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História do Lord Voldemort

por harrypotternoticias em 11/02/05 - 20h:29m

Capítulo 1
Prólogo

PRÓLOGO
(Quando esta história realmente começa, mil anos atrás)

“...Aterrorize-os com a simples menção do teu nome...”

Periferia de Londres, numa época passada

Suas mãos pareciam agora cobertas de escamas, encolhido na sombra mais escura da cela úmida, ele esperava e esperava. Não havia uma única entrada ali, o ar não se renovava. Ele estava completamente isolado do mundo exterior, não podia saber se do lado de fora era noite ou dia, se fazia sol ou chovia. Era também escuro, mas os olhos dele já haviam se acostumado, e ele sabia formas que os trouxas desconheciam de ver no escuro, aprendera isso ainda criança. Baixinho sibilou na língua que apenas ele conhecia, quem sabe uma serpente pudesse se deslizar até ali... elas sempre haviam sido servas fiéis. Do lado de fora, o guarda-cela esquivou-se, arrepiado. Ele riu.
Ele não sabia quanto tempo faltava para sua execução, olhou cheio de ódio os grilhões em seus pulsos magros, a marca da traição. Eles pagariam, todos eles pagariam, principalmente os trouxas. Súbito, um barulho fez com que ele levantasse a cabeça. Um brilho apareceu no fundo da cela, então, tomou a forma difusa de um homem. Um homem de cabelos longos e castanhos, e olhos de um intenso azul. Antes que o guarda-cela percebesse sua presença, foi posto inconsciente pelo invasor, que encarou o outro com os olhos cheios de pena. Foi neutralizando sua visão noturna, porque o invasor iluminara o recinto. Era típico dele, que não era acostumado com a escuridão. Eram diferentes e sempre opostos.
Durante um bom tempo, encararam-se em silêncio. O recém chegado tinha na cintura uma espada de prata encravada de rubis, usava vestes claras, e sobre estas, uma armadura de peito feita de metal brilhante, onde podia se divisar claramente a figura de um leão. O leão, a marca de Godric. O prisioneiro encarou-o altivamente e disse:
- O que vieste fazer aqui, Godric? Atirar-me na cara minha derrota?
- Não, Salazar... vim para levá-lo comigo.
- Levar-me contigo? Enlouqueceste? Queres também que destruam aquilo que a muito custo construímos? Minha presença por lá atrairia trouxas enfurecidos.
- Não. Eu, Rowena e Helga ocultamos o castelo, fizemos toda a sorte de encanto, e a magia do local nos ajudou. Nunca mais Hogwarts será vista pelos trouxas. Nem em mil anos, salvo se assim quiserem os mestres. Se fores comigo, estarás a salvo para sempre.
- E preso para sempre, Godric – disse Salazar com amargura. – Não. Se queres me ajudar, quando os trouxas e o traidor chegarem, me ajuda a matar a todos, e só então fugirei. Salazar Slytherin não é um covarde.
- Sabes muito bem que jamais farei isso... Uma vez, Salazar, uma única vez, escuta-me. A escola precisa ainda de ti, há coisas que ocultaste lá que são mistério para nós. Nós, eu , Rowena e Helga, apesar de tudo, queremo-lo de volta a teu lugar, que é junto a nós e aos alunos, ensinando, formando outros como nós. Os sucessores que deixaste não te chegam aos pés, Salazar. Apesar de todas as nossas brigas, eu consenti de boa vontade em estender-te a mão... e cospes nela, preferes morrer a aceitar nossas opiniões.
- Escuta-me tu – Salazar Slytherin ergueu-se do fundo da cela, e sua figura grande e ameaçadora avançou na direção de Godric, que mesmo alto, parecia pequeno e franzino diante dele. – Durante esses dez anos que estive fora de Hogwarts, eu soube o que era poder, eu soube o que era a glória, e agora, pela segunda vez, experimento o sabor da derrota. É o jogo, Godric, o jogo do poder. Podes me acusar de tudo, menos de jogar sujo. E considero uma tremenda ofensa tu vires aqui resgatar-me como se eu fosse uma pobre donzela que precisa ser salva.
- Salazar... porque simplesmente não esqueces? Eu esqueço o episódio dos Gárgulas, e tu esquece a mágoa.
