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Os cinco primeiros capítulos da saga Legado de perdição!

por geotopia em 16/11/07 - 17h:46m

HOLOPAN: O LEGADO DA PERDIÇÃO




Werton F. R. Costa





Holopan é um vocábulo que tem sua origem nas palavras gregas holos, que significa “todo”, “inteiro” e pan, que significa “todos”, o conjunto dos seres. São utilizadas no contexto do romance para designar um mundo hipotético onde tudo é possível.





"(...) Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso. Em sonho ou em visão de noite, quando cai o sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama, então lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução, para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba; para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada."
(Jó 33, 14-18)




Prólogo


Para o alívio geral dos teresinenses o escaldante b-r-o-bró havia acabado. A dezembrada das águas anunciou o nosso popular “inverno”, trazendo consigo aquelas chuvas intensas e rápidas que tanto alegravam, quanto, paradoxalmente, entristeciam alguns. Em uma daquelas noites invernosas, em que tudo conspirava para um bom sono, fui, subitamente, acometido por uma melancólica, para não dizer, angustiante, insônia.
O compasso das horas parecia uma tortura. Não ousei resistir. Inútil seria desafiar um metabolismo teimoso. Fato curioso, é que nestas situações estressantes, há sempre uma acomodação, uma via alternativa que adapta o cérebro para vôos, literalmente, mais amplos. Minha percepção estava aguçadíssima. Percebi quão bela e cadenciada é a sinfonia das águas sob telhado. Sua ritmicidade hipnótica somente era interrompida pelos clarões dos coriscos que sangravam pelas frestas das janelas e portas como espadas de luz.
O tempo já não fluía no interior da alcova, adormecia enquanto eu acordava. Tão anestesiado eu estava que, mal percebi o ilusionismo daquela noite. Batendo pálpebras como as asas de uma borboleta, filtrava a luz e penetrava as trevas, extraindo daquele momento, uma filigrana de horas, não um fotograma da realidade, mas um fractal de possibilidades.
A chuva cessara, deixando seu perfume, maravilhoso, no ar. Levantei-me naquela turbidez, mas estranhamente, perdi todas as referências do quarto, tamanha a escuridão do lugar. Parecia mais amplo, o chão escalonado, acidentado e nem um sinal de um interruptor na parede que pusesse fim àquele ambiente turvo. Aliás, não havia paredes! Não havia quarto!
Caminhei a esmo, tateando no escuro. Senti sob as mãos, em ambos os lados, uma superfície áspera, úmida e fria. Era uma superfície rochosa. Dei por mim que estava mesmo em uma espécie de gruta ou caverna. Fiquei pasmo. Meu quarto seria uma passagem para um outro mundo? Continuei meu aleatório itinerário até que avistei ao longe a chamada “luz no fim do túnel”. Era um pequeno foco de luz, semelhante ao de uma lamparina, dessas que a gente ainda encontra pelos sertões do Piauí afora. Aproximei-me com cautela e, para meu espanto, não havia lamparina, nem lampião, nem lâmpada ou qualquer fonte luminosa produzida pela engenhosidade humana. Encontrei, apenas, um exótico objeto brilhante. Uma esfera cristalina da qual vicejava, ou melhor, pulsava, uma luz tênue.
Aquela esfera cintilante, flutuando no meio do nada, atiçava a minha curiosidade. Sem hesitar a toquei e, por um instante, pensei, apavorado, ter aberto a própria caixa de pandora. O pequeno facho de luz despertou um fulgor capaz de cegar qualquer um. As trevas, então, foram ofuscadas e consumidas pelo poderoso lume. Fiz uma varredura visual pelo lugar e deparei-me com uma paisagem fantástica, surrealista. Extensos maciços dourados e um céu turquesa por onde fluía uma excentricidade, o próprio oceano, formando um circuito de águas em forma de infinito. Sob um fértil vale, uma visão paradisíaca, uma exuberante cidade de arquitetura refinada, jardins monumentais e um povo que parecia ter saído de algum filme de época. Só então percebi a dimensão do meu devaneio. Eu não estava mais em meu quarto, nem mesmo em meu mundo. Não estava sonhando, pois era párticipe, um observador invisível das tramas que se desenrolavam naquele naco de fantasia. Eu era mais um personagem naquele universo onírico. Um mundo de sonhos, conhecido como Holopan.



