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PRESIDIÁRIO....
por gilmarbranco em 23/05/05 - 03h:31m
Voluntário no Complexo de Presídios Frei Caneca
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Sempre manifestei o desejo em desenvolver trabalho voluntário junto aos encarcerados. Tal desejo chegou ao conhecimento da minha prima, Fátima, professora na Penitenciária Milton Dias Moreira, que leu alguns dos meus textos, que abordam a droga e nova perspectiva de vida. Então conversou com a orientadora pedagógica, Tânia, e fui desde então executar esse novo desafio em minha vida. Ali vivi, apesar do pouco tempo, grandes momentos. Eu exercia o papel de professor de teatro e minhas aulas eram voltadas para trabalhar a autoestima e a ressocialização. Utilizei vários métodos de trabalho, inclusive o de relaxamento para se chegar a uma eficaz reflexão sobre os valores humanos perdidos ou não adquiridos. Tive um aluno que acendeu um cigarro e começou a fumar em pleno primeiro dia de aula. Pedi, gentilmente, para apagar explicando que não se deve fumar numa sala de aula, num ambiente fechado, que poderia incomodar as outras pessoas. Respondeu-me num tom tentando intimidar-me: "eu posso professor". Eu é que não podia permitir tal comportamento diante da turma, independente da prática do seu delito e/ou o perigo que eu poderia está me expondo. Repliquei dizendo: na minha aula nao!!! Fui prontamente atendido e ele apagou o cigarro. Este jovem forte e de aparência ameaçadora era considerado um dos "poderosos" da penitenciária e volta e meia aparecia com uma novidade, seja para ofender algum colega de turma ou para chamar a minha atenção de alguma forma. Como de costume falei da nova chance, de um recomeço, mas ele não acreditava que poderia mudar o seu comportamento, alegando sentir falta da adrenalina, da correria da polícia... Foi quando eu disse que ele poderia fazer o que tivesse vontade, inclusive o mal, mas que poderia experimentar o bem, o respeito... Que mesmo o "mundo" não acreditando nele, eu acreditava. Mas que isso não bastava. Que ele precisava apostar em si mesmo. E que tudo mudaria se ele tentasse. E para o espanto dos outros internos e posteriormente dos demais professores, aquele homem forte começou a chorar diante da turma. Manifestando uma sensibilidade encarcerada há anos dentro daquele homem, um sentimento diverso da maldade. A nossa lição naquela tarde foi através das lágrimas de um jovem que vivia dependente da adrenalina. Você que não acredita na mudança dos encarcerados e tem se tornado um julgador, feche os olhos e tente se imagimar dentro de uma cela com muitos outros presos sem ter a esperança como companheira. Sabemos que devido a Sua oniciência Deus está em toda parte, inclusive lá, porém é preciso invocá-lo. Deus respeita as minhas vontades, as suas vontades, não é um invasor de corações, de vidas, é gentil, educado e deseja ser convidado para ser o Senhor de sua vida. Respeite o próximo seja ele quem for. Deus se agrada e ficará muito feliz e sua vida ganhará um novo sentido. Faça a sua parte, acredite mais na humanidade, acredite na ressocialização dos encarcerados fisicamente e também espiritualmente, acredite no bem verdadeiro, acredite em você, acredite em Deus!
Mais tarde este jovem chamou-me para falar em particular. Disse-me que acreditava nesse recomeço e que gostaria de oferecer-me uma casa. Fiquei feliz com aquele gesto mais valioso que qualquer bem material. Expliquei que o meu objetivo de ser um voluntário estava em lutar juntamente com eles para que vivecem num mundo melhor, mas que para isso eu precisava da ajuda, principalmente deles, e consequentemente todos seriam alcançados por essa melhoria. Outras experiências poderiam ser descritas, no entanto relatarei somente mais uma. Um outro aluno, vamos dizer, meu braço direito não tinha uma fisionomia desconhecida. E como ao passar do tempo todos acabavam falando de seus crimes, mesmo eu não desejando saber, afinal eu não estava ali para julgá-los, pois já tinham passado por um julgamento e estavam cumprindo a pena imputada pela Lei e cabe ao Estado ressocializá-los. Eu como cidadão tentava suprir a omissão desse Estado para com os meus alunos. Voltando ao meu "braço direito", ele falou-me que havia sido capturado através do programa Linha Direta da Rede Globo. Daí a minha recordação daquele rosto. A dedicação as aulas, o interesse em divulgar os meus textos de reflexão entre os outros detentos é algo muito gratificante de se lembrar. Sinto saudades dessa fase. Não chegamos a montar nenhuma peça teatral, pois as rebeliões cresciam assustadoramente e os intervalos entre uma aula e outra aumentavam cada vez mais. A direção mudou e o dia-a-dia do trabalho voluntário na comunidade de Rio das Pedras cresceu em tal proporção que acabei me afastando da Penitenciária Milton Dias Moreira. Suplico a Deus para que eu possa vir desenvolver novamente este trabalho em muitos outros lugares.
A minha prima Fátima que levou-me para a penitenciária faleceu de câncer aos 42 anos de idade. Estive visitando-a no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Desenganada pelos médicos, com um tempo de 72 horas de vida, em fase terminal ela me disse: "primo eu vou sair e voltar a fazer tudo que fazia". Oramos juntos e três dias depois ela faleceu. Que Deus abençoe o seu filho, Alvinho, de apenas 9 anos de idade.