- Esquecer? – Os olhos de Slytherin cintilaram vermelhos de ódio – eu jamais esqueço, nem relevo, nem perdôo... eu sou Salazar Slytherin, esqueceste? – ele sibilou, encarando Godric altivamente. Ele tinha grilhões nos pulsos, vestia apenas um grosso e imundo camisolão de tecido cru, mas sua figura de cabelos e barba negros e longos ainda remetia Godric à estampa admirável do bruxo que fora e ainda era, apesar dos poderes seguros pelos grilhões encantados que o traidor metera em seus pulsos. – Não quero o vosso perdão. Estou bem, e estarei melhor morto que escondido como um covarde atrás dos muros de Hogwarts. Essa é minha última palavra, e transmita-a a Helga e Rowena, com meus cumprimentos. – silenciosamente, ele voltou ao seu lugar no fundo da cela, e fechou os olhos, aguardando que Godric o deixasse em paz e desaparatasse.
- Se é o que dizes... – Godric virava-se para aparatar quando ouviu Salazar chamá-lo. Voltou-se encarando o eterno rival. – o que foi?
- E Rowena?
- Bela e triste, como sempre, Salazar.
- Diga a ela... não diga nada. Ela não precisa que digam que a amo.
Godric olhou para o bruxo sério. Sentou vontade de dizer algo, mas sabia que não havia mais nada a ser dito. Com um volteio de capa, desapareceu da vista do condenado.

Horas depois, Godric explicava a Helga e Rowena as palavras de Salazar. Helga então encarou o amigo. Era uma mulher loura e robusta, de faces rosadas, normalmente sorridente, mas àquela hora, séria e grave:
- Paciência, meu amigo... eu sempre duvidei que ele voltasse. Salazar prefere morrer a dizer a nós que estávamos certos e ele errado, viveu na ponta da espada, e por ela morrerá.
- Helga... não sabes o quanto lamento o fracasso de Godric – Rowena tinha entre os dedos o único objeto que tinha de Salazar, já gasto de tanto manipulá-lo: uma antiga pena de fênix da primeira varinha deste, a que se partira quando ele pela primeira vez, rompera o juramento dos quatro de jamais devotarem-se às artes negras. Ela testemunhara o fato, e guardara a prova. Depois disso, usara o dom que tinha, o Toque de Prometeu, que permitia antever o futuro tocando objetos ou pessoas, e com aquela pena, sempre soubera onde andara e o que fizera Salazar, seu amado Salazar. Ela suspirou antes de dizer: - Salazar não irá embora deste mundo sem levar aquele que o traiu e junto, os trouxas que o querem executar. Esta noite haverá pranto, no burgo de Londres.
Godric a encarou em silêncio. Há vinte e cinco anos, Rowena o preterira por Salazar, e desde então, poucas vezes ela a vira sorrir. Bela e triste, sempre assim ele lembrava-se de Rowena. Godric casara-se e tivera três filhos, e Rowena, ficara sozinha quando Salazar partira. Mas nunca demonstrara arrepender-se daquele amor que só lhe trouxera dor.

A cela se abriu, e o jovem bruxo aliado dos trouxas entrou nela, sem olhar para Salazar, não queria encará-lo. Seu nome era Severo, e até traí-lo, tinha sido a pessoa em quem Salazar mais confiara. Os trouxas temiam Salazar mais que tudo, pois já haviam perdido muitos em batalhas com o bruxo. Fora para eles uma benção quando aquele que se encontrava mais próximo dele dissera a eles que haviam um meio de acabar com sua tirania, com aquilo que repentinamente ele percebera que era errado. E exultaram quando Severo trouxe, agrilhoado e humilhado, o aterrorizante bruxo.
Talvez o maior erro de Salazar tivesse sido querer dominar o burgo que daria origem anos depois à cidade de Londres. Por causa dos anos de terror que ele impôs, nunca mais os bruxos seriam aceitos pelos trouxas. Por causa desse erro ele caíra, pois os olhos de Severo haviam se aberto justamente ao perceber a crueldade do homem que ele mais admirara em sua vida.