Capítulo 1

Lições no Panlume


Uma caravana silenciosa emergiu de uma caverna nas montanhas douradas do Panlume, o hemisfério luminoso do Holopan. A cordilheira dos Auroperenes constituía um conjunto único de montanhas. Suas cadeias concêntricas, uma formação rochosa sem paralelo no universo, erguiam-se sobre a eterna aurora, como uma gigantesca arena rochosa, separando a cidade de Prima Lux do grande deserto do Panlume, o Ermo Vaporoso. Os viajantes que aportaram por estas plagas, se depararam com uma paisagem cintilante, reluzente, que de relance os cegava, mas que revelava, pouco a pouco, seus variados matizes e texturas, muitas das quais entorpecedoras. No comando da expedição, Zara Eidos, conhecido como o artesão, um senhor magro em sua túnica vermelha surrada, barba grisalha, empunhando o Halorium, um cetro prateado com quatro gemas preciosas incrustadas. Logo ao lado, seu jovem aprendiz, Manúzio, observando tudo por entre as frestas dos dedos da mão sobre a face, tamanha a luminosidade do lugar. Ambos, acompanhados por Ghayva e sua legião de comandados, os soldados da ordem do ciclo, conhecidos, popularmente, como ciclóides.
- Até que enfim a luz e ares saudáveis! Foi uma boa caminhada. Disse o artesão aos seus fadigados acompanhantes.
- Que lugar é este Mestre? Perguntou arfante, Manúzio.
- Um lugar que me trás boas recordações, um lugar para refletir e para apreciar a implacável força do tempo. Respondeu o enigmático Zara Eidos. - Estas montanhas, caro aprendiz, constituem a fronteira da civilização lumeana com o seu passado primitivo.
- Como assim mestre? Indagou o pequeno aprendiz.
- Olhe daquele lado! Falou o artesão, apontando para um extenso vale circular. - É a cidade dos sonhos, Prima Lux, o cérebro do Holopan e a jóia do Panlume. É a fronteira da civilização. Todavia do lado oposto, você vê um vasto deserto, a solidão perene, o calor sufocante do Ermo Vaporoso. Palco de grandes guerras e cataclismos que definiram a história deste mundo. Além do planalto causticante, está o extremo do mundo onírico. Um lugar tão misterioso e perigoso que poucos oníricos se aventuraram a explorá-lo. É chamado de fosso inanimado.
- E o que há de especial neste tal de fosso? Inquiriu Manúzio.
- É o caminho mais curto para o esquecimento. Refletiu Zara Eidos. - É uma reminiscência, um eco do sonho humano. Os antigos oneironautos ou exploradores de sonho visitavam este lugar no passado. Foi a partir dele que tomamos conhecimento dos humanos. Entretanto, é uma incógnita e uma armadilha para os oníricos. Suas paisagens mutantes e voláteis são simulacros que tem propriedade de aprisionar para sempre quem as tocar.
- Então esta é a finalidade secreta de nossa viagem, conhecer o passado dos homens e do Holopan? Questionou o pequeno Manúzio.
- Não meu caro aprendiz! Você é muito apressado e sua percepção ainda carece da devida sensibilidade. Paciência, pequenino. Tudo ao seu tempo. Disse Zara Eidos. - Esta é apenas mais uma de nossas lições! Sente-se um pouco.
O jovem aprendiz sentou-se em uma pedra ao lado, pegou seu bloquinho de notas e mirou seu olhar curioso sobre o paciente mestre.
- Pode começar mestre! Falou Manúzio.
- Tudo bem. Vou lhe contar a história de um mundo fonte que se confunde com a própria história do Holopan. Veremos o paradoxo de Aezca. Disse o artesão ao aprendiz enquanto com as mãos apanhava um punhado de um pó azulado, a argila máter, de seu alforje.
Concentrando-se na argila, o artesão a fez flutuar. O pó azulado viajava, aleatoriamente, por entre os presentes, até o artesão iniciar a sua narrativa. No momento em que falava, as partículas suspensas passaram a esculpir no ar imagens do passado, memórias de tempos remotos, anteriores a formação do mundo onírico.
- Houve um tempo, jovem aprendiz, em que não existia o Holopan. Os sonhos, recônditos, só floresciam no âmago humano, a psique íntima de cada indivíduo. Contudo, havia a névoa primordial, um proto-mundo, desabitado, forma residual e quase inerte desta mesma psique. Neste lapso temporal, o único mundo humano, a Terra, sofria em lenta agonia um cataclismo natural que ameaçava todas as formas vida. A biosfera não suportou o predatório impacto do progresso humano e o clima hostil diminuiu, drasticamente, as fontes de subsistência. Na perspectiva de encontrar uma solução para este caos anunciado, o homem agarrou-se mais uma vez a sua racionalidade e produziu o mais engenhoso paliativo, uma nave, a Hibiscos. O imponente engenho, contudo, foi projetado para levar apenas, alguns milhares, os chamados pioneiros. O destino, um planeta do outro lado da Via Látea, Aezca. Deixando a humanidade a mercê de um fim próximo, trágico, os pioneiros rumaram para uma longa e perigosa viagem. Quando os humanos chegaram a Aezca, encontraram um mundo atrasado para os seus padrões tecnológicos, mas dotado de uma cultura única, avançadíssima