesse sentido, a sociação é “a forma pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem seus interesses” (SIMMEL, 1983, p.166). Tais interesses representam a base das sociedades humanas.
A sociedade só existe na medida em que há interação entre indivíduos, uma conseqüência dos impulsos e/ou propósitos, que, por sua vez, criam os conteúdos e os interesses materiais ou individuais. As formas que resultam desse processo ganham vida própria liberando-se de seus conteúdos. Esse processo é o que devemos entender por sociabilidade. Então, para esse autor, sociedade deve ser pensada como um conjunto de interações, pois

“o que realiza na verdade a sociedade são as relações que se estabelecem entre singulares, as tais formas menores de relação e de modos de interação entre os homens, que existem aos milhares, infindáveis e em eterno processo. E mais: onde se situa a verdadeira vida da sociedade, senão nessas relações?” (WAIZBORT, 1999, p.96).

Denise, por meio de sua gravidez, deseja e torna possível o ritual do nascimento, além de buscar construir a relação de pai para sua filha. Ela persiste na tentativa de aproximação com o pai de proveta e termina conseguindo. Ambos passam a compartilhar a expectativa do nascimento do bebê, mas toda essa relação ocorre por meio de telefone. As imagens do parto mostram o acompanhamento do pai, dos amigos e de novos conhecidos. Todos estão presentes numa linha telefônica coletiva conseguida pelo pai do bebê. Denise entra na sala de cirurgia e recebe toda a força deles. Num ritmo acelerado de close nos rostos, esse movimento acaba expressando o próprio movimento do parto. A criança nasce e todos comemoram, cada um em sua casa, o nascimento de uma menina que se chamará Afrodite . A expressão facial do pai demonstra desapontamento pelo fato de não ser um menino.
A relação de paternidade ocorre toda pelo telefone, mas Salwen justifica a lógica construída por meio de Denise, no final do filme. Na última cena, após ter sentado desconsolada nos degraus, esperando talvez pelo pai de sua filha, eis a surpresa: ele aparece, ambos se olham emocionados e, sem nenhuma palavra, saem andando pela calçada empurrando o carrinho do bebê.
Com essa imagem, Salwen sugere que ainda é possível “perder” tempo, num sentido tradicional, com desejo, amor, filiação, entre outros, diante de um contexto em que a produtividade do trabalho associada ao uso da tecnologia transforma a experiência de vida do indivíduo. Perder tempo, nesse sentido, é sinônimo de ganhar.
Pelas imagens do filme percebemos que os indivíduos compartilham a caracterização de um estilo de vida no qual não dispõem de tempo para contatos pessoais e, mesmo que o tempo aqui não fosse o empecilho, eles parecem não conseguir mais fazê-lo, não por não desejar mais e sim por não mais sabê-lo. Nesse contexto, a interação ocorre por meio de uma rede de comunicação que vai desde o telefone à Internet e é nesse novo lugar que as relações vão sendo construídas. Vale frisar que as mesmas não estão desaparecendo mas sobretudo sendo realizadas a partir de formas diferentes. A personagem Denise, ao conviver com toda a tecnologia que existe à sua disposição, mas não se deixando regular por ela, diferencia-se dos demais pelo desejo de realizar coisas que aqueles não vislumbram nenhuma possibilidade de acontecer, mesmo estando inserida no mesmo contexto social do qual as outras personagens participam.
Com exceção de Denise, os indivíduos aparecem trabalhando em grande parte de seu tempo, e reclamando da falta de tempo livre. Nesse sentido, perguntamo-nos se a questão fundamental seria realmente a da falta de tempo livre ou o fato de não saber mais o que fazer com o tempo que sobra.
Contrastando com o ritmo de vida das personagens, o ritmo do filme é lento. Aquele é resultado do tempo da metrópole, que propicia um tempo interno aos indivíduos, em que estão presentes a sensação de angústia e de eterna falta de tempo, além da de perda de tempo. Na metrópole, a sociabilidade ocorre num tempo cronológico e racional, no qual passado e memória tendem a ser deixados de lado em função de uma aceleração da velocidade da vida, implicando assim uma transformação da cidade que envolve renovação e destruição numa rotina cotidiana.
O tempo na metrópole é um tempo apressado, imediato e, nessa direção, podemos compreender que “as transformações mais radicais de nossa percepção estão ligadas ao aumento da velocidade da vida contemporânea, ao aceleramento dos deslocamentos cotidianos, à rapidez com que o nosso olhar desfila sobre as coisas” (PEIXOTO, 1998, p.179). Trata-se de um fenômeno que vem ocorrendo desde o final do século XIX, tendo em vista que a

“ popularização dos relógios, que passam a ser fixados em lugares públicos na década de 40 – que compunham ao tempo do trabalho, abstrato, o tempo natural - , associada à melhoria das redes ferroviárias – que alterou de 25 para 80 quilômetros por hora a velocidade com a qual as pessoas olhavam as paisagens das janelas dos trens – implicaram um aumento da percepção da natureza subjetiva da experiência visual” (MENEZES, 1997, p.60).

Com a utilização dos sistemas de transportes e comunicação e o surgimento da energia elétrica, a vida do indivíduo da cidade grande passou por um processo de aceleração. E, ainda, o desenvolvimento da economia do dinheiro possibilitou uma aceleração da velocidade da vida. “O homem moderno corre de um lado a outro, incansável mas exausto, sem nunca encontrar uma satisfação que seja intensa e duradoura o suficiente para fazê-lo parar” (WAIZBORT, 2000, p.196).
O tempo vivenciado pelas personagens desse filme é apressado. O ritmo de vida que a cidade lhes impõe é acelerado, ou seja, é um ritmo que assume uma velocidade na vida cotidiana e que vai sendo construído como uma decorrência da disseminação da circulação do dinheiro.
O indivíduo metropolitano angustia-se com esse ritmo exterior pois o mesmo fornece a ele uma sensação constante de falta de tempo. Percebemos, nesse sentido, que o tempo acelerado caracteriza o estilo de vida dessas personagens e contrapõe-se à construção temporal do próprio filme na medida em que o diretor constrói suas imagens, o próprio indivíduo e a cidade, de forma lenta e não acelerada.
Nesse contexto, o tempo das personagens vai sendo vivido pautado no presente sem mais a referência ao passado e o vislumbrar do futuro. Vive-se apenas no presente, e pelo presente.



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