O caminho até o lugar onde ele seria executado era longo, íngreme. Severo escutava os apupos e vaias dos trouxas sério, evitando olhar o condenado. Ele sabia que os outros jamais chegariam perto, todos temiam Salazar Slytherin, e na verdade só iriam sentir-se bem quando ele estivesse bem morto. Chegaram ao patíbulo onde ele seria executado por Severo, o único que poderia matar um bruxo que sabia exatamente como escapar de forca, fogueira, machado ou qualquer método de execução dos trouxas, e um silêncio imenso dominou a todos. Severo encarou Salazar pela primeira vez um instante antes de lançar-lhe a maldição fatal. Salazar então sorriu e disse:
- Faça, Severo. Conclua a traição. Mate seu próprio pai. – com a alma estraçalhada, mas certo daquilo que fazia, Severo ergueu a varinha. Salazar murmurava palavras inaudíveis, os olhos presos à varinha que o filho segurava. Severo respirou fundo e disse:
- Avada Kedavra – Uma luz verde partiu da varinha que segurava e avançou pelo ar até Salazar, mas nesse exato instante, este ergueu as mãos agrilhoadas, com os olhos fechados e algo terrivelmente impressionante aconteceu. Os grilhões atraíram para si o feitiço, e este percorreu-os como uma corrente elétrica, e daí para o corpo de Salazar, como uma grande onda. Então, ampliando-se como uma explosão, avançou em todas as direções, matando tudo que encontrou por metros e metros e metros. Quando perdeu a força, mais de mil trouxas estavam mortos. A última coisa que Salazar Slytherin viu, foi o corpo de seu filho cair inerte, com uma expressão de terror estampada no rosto. Então ele mesmo caiu sobre o corpo dele, traído e vingado, o rosto contraído para sempre numa expressão de profunda dor.

Distante dali, uma lágrima rolou silenciosa pela face bela, porém envelhecida de Rowena Ravenclaw. Ela tinha nas mãos a pena de fênix de Salazar, e um anel de ouro que pertencera a Severo, o filho único e muito amado de ambos. Olhava da janela do castelo as negras águas do lago de Hogwarts, sentindo-se vazia por dentro. Ouviu às suas costas uma voz:
- Rowena...
- Sim, Godric. Ele se matou, e levou junto nosso único filho. Você está se perguntando como posso estar dizendo isso, se profetizei que daqui a muitos anos teu sangue e o dele hão de se unir, certo?
- Certo.
- Nunca te perguntaste o motivo da traição de Severo?
- Ele... não se rebelou contra o pai?
- Não foi simplesmente isso. Nesse momento, Godric, em um lugar distante daqui, uma mulher jovem caminha levando uma criança no ventre, e uma herança de seu pai. Essa mulher é uma trouxa, e esse filho é filho de um bruxo. Ela era amada por Severo.
- Então... ela espera um filho de Severo?
Não – Rowena virou-se para ele, com uma expressão que Godric jamais vira – o filho que ele espera é de Salazar, e ela foge de vergonha por ter traído seu amado com o próprio pai dele. E é deste bastardo, Godric, que vem a descendência que leva o sangue de Salazar.

Capítulo 2
O Outro Bastardo
Uma coisa Mary não entendia. O que significavam aquelas coisas que a amiga havia deixado para o filho. Se Mary não tivesse outras seis crianças para cuidar, teria ficado de boa vontade com Tom, o filho que Ursula deixara. Pobre Ursula, era triste que depois de ter amado tanto, morresse de forma tão infeliz, tão logo o menino nascera. Talvez a sua última tentativa desesperada de falar com Tom Riddle tivesse sido a causa de sua morte. Mary lembrava-se de ter passado pelo portão da grande casa e visto Ursula lá, gritando por Tom, pedindo que ele a escutasse... ela tinha medo suficiente do próprio marido para não tentar remover Ursula dali. Ela sabia o que o marido pensava da amiga, e sabia o que ele diria se a visse junto dela no portão da casa dos Riddle. Todos em Little Angletown temiam os Riddle.