no conhecimento transcendente. Contrastando com sua formidável erudição, os aezcanos enfrentavam naquele momento uma terrível guerra. Os abissais e o povo da calota, os Ginkas, digladiavam-se pelos parcos recursos naturais do planeta. Coube aos humanos promover a paz entre os povos beligerantes. Todavia, os esforços da raça humana para pacificar e garantir a sobrevivência de uma civilização nativa foram burlados pela fina ironia do destino. Os pioneiros trouxeram consigo os germes que desencadearam a mais mortal das epidemias sobre Aezca. Antes que os homens entendessem o que estava acontecendo, que encontrassem a cura, a mortandade tomou conta de todo o planeta, extinguindo a raça aezcana. O último dos xamãs abissais, em seu leito de morte, com o intuito de preservar o legado cultural de sua civilização, revelou, a cinco dos pioneiros, o mais fantástico segredo de Aezca, a lila. Uma substância especial, presente nos oceanos daquele planeta e que apenas se manifestava a cada duplo eclipse solar. A lila possuía propriedades mágicas, não muito definidas, que variavam de sua natureza entorpecente, despertando em uns o poder de cura, em outras o dom da premonição. Mas alguns que a ingeriram adquiriram uma faculdade especial. A capacidade extraordinária de mergulhar em sonhos não-humanos, ter visões de realidades invisíveis, comunicar-se com outros mundos. O pobre xamã abissal não sobreviveu o bastante para contar aos cinco privilegiados pioneiros que havia um mistério. A incógnita sobre os efeitos adversos da ingestão da lila. Não se sabia ao certo como ela reagiria no metabolismo humano, que sensações e visões despertaria no subconsciente. O provável é que os ansiosos pioneiros, desconhecendo as vicissitudes astronômicas e peculiares de um sistema solar com duas estrelas, precipitaram-se em ingerir a lila. Os homens a beberam e nunca mais foram os mesmos. Passaram a ter visões de seu passado, de sua ancestralidade e viram coisas jamais vislumbradas por sua imaginação. Coisas, seres e lugares que até então não existiam, mas que por força dos seus desejos e sonhos mais íntimos se materializaram na fronteira tênue entre realidade e fantasia, a névoa primordial. Claro que, o pecado humano residiu em beber a lila errada. Havia dois tipos de lila, a áspera ou grosseira e a depurada. Ao beberem da lila áspera os homens geraram sob a névoa os seres primevos, detentores do primitivo ímpeto guerreiro que os conduziu à barbárie e que acabou por envenenar dois dos escolhidos. Entretanto, a ingestão da lila depurada, gerou os oníricos perfeitos, fundadores do Holopan e que extirparam da névoa primordial os primevos. O primeiro onírico verdadeiro foi Eidos, também o primeiro artesão, o pai de todos, cujo nome os demais artesãos que o sucederam herdaram, inclusive, eu. Você pequeno Manúzio, também o herdará, junto com os meus três sintagmas, o que aciona o Poço de Zahari, o que arma o Halorium e o que manipula a argila máter.
- Será uma grande honra Mestre! Exclamou Manúzio. Entusiasmado com a história que Zara Eidos lhe contara o jovem aprendiz não se conteve, perguntou-lhe algo inusitado. - Mas Mestre, eu tenho uma curiosidade. O que aconteceria se um onírico bebesse da lila?
O artesão mudou, subitamente, o semblante, sua concentração foi dissolvida pelo receio que a pergunta suscitava, as imagens projetadas pela argila se desfizeram no ar, e seu olhar, cheio de dúvidas, rememorou consigo mesmo o fim da missão secreta que o levou ao Ermo Vaporoso. Aproximou-se do aprendiz tocando-lhe a face.
- Não sei ao certo Manúzio e, talvez esta incerteza seja o que me deixa tão apreensivo. Os que vieram antes de mim especularam sobre o assunto. Provavelmente, despertaria o primitivo. Não o primitivo humano, mas um primitivo do próprio sonho, ainda mais caótico, imprevisível e perigoso. Mas isto são apenas especulações caro aprendiz. Por hoje é o bastante. Disse o artesão findando, prematuramente, o diálogo com seu aprendiz.
- Mas mestre, gostaria de saber mais sobre Aezca! Disse o eufórico Manúzio.
- Não se preocupe pequenino, tão logo retornemos ao Mesopan, usarei a visão do Poço de Zahari para lhe mostrar este exótico mundo fonte. Sussurrou o mestre artesão.
- Olha, promessa é dívida! Exclamou o aprendiz.
- Ghayva prepare a tropa, vamos descer as montanhas. Ordenou Zara Eidos.
- Sim, Senhor Eidos. Confirmou o chefe da legião ciclóide, perfilando seus legionários.
- Mestre! Mal acabamos de chegar e minhas pernas estão doendo. Reclamou o pequeno Manúzio.
- Se realmente quer conhecer os mistérios do Holopan terá que ignorar a própria dor pequenino. Advertiu o artesão. - Então não quer descobrir o objetivo de nossa missão secreta?
- Oh mestre desculpe-me! Disse o aprendiz, recolhendo rapidamente os seus pertences, preparando-se para continuar a longa jornada pelo interior da planície do Ermo Vaporoso.



Capítulo 2

Os olhos do Imperador


Prima Lux, a cidade dos sonhos, a única porção habitada do Panlume, o hemisfério da eterna aurora. Um verdadeiro oásis, cercado pelas cadeias concêntricas dos Auroperenes, em meio a um deserto estéril, causticante e traiçoeiro, o Ermo Vaporoso. Na cidade que não dorme e que não sonha, todos são personagens de uma trama maior, que transcende os limites do próprio mundo onírico, o Holopan. As torres imponentes da cidade, suas cúpulas e domos dourados, o templo do Aquezênite, as ruas largas radiais, quase sem fim, as fontes d’água que traçam no ar, belos mosaicos. As ruas ajardinadas desembocam em largos arborizados com as espécies mais fantásticas, muitas de um exotismo tão ímpar que escapariam do laço intuitivo da imaginação humana. Esta bricolagem de cenários constitui o palco para uma requintada e opulenta civilização. Os habitantes do Panlume, conhecidos como lumeanos. Este é um verdadeiro mundo dos sonhos. Como toda realidade, mais rica do que qualquer abstração que dela possamos extrair, este é também um mundo de causa e efeito, fractalizado por interseções de destinos e, fadado ao permanente retorno.
Os oníricos que aqui vivem transitam por um tempo em mutação, os últimos momentos do Cronociclo Duoram. A ordem das Celódias agoniza enquanto a oitava dinastia, representada pela Casa imperial de Ksa Glácios aprofunda o seu projeto reformista de liquidação das velhas instituições e implantação de uma nova ordem, a una indivisa. O governo do Imperador Ksa Glácios extinguiu as assembléias de guerreiros, conhecidas como Celódias, base da antiga democracia onírica e limitou drasticamente o poder dos governadores umbranos com a nomeação de um híbrido de conselho consultivo e tribunal, os Monocameriais, composto por membros da baixa nobreza.
Seu ímpeto reformista apoiou-se na estrita vigilância dos oníricos e disseminou o germe da desconfiança e da conspiração sobre umbranos e lumeanos. Impostos elevados e a ampliação das cotas de produção alimentaram revoltas em todos os planos e segmentos da sociedade onírica. Enclausurado por vontade própria no Palácio imperial, governando por editos compulsórios executados pelos terríveis ulohs, Glácios pactou com o proibido para ter a ubiqüidade, lançando seus olhos sobre os limites do mundo, vendo o transcendente e o invisível, o que nem mesmo Zara Eidos com seu poço de Zahari veriam. Assim os seus tentáculos de poder se espalharam como sombras vivas e fantasmagóricas pelo Panlume, Mesopan e Panumbro, manifestando o alcance e a onipresença dos olhos do Imperador.
- Belotriex de Iridan, Comandante da Guarda Imperial Uloh. Anunciou o chefe de cerimônias da sala do trono, diante da corte monocameral e do Imperador Ksa Glácios.
- Majestade. Disse Belotriex, prestando a tradicional reverência lumeana ao Imperador.
- Meu nobre comandante. Qual o desfecho de nossa incursão sobre o Panumbro? Espero que o seu precoce retorno do front de batalha seja um sinal de vitória sobre o grupelho de rebeldes que insistem em nos negar o valioso carbólio. Disse Ksa Glácios, em tom irônico, diante de uma corte que se refestelava em um farto banquete entre pratos a base de suculentas frutigomas e imoderados goles de tritinéctar.
- Imperador, infelizmente o meu relatório não trás boas notícias. Respondeu com certa preocupação Belotriex. - O desempenho dos ciclóides em combate contra os rebeldes faberpans tem sido pouco eficiente. São muitas as nossas baixas. Nossa patrulha alada de eóliplans não tem conseguido rastrear os movimentos dos rebeldes. Tudo indica que eles se escondem nas umbrófitas e se movimentam pelos Atroperenes rumos às cidades com a descida das brumas. Parece que estão em todos os lugares e deflagram contra nós ataques furtivos e relâmpagos.
- O que? Isso é inadmissível! Respondeu, irritado, o Imperador. - Quer me fazer acreditar que cinco legiões de soldados ciclóides, bem treinados, armados com feixes psiônicos, o que existe de melhor na tecnologia bélica lumeana, não conseguiram debelar um punhado de operários insubordinados com pedras e varas de marma? Que incompetência!
- Majestade, se o senhor permitir, parto agora, com uma unidade dos meus melhores Ulohs e feixes soniais de última geração. Prometo que trarei a cabeça de Arcande! Exclamou Belotriex com seu orgulho de soldado ferido.
- Chega de promessas e tolices, soldado! Esbravejou Ksa Glácios, para o espanto dos Monocamerais, tão acostumados com o seu habitual comedimento e refinamento. - Arcande, este amotinado desprezível, vale muito mais vivo do que morto. Faberpans insurretos podem inflamar uma revolução se eu lhes der um mártire.
- Então, o que Vossa Majestade recomenda? Perguntou o comandante Uloh.
- Ataque o pastor e as ovelhas se dispersarão. Disse o Imperador com um ar metafórico, mas destilando a velha perspicácia que o tornou calculista e pragmático, mantendo-o por tanto tempo no trono do Holopan. - Siga para o Panumbro com os Ulohs. Eu lhes darei as coordenadas para encontrar Arcande e seus celerados. Por enquanto, quero que todos se retirem desta sala.
Naquele momento, Belotriex, a corte dos Monocamerais e os demais presentes, ausentaram-se da sala do trono, ficando apenas o Imperador, companheiro de um silêncio quase fúnebre. Ksa Glácios pôs uma mão sobre a outra e mergulhou em um transe profundo, uma meditação que por segundos paralisou-lhe o coração como um convite à própria morte. A temperatura da sala caiu bruscamente, o seu corpo e os objetos a sua volta foram tomados por uma fina camada de gelo. A consciência do Imperador desligou-se de seu corpo e em um instante sua mente atingiu o Aquezênite, o templo da água no Panlume até chegar a câmara proibida, onde o mesmo atingiu a escuridão total do universo. Vozes agonizantes ecoavam no cérebro de Glácios e uma luz muito intensa começou a formar-se ao longe, revelando-lhe o invisível.
- Encontrei! Disse o Imperador, com os olhos tomados pela mais turva das noites.