Mary lembrava-se também do grande temporal que caiu no fim daquela tarde. Ursula ficara lá, gelada, ignorando o fato de estar nas últimas semanas de sua gravidez, gritando e gritando por Tom, que nunca veio até o portão. Ursula fora uma das mulheres mais lindas que Mary já conhecera, tinha encantos que ela, Mary, jamais sonhara em ter, com os longos cabelos de um negro azulado e os olhos de um verde luzidio, como duas grandes esmeraldas. Ela chegara à localidade alguns anos depois da grande guerra, quando todos viviam tempos muito difíceis. Ninguém estranhou uma moça nova e bonita chegando sozinha ao povoado, muitas pessoas haviam perdido parentes na guerra e ainda rumavam soltas por todos os lugares, ela podia ser uma destas sobreviventes. Não era de se admirar que o riquíssimo Tom Riddle houvesse se encantado por ela. Não era de se admirar também, que ele a abandonasse. O estranho fora o fato de por muitos meses ele ter virado as costas para os pais e vivido uma vida simples com Ursula. Parecia que ele iria mudar, o que espantava a todos.
Mas então algo aconteceu, porque uma noite todos no vilarejo acordaram com os gritos no pequeno bangalô onde eles moravam, uma briga que nunca podiam imaginar entre os dois, que sempre haviam parecido apaixonados. A barriga de Ursula já estava distendida pela gravidez avançada, e todos procuravam prender a respiração e aplicar-se em ouvir o que o casal discutia. A única coisa que entendiam eram os berros de Riddle de que ela o havia enganado, e as súplicas de Ursula que aquilo fora simplesmente porque ela o amava. Foi quando porta bateu com um estrondo, e daí em diante eles só ouviram-se os passos do homem se afastando e o choro abafado de Ursula, que varou a noite até a manhã seguinte.
Quando ressurgiu, Ursula parecia um cadáver. Mais de uma semana havia passado, e ela permanecera em silêncio dentro da casa. Então, saiu numa tarde sombria, ignorando as grossas nuvens que anunciavam no céu uma tempestade, e gritou à porta dos Riddle que o filho abandonado de Tom nasceria e teria o nome dele, quisesse ele ou não. A chuva abafava suas palavras, e qual não foi a surpresa de Mary quando ouviu alguém à porta e deu de cara com Ursula, tremendo de frio e molhada até os ossos, com olheiras negras encovando-lhe a antes tão bela face, febril e delirante, sentindo as dores do parto:
- S-só tenho você para m-me ajudar, M-mary – ela sussurrou, e mesmo contra a vontade do marido, Mary deixou-a entrar, e sozinha, trouxe ao mundo o filho único daquela que todos no povoado diziam ser a bruxa que enfeitiçara o jovem milionário. Era um menino forte e muito branco, com cabelos negros e espessos como os da mãe, mas que ao contrário de todos os recém nascidos que Mary já vira e de todos que veria depois, nascera com profundos olhos negros, em vez dos habituais olhos azuis acinzentados.
Ela estendeu o menino para que a amiga olhasse, e esta, com amoroso olhar febril, abraçou a criança, que chorava como qualquer recém nascido, dando a ele o seio para que ele tivesse pela primeira e última vez o leite de sua mãe. Conforme o pequeno se acalmava e caía no sono, Ursula disse as últimas palavras a Mary:
- Eu vou morrer, Mary... eu sei que vou morrer. – Mary queria dizer que ela iria sobreviver, mas sua garganta se trancou, e pareceu bem óbvio que não adiantaria mentir à amiga. Elas se encararam por um instante, antes de Ursula continuar, num sussurro rouco e urgente:
- Eu quero te pedir duas coisas! Em minha casa, sob minha cama, há uma pequena arca, nela há uma chave, uma lousa e um envelope... são minhas últimas palavras para o pequeno Tom...
- Pequeno Tom?
- Sim, meu filho... Esse é o nome dele, Tom como o pai, Servolo, como meu pai, e Riddle, para que ele não esqueça que ele tem uma família, embora o pai o renegue...
- Mas Ursula... como vou registrá-lo? Os Riddle jamais permitiriam que se registrasse um bastardo com o nome deles.