Capítulo 3

Emboscada em Brisânia


Nas cercanias de Brisânia, a cidade dos ventos, há um prolongamento antigo da via luminescente, a estrada luminosa que corta, sinuosamente, os penhascos dos montes Atroperenes e atravessa toda a Floresta das Umbrófitas. Nos ciclos remotos deste mundo, a via luminescente era passagem obrigatória para tropeiros, que transportavam, em suas montarias de velozes celerepans, os finos cristais de Brisânia, rumo às cidades de Aquácita das águas, Urbígnea do fogo e Geóvilla da terra. Os cristais de Brisânia continuam finos, maravilhosos, perfeitos e, fazem a alegria dos nobres da corte de Ksa Glácios em Prima Lux. Os celerepans, animais que, de tão velozes, deixam na estrada um rastro de chamas, continuam mais selvagens e velozes do que nunca, todavia, não são mais a montaria de tropeiros com grande tino comercial, mas de guerreiros faberpans que trazem consigo a semente da esperança dos umbranos, entusiasmados pela resistência da última Celódia.
- Amigos umbranos, os celerepans precisam repousar, acamparemos nas grutas sobre o penhasco e esperaremos a queda das brumas para um retorno seguro. Disse Arcande, o mineiro de Geóvilla que se tornou o líder da resistência faberpan ao governo de Ksa Glácios.
- Não estamos nos arriscando demais? Perguntou Haranda, companheiro de Arcande em Geóvilla e líder de uma unidade de combate faberpan. - Os ciclóides patrulham Brisânia do alto. Aqui somos alvos fáceis para os eóliplans de Prima Lux.
- Bobagem Haranda! Se eles ousarem aparecer, lhes daremos outra surra, como fizemos em Geóvilla. Disse, não contendo as gargalhadas, o grandalhão Heliônix, líder de outra unidade de combate faberpan.
- Ah, já estava me esquecendo. O quanto vocês de urbígnea são exagerados. Respondeu Haranda ao companheiro de viagem.
- Haranda está certo, devemos ter cuidado. Disse Arcande, esboçando certa preocupação.
- Há algo de errado? Perguntou Haranda.
Todos ficam em silêncio. Olham para o alto, para os lados, para baixo e não vêem nada. Entretanto, Arcande com seus sentidos aguçados, pressente algo.
- Ele está aqui! Sussurrou Arcande, sinalizando para os companheiros.
- Quem está aqui? Perguntou baixinho Heliônix, num misto de curiosidade e temor.
- O próprio Imperador, meu amigo! Respondeu Arcande, provocando em todos, a mesma sensação. - Prestem atenção! Neste momento já devemos estar cercados por tropas ciclóides ou coisa pior. Dividiremos nossas unidades e seguiremos com toda velocidade para o local combinado nas umbrófitas. Precisamos realizar a celódia e manter viva a chama da resistência umbrana. Reúnam os celerepans, eu vou despertar a ira de um fantasma.
Enquanto Heliônix e Haranda posicionavam, lentamente, suas unidades, Arcande retirou, do interior de seu alforje, um cristal starlex, minério brisaniano de alta instabilidade, capaz de produzir intenso fulgor quando quebrado.
- Mostre sua verdadeira face, criatura do mal! Gritou Arcande ao lançar o starlex sobre os rochedos.
Um imenso clarão se formou, revelando, à frente de Arcande, o títerespectro, o verdadeiro olho do imperador, uma criatura sombria feita das cinzas dos mortos do Holopan. No alto do penhasco, eóliplans e ulohs da guarda imperial se preparavam para o ataque. A intensa luz cegou as forças de Glácios, permitindo que os faberpans cavalgassem seus celerepans e empreendessem uma fuga espetacular. Entretanto, Belotriex, comandante uloh, sobre a borda superior do penhasco, recebia instruções de um outro títerespectro.
- Eles se dividiram em três grupos. Desprezem os demais, quero apenas o líder. Ecoou a voz de Ksa Glácios do interior do corpo da entidade fantasma.
- Sim Majestade, o revoltoso Arcande será capturado agora mesmo. Disse Belotriex ao seu Imperador por intermédio do títerespectro.
Um verdadeiro enxame de eóliplans mergulhou sobre o abismo em perseguição a Arcande e sua unidade faberpan. Um a um os umbranos, em seus velozes celerepans, eram abatidos pelos certeiros disparos dos feixes soniais dos soldados da guarda imperial. O líder da resistência umbrana ficou sozinho e num gesto desesperado saltou com seu celerepan para o outro lado do penhasco, adentrando nas cavernas dos Atroperenes, verdadeiros labirintos, no afã de despistar os seus perseguidores. Enquanto penetrava mais e mais pelas galerias sinuosas e estreitas, muitos ulohs e eóliplans ficaram pelo caminho, colidindo, violentamente, sobre os paredões. Mas o comandante Belotriex insistia na perseguição. Derrubou Arcande, após atingir sua montaria com um disparo do feixe sonial.
- Entregue-se pacificamente, celerado, e sua vida será poupada! Disse Belotriex, enquanto Arcande levantava-se apoiado sobre um bastão de marma.
- Não sem antes lutar! Respondeu Arcande, desafiando Belotriex.
- Isto será um prazer. Belotriex desceu de seu eóliplan, empunhou um sabre de puro carbólio e partiu contra seu desafiante, armado apenas com um bastão de madeira. Não era uma madeira qualquer, era a marma, aquela que, segundo os antigos, jamais se vergava sob as mãos de um justo.
O duelo, aparentemente, assimétrico, terminou de forma precoce, quando Arcande ao se desviar de uma estocada de Belotriex, o golpeou nas pernas, imobilizando-o.
- Então você é o melhor de Prima Lux? Inquiriu Arcande, com a vara de marma sobre o corpo do assustado comandante.
- Não...Vociferou do nada uma voz grave e assustadora. Sem tempo para reagir, Arcande viu-se envolvido por uma estranha poeira negra que o paralisou completamente. As partículas de poeira começaram a se aglutinar dando forma ao títerespectro. A criatura das sombras aproximou-se de um Arcande petrificado, retirou o capuz e mostrou sua face:
- Não...Eu sou o melhor de Prima Lux! Disse Ksa Glácios ao dar uma gargalhada.