- Leve-o para longe... vá a um povoado vizinho chamado Old Campville e procure os Snapes... faça isso por mim, eles vão ajudá-la, diga a Rose Snape que eu morri. Provavelmente ela saberá o que fazer. Mas não dê a caixa a Rose Snape, ela não pode ver o conteúdo de forma alguma... guarde a arca, Mary, quando o pequeno Tom estiver para completar onze anos, entregue-a a ele, por favor. Não antes, não depois... – os olhos de Ursula encontraram os dela em súplica, e Mary não teve realmente como negar. Ursula morreu naquela noite, com o pequeno nos braços. No instante que a mãe morreu, o pequeno Tom deu um pequeno gemido e soluçou baixinho. Mary tirou-o dos braços da morta melancolicamente, e aninhando-o junto ao peito, pediu que por caridade o marido providenciasse para Ursula um enterro digno.
Dias depois, Mary, a contragosto do marido, embarcou numa carroça com o pequeno no colo, indo procurar os tais Snapes de Old Campville, que distava cerca de três quilômetros de Little Hangleton. Era uma gente muito estranha, a mulher por acaso também acabara de ter um filho. Ela quase não falou com Mary, mas o homem mandou que ela esperasse na estranha casa dos dois, onde um cheiro acre predominava e ela achou estranho, pois durante todo o tempo que esteve lá a mulher, mesmo com o menino no colo, parecia preocupada em mexer um caldeirão grande de cobre que estava no fogo, de onde evolava uma incômoda fumaça púpurea.
Algum tempo depois, o homem retornou, dizendo que registrara o menino com o nome de Riddle, o que ela nunca entendeu como acontecera, e que como eles não podiam ficar com a criança, pois a casa era pequena, ele conseguira lugar em um abrigo de meninos próximo. Com o coração apertado por deixar o pequeno Tom no orfanato, Mary prometeu que todos os anos arrumaria um tempo para visitá-lo.
- Nós também o visitaremos um dia– disse secamente Rose Snape.
E agora, Mary via que os anos haviam passado rápido, e o pequeno Tom estava para fazer onze anos, e era hora de levar a ele a arca que sua mãe deixara, com aqueles dois estranhos objetos, e a carta que ela, por respeito, jamais abrira.
Quando chegou ao Orfanato, o pequeno Tom já estava com a cara grudada na grade, como sempre acontecera desde que ele completara seu terceiro aniversário. O menino parecia saber sempre com antecedência a chegada dela, e era sempre encantador. Todas as vezes que tinha de voltar, ela sentia-se tristonha por não poder levá-lo. Agora era mais difícil chegar ao povoado, o seu marido gostava cada vez menos que ela fosse ver o pequeno. Ele sentia um certo asco pelo garoto, porque depois que a mãe deste morrera, corria um boato que ela fora abandonada por Riddle por ser uma bruxa, o que Mary achava ridículo, mas de qualquer jeito, sempre que ia visitá-lo, levava um de seus filhos, normalmente Ester, a menor, nascida um ano depois de Tom, no ano em que o seu filho mais velho morrera de difteria.
Enquanto eles brincavam, ela conversava com a responsável pelo orfanato, que dizia que Tom era um menino exemplarmente comportado, com o melhor desempenho do orfanato na escola do povoado, e tirando um ou outro incidente com os meninos da ralé da aldeia, que estudavam na mesma escola, ele jamais dera um pingo de aborrecimento, e jamais precisara ser castigado.
Mary estourava de orgulho, pois se sentia responsável por aquela criança. Ursula ficaria feliz se visse que o filho era bom aluno, e seria alguém na vida. O que ela não sabia, é que as palavras da responsável eram meias verdades. Era verdade que o pequeno Tom era o primeiro aluno, e normalmente não criavam confusão com ele. Mas se isso acontecia, era justamente por causa do tal incidente a que a responsável se referia.
Uma manhã, os meninos mais terríveis da aldeia, aqueles que todos temiam, haviam descoberto Tom. Eles costumavam escolher alguém para implicar, e ele fora o eleito. Tom era calado e normalmente não se aproximava muito nem mesmo dos próprios colegas do orfanato. Na verdade, eles tinham algum medo de Tom, porque ele não parecia normal. A noite, nos sonhos, muitas vezes murmurava em uma língua estranha, e desde muito pequeno, ao invés de pular e correr, preferia enfiar a cara em livros, o que o fazia extremamente simpático à bibliotecária do colégio. Como qualquer criança que conquista a simpatia dos adultos, ele era considerado por todos os outros uma aberração.