Capítulo 4

Caçadores de bioritos


- Finamente chegamos! Exclamou, Zara Eidos, o artesão e Mestre do Mesopan, diante de uma legião de soldados ciclóides e do seu discípulo Manuzio. - Veja, jovem aprendiz. Este é o Ermo Vaporoso, um lugar aparentemente morto, uma paisagem árida, uma porção do Panlume que a maioria dos lumeanos desconhecem. Na verdade um universo de possibilidades...
- Mestre, o que viemos fazer aqui? Perguntou o curioso Manúzio.
- O que viemos fazer aqui?! Você não percebe? Não está sentindo? Olhe a sua volta! Inquiriu o Senhor do mundo intermédio em tom dialético. - Este é o mundo da luz, pequeno Manúzio. Ao centro, Prima Lux, a cidade dos sonhos, o comando do mundo onírico, cercada pelas montanhas do Auroperenes, que nunca mudam, nunca envelhecem. Nas bordas, nas fímbrias e fronteiras deste mundo luminoso, este ermo, um deserto com seus vapores, com seu calor causticante e atmosfera ácida. Olhe, no alto, a esfera da luz! Como brilha, como flutua. Ela mantém esta gravidade leve e, no seu interior repousa Hidráurea, a guardiã.
Manúzio, meio confuso, ouviu a explicação do Mestre artesão. Observou, atento, a “paisagem que nunca muda”, um lugar estéril que transpirava a permanência, a imutabilidade, mas que estava prestes a ser o palco de uma estranha metamorfose.
- Mestre, olhe! Disse o assustado discípulo, apontando com o dedo o anormal ciclo eruptivo dos gêiseres do Ermo Vaporoso.
- Está começando. Disse Zara Eidos, olhando para o aprendiz e para os inquietos soldados ciclóides. - É um novo ciclo, o mundo reage anômalo, mas reage, conforme minha visão no poço de Zahari. Preparem-se para a tempestade, hoje nós vamos caçar um biorito.
Os presentes entreolharam-se assustados, pois no Panlume não acontecem tempestades. Muito menos bioritos, formas brutas e primitivas de vida onírica, não despencam do céu-oceano para o Panlume. Seria um mau presságio? Num instante, o Ermo é tomado por ventos fortíssimos e espirais ciclônicas formam-se no alto do céu-oceano. Aquela paisagem, antes dominada por um fulgor místico, viu-se mergulhada nas sombras, ofuscando o brilho da esfera de Hidráurea, enquanto descargas elétricas desciam do alto sobre o deserto, causando grande destruição.
- Senhor, o clima está muito instável, não é seguro, precisamos encontrar um abrigo. Dirigiu-se a Zara Eidos o apreensivo Ghayva, chefe da guarda ciclóide.
- Mestre, creio que os ciclóides estão certos, aqui é muito perigoso! Alertou o amedrontado Manúzio.
- Olhem no céu-oceano! Apontou Zara Eidos para o alto, ignorando o temor dos incautos acompanhantes e, chamando a atenção para velozes focos de luz, viajando pelo Turbilhão das águas que compõe o firmamento do Holopan.
- É inacreditável, Mestre Eidos! Exclamou eufórico o outrora apavorado aprendiz diante de um mestre que esboçava pouca surpresa. – É um biorito! Como isso é possível?
- Este é especial, meu discípulo. Há mais fluxo-essência do que em qualquer outro que já vi. Respondeu Zara Eidos.
Na verdade, era o maior e o mais brilhante biorito que Zara Eidos tinha visto em todos os seus ciclos de existência. Um achado raro, misterioso, que o intrigava e o atraía. No Holopan, os bioritos constituíam a matéria-prima para a criação dos seres oníricos, representavam a projeção materializada do sonho humano, conduzido pelo Turbilhão do céu-oceano a partir de uma energia cósmica e transcendental, a fluxo-essência.
- Você já sabe o que fazer. Disse o artesão ao chefe da legião de ciclóides.
- Guerreiros da ordem do ciclo, acionar feixes de captura! Ao meu comando, atirem! Ordenou Ghayva aos seus comandados. - Capturar!
O biorito em rápido movimento pelo céu-oceano foi atingido em cheio por doze raios de luz azulados, projetados pelos feixes tratores de captura dos ciclóides. Tudo parecia correr conforme o planejado por Eidos, mas a velocidade do bólido resistia a capacidade de captura dos feixes, sobrecarregando-os.
- O que está acontecendo Ghayva? Perguntou o preocupado artesão.
- Mestre artesão, os feixes de captura não têm potência suficiente para trazê-lo ao solo. Creio que vamos perdê-lo. Informou o chefe ciclóide.
- Não podemos perdê-lo, segurem firme! Disse o artesão, enquanto sussurrava palavras em uma língua desconhecida e erguia o halorium, um cetro que acompanhou onze gerações de artesãos e segundo a lenda, portador de grande poder.
Zara Eidos apontou o halorium em direção ao biorito que já se encaminhava para o limbo-abismo, o extremo do Holopan, a conhecida linha do horizonte do mundo onírico. Um incrível raio fluiu do halorium trazendo o biorito para o centro da abóbada, aparentemente, retornando a sua órbita regular de entrada na superfície do Panlume. Mas o sistema estava caótico, forças desconhecidas interferiam na atmosfera do Holopan e no poder do halorium de Eidos, conduzindo o biorito em direção à esfera da luz. Seria uma catástrofe.
- Mestre faça alguma coisa, a esfera será atingida! Disse o ingênuo Manúzio, todavia Eidos surpreendeu a todos.
- Vejam! Não será preciso, olhem para a esfera da luz.
Manúzio e os ciclóides olharam para o alto, atônitos, diante da esfera da luz que se abriu como uma concha, libertando a guardiã do Panlume, Hidráurea. O bólido, incandescente e desgovernado, foi envolvido por uma gigantesca bolha de água, conduzida pela guardiã até o Ermo Vaporoso, ante Zara Eidos. O artesão, gentilmente, agradeceu a cortesia da guardiã que, após entregar-lhe o biorito, em um suave vôo retornou para o interior da esfera da luz.
- Mestre Eidos, ela é fantástica! Exclamou o estupefato aprendiz.
- Não se surpreenda, jovem Manúzio. Respondeu o artesão. - Pense grande! Esta é apenas uma gotícula da extraordinária magia que nos envolve. Temos muito trabalho a fazer. Levaremos o grande achado para o Mesopan. Estamos diante de mais um intrigante enigma deste mundo! Disse Zara Eidos fitando o biorito com um entusiasmo contagiante.
Então se dirigiram os intrépidos caçadores de bioritos para o plano intermédio, o Mesopan, onde o artesão buscaria em seu laboratório as respostas para compreender a origem do bólido errante que ousou cair no Panlume.


Capítulo 5

A última Celódia


O vento gélido da eterna noite do Panumbro soprava como nunca sobre as umbrófitas. Esta floresta das sombras, um naco do mundo onírico que aos pesadelos oferecia o contentamento e aos celerados de toda sorte, o refúgio ou a perdição, era onde a vida vicejava, em um silêncio monocromático, sob a luz pálida e translúcida da aurora-marinha de um céu-oceano não menos turbulento. Entretanto, a turva mata gemia, parecia orquestrar uma sinistra sinfonia que anunciava a tempestade. Em se tratando de Holopan, a tempestade era sempre um sinal ambíguo, presságio paradoxal da gênese ou do crepúsculo de um tempo, itinerário para a vida ou para a morte...
Um crepitar súbito, passos comedidos, movimento entre as folhagens, anunciaram a chegada de Áthala, a guerreira umbrana de Geóvilla, cidade mineira da terra. Aproximou-se, cautelosamente, de um colossal tronco de marma, espécie de pinheiro típico das umbrófitas, caído em meio ao que outrora era uma antiga estrada, a via luminescente. Abriu a capa cinza que a envolvia, seus olhos verdes fitaram o lugar, os sentidos se aguçaram e suas mãos tatearam o tronco a procura de um indício, uma marca: o hologlifo dos faberpans, o símbolo dos operários. Ergueu lentamente a manga, deixando visível o hologlifo tatuado no braço, a gigantesca tora de marma revelou a passagem para o invisível, um túnel que a levou para os subterrâneos da floresta, o radiculátrio.
Os radiculátrios são os santuários das raízes, pátios onde a floresta das Umbrófitas absorve a tênue umidade do rio Medra que percola por entre os interstícios das rochas, vaporizando-se no ar pesado do Panumbro. O Medra é o rio do mundo intermédio, o Mesopan, cujas águas são apenas uma filigrana do Turbilhão que fornece ao Holopan o seu circuito de tempos, a passagem dos dias e o elo entre dois hemisférios distintos, o Panlume, a luz e, o Panumbro, a escuridão. É no fundo do Medra que repousa a substância mágica do mundo onírico, a argila máter, capaz de animar os inanimados bioritos, mas de uso exclusivo do Senhor do Mesopan, o artesão Zara Eidos.
Áthala adentrou o santuário das raízes, sua chegada foi logo percebida pelos presentes à última Celódia do Holopan, uma espécie de assembléia de guerreiros, extinta pelo Imperador Ksa Glácios.
- A Celódia umbrana estava aguardando, ansiosa, o seu retorno. Boas novas? Notícias de Arcande? Perguntou Haranda, o líder da assembléia.
- Infelizmente, não trago boas notícias para esta assembléia. Arcande deverá ser julgado, brevemente. O próprio Imperador Ksa Glácios e seus monocamerais comporão o júri com a anuência e cumplicidade dos governadores umbranos. Nossos informantes em Aquácita relataram-me que caso seja condenado, Arcande será aprisionado em uma porção do Mesopan conhecida como galeria dos exilados, sob os cuidados de Zara Eidos, o artesão. Informou Áthala.
Haranda não conseguiu esconder seu desapontamento, sua indignação. Afinal, Arcande, além de seu companheiro na minas de Geóvilla, era um grande amigo. O mineiro e Haranda trabalhavam em dupla nas minas de carbólio sob a cadeia dos Atroperenes, na fronteira da cidade da terra. O carbólio, o minério mais resistente do Holopan, é uma substância estratégica para a manutenção do Império de Ksa Glácios. Extraído em Geóvilla, é levado até as sulfúrias de Urbígnea, onde é fundido e convertido na matéria-prima para todas as obras, construções, armas e ferramentas. Um belo dia em uma escavação de rotina, Arcande descobriu por acidente algo que mudaria, drasticamente, não apenas a sua vida, mas todo o destino dos faberpans. O que seria uma simples caverna encravada na rocha, era na verdade uma passagem secreta, um túnel que conectava o Panumbro ao Mesopan e, este ao Panlume. Sua entrada na passagem o levou a Prima Lux, a cidade dos sonhos do Panlume, onde efetivou outra importante descoberta: o sofrimento dos faberpans alimentava um mundo de opulência, refinamento e magia... para poucos.
- Precisamos nos apressar. Libertaremos Arcande! Disse Haranda aos membros da Celódia. - Não podemos permitir que a tirania de Ksa Glácios se espalhe pelo Holopan, oprimindo e escravizando os faberpans, mantendo-nos neste interminável regime de trevas e sob o poder hipnótico da esfera negra. Arcande nos mostrou o caminho, nos revelou a farsa do mundo dos sonhos, resta-nos agora mobilizarmos, nas quatro cidades, nossos melhores guerreiros para enfrentarmos os ciclóides e reabrirmos a passagem de acesso a Prima Lux.
Enquanto os membros da celódia ouviam atentamente o apelo de Haranda, Áthala pediu a palavra.
- Os faberpans de Aquácita ouviram certos boatos.
- Que boatos? Perguntou Heliônix, um dos presentes.
- Há rumores que o poder de Glácios não é uma unanimidade entre a alta nobreza. Vozes de Prima Lux já almejam à sua queda. Um partido age na clandestinidade, o chamam de Dawa. Há indícios de que até nossos governadores umbranos conspiram contra o Imperador.
- A nossa guerra não é a mesma da elite umbrana. Informou Haranda. - São cúmplices deste regime. Não podemos confiar em gente como Walrano, um ser tacanho e tão ardiloso quanto Glácios.
- Haranda, sabemos que o imperador exerce a ubiqüidade, o poder de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Que o mesmo tem em sob seu controle uma legião de espiões fantasmas, os títerespectros, e que seus olhos percorrem todo o Holopan por meio destas bizarras criaturas. Acrescentou Heliônix, demonstrando preocupação, já que a prisão de Arcande ocorreu sob condições misteriosas, com o possível envolvimento destes seres sombrios.
- Tenhamos calma, amigos! Advertiu Haranda. – Agiremos com cautela. Esperaremos o fim da tempestade. A partir daí, seguiremos a direção das brumas. Elas ocultarão nossos movimentos. Então, reuniremos nossos regimentos nas montanhas aos pés da grande Krasnox e lançaremos, furtivamente, um ataque massivo a Geóvilla. Que a resistência da última assembléia seja um manifesto vivo contra a tirania de Glácios.
- Pela liberdade de Arcande e a vitória dos faberpans! Gritaram, eufóricos, os presentes a celódia.