Jason, o líder dos meninos da aldeia, parecia não ligar para o fato covarde de ser maior, porque era repetente, e bem mais corpulento que o pequeno Tom. Cismara que iria bater no garoto, e seus colegas achavam aquilo divertido, era o que fazia sempre, com qualquer garoto com que cismasse. E nenhum menino do orfanato se aproximou para defender o pequeno e franzino Tom quando o grandalhão e seus amigos o cercaram. O menino apenas olhou para cima, com a mesma expressão neutra que olhava para qualquer um.
- Dava para me deixar passar? – ele disse, encarando o grandalhão.
- Não... hoje a gente quer brincar com você, Tom.
- Eu não quero brincar com você... – Tom não terminou a frase, pois foi pego pela lapela da camisa da escola e erguido no ar, diante das risadas dos outros garotos, e do olhar indiferente dos companheiros de orfanato.
- Vamos brincar com o Tom, Vamos brincar com o Tom – dizia numa alegria assustadora o garoto, enquanto sacudia o menino, que inutilmente tentava se livrar das mãozonas enormes do grandalhão. Foi quando Jason parou de rir, subitamente. Tom olhava-o de forma estranha, com raiva, quando ele sentiu como se uma mão invisível apertasse a sua garganta e o aperto aumentava. Sem poder respirar, largou o pequeno Tom, que caiu no chão mas ergueu-se rapidamente, olhando Jason desesperado ser socorrido pelos companheiros perplexos. Jason olhava para Tom apavorado... só ele notou que Tom ria. Um sorriso mau, frio. O garoto não acreditava que estivesse sufocando por causa daquele pirralho... ele nem encostara na sua garganta. Então, Tom virou as costas para o bando e nesse momento, o garoto sentiu que o aperto cessava. Desse dia em diante, ninguém mais mexeu com Tom Riddle na escola. E é claro que quando isso chegou aos ouvidos da responsável pelo orfanato, ninguém achou que o menino sufocara porque Tom fizera algo. Fora apenas coincidência, e Tom dera sorte.

Tom adorava as visitas de Mary e Ester. Ester era a única criança com quem brincava, a única que não o olhava como se ele fosse algo a ser levado para longe, uma aberração. E Mary era boa para ele. Mas havia algo dentro dele que não era fácil de explicar, nem de entender, e sequer Tom sabia do que se tratava. Ele de algum jeito, sabia que era diferente, e era algo que ele tinha certeza: viera de sua mãe. Desde muito pequeno, ele queria saber de onde vinha essa estranheza, e fora por isso que se tornara um leitor voraz: queria entender porque ele conseguia fazer coisas que os outros não conseguiam.
Descobrira que podia às vezes, se se concentrasse ver durante a noite como se estivesse claro. Mais de uma vez, casualmente, na biblioteca um livro viera para sua mão apenas porque ele quisera. E havia os sonhos, sonhos onde ele conseguia comandar um animal enorme de forma indistinta, um monstro que o obedecia. E nem mesmo ele conseguia saber que língua era aquela que ele falava nesses sonhos. Mas gostava da sensação que experimentava durante os sonhos: poder, o poder de comandar uma criatura com força ilimitada. Pareceriam a qualquer adulto complexos demais os sonhos e os desejos daquele menino de menos de onze anos.
Quando Mary surgiu no pátio, ele e Ester brincavam correndo em volta de uma árvore, a verdade era que Ester era bem mais rápida que ele, e sempre o pegava e ele raramente conseguia alcançar a menina. Mary aproximou-se e olhou alegre para o menino. Estava se tornando bonito, em breve, poderia trabalhar e se livrar do estigma de um orfanato, bom aluno, primeiro na escola, leitor voraz apesar da pouca idade... que rapaz bem sucedido não haveria de tornar-se aos dezoito, dezenove anos. Ela chamou as duas crianças se se sentou numa mesa de pedra entre elas. Tudo no orfanato era frio e triste, e mesmo o pátio onde as crianças brincavam não era belo. Ela sorriu para Tom e começou:
- Meu filho... eu te trouxe uma coisa.
- Um presente? – Perguntou o garoto ansioso, em toda sua vida, mesmo de Mary jamais ganhara um presente, fora a muda de roupa do orfanato, que eles ganhavam no Natal. Mary era pobre demais para dar-lhe qualquer presente.
- Sim... mas não sou eu quem te dou o presente. Tua mãe – a mulher reparou na sombra ligeira que apareceu no rosto do menino – ela me mandou entregar-lhe esse presente... – ela pegou a caixa que trouxera e entregou-lhe. Tom começou a abri-la quando deu de cara com o envelope, escrito com a letra de sua mãe, caprichosa e floreada, onde se lia apenas: “Tom”. Ele fez menção de abrir o envelope mas Mary disse:
- Não... deixe para abri-lo quando estivermos longe... sua mãe me confiou isso há muitos anos e eu jamais abri... acredito que o que quer que ela tivesse a dizer... fosse só para você.
Tom encarou a mulher e guardou a carta, mas continuou a examinar os objetos. Uma chave, que fora o fato de ser dourada não parecia ter nada demais, e uma lousa de escrever feita de ardósia preta, do tamanho de uma folha de caderno, que parecia antiga e lascada nas beiradas, com vários desenhos na moldura: serpentes, raios, estrelas, um corvo... um homem alto de cabelos e barbas negras num canto, do outro uma mulher de cabelos negros, que parecia olhar para o homem. E no meio, uma única palavra, de significado oculto para ele: Slytherin. Preso à Lousa, havia um bloco de giz tosco e irregular.
- O que será isso, Mary?
- Há anos me pergunto isso, meu filho... creio que um objeto de família, de escola, provavelmente. Deve estar na tua família há muitos anos.
- Vou guardá-lo, então – disse o menino resoluto e satisfeito.
A tarde avançou agradável, Mary trouxera um farnel de sanduíches que consumiram num passeio pelo campo (se fosse qualquer dos outros meninos do orfanato, jamais a diretora permitiria, mas Tom era considerado exemplar, todos sabiam que era bem comportado). As crianças correram pela relva e Mary encostou-se sob uma árvore frondosa, feliz. Viu Tom perseguindo inutilmente Ester e riu. Viu-se de repente devaneado sobre como Tom, tão inteligente e provavelmente no futuro um rapaz bem sucedido, seria um ótimo marido para sua Ester, sua única menina. Era uma tolice, ela pensava, mas o pensamento lhe fazia bem. Seu peito arfou, ela ultimamente às vezes sentia isso, uma incômoda falta de ar. Recostou-se e sorriu. O sol descia rumo ao horizonte e as crianças estavam bem, era bom que fosse assim, quem sabe isso não faria Ursula feliz, onde ela estivesse?
Ester e Tom voltaram até ela, e recostaram a cabeça no seu colo. Ela sentiu-se feliz como nunca. Tom sorria para ela. Não parecia nestes momentos uma criança bastarda, mas alguém para ser amado como um filho. Repentinamente, as crianças saíram correndo e ela sorriu novamente. Ela não sabia que aquela era a última visita que faria ao pequeno Tom. Ela não sabia que ele jamais seria o que ela imaginava. Ela não sabia que o mal que haveria de matá-la no inverno seguinte destruiria todas as chances de Tom Servolo Riddle ser outra coisa senão o mais temido Lord das Trevas que os bruxos haveriam de conhecer.

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Logo depois que Mary e Ester partiram, Tom pegou a caixa e examinou atentamente. Era a única coisa que teria de sua mãe, afora a imagem que fizera pelas descrições que Mary fizera dela. Sentou-se em sua cama, no dormitório do orfanato, e então deu com os olhos atentos de outro menino. Não queria que ninguém o visse lendo a carta que sua mãe mandara para ele... o recado de sua mãe. Correu abraçado à caixa pelos corredores do orfanato, àquela hora silenciosos porque estava quase na hora do jantar e todas as crianças estavam próximas ao refeitório. Ele correu até um lugar onde costumava trancar-se à noite para ler os livros que trazia da biblioteca do colégio, e onde a escuridão nada significava, porque ele tinha a capacidade de enxergar no escuro. Sentou-se no vão do armário, que cheirava fortemente a mofo e traça, e fechou a porta.
Assim que quebrou o lacre vermelho que fechava a carta, seu coração disparou, pois de dentro dele caiu uma fotografia. Fotografias eram algo caro e incomum. Poucas vezes ele vira alguma, e até hoje só aparecera em uma única tirada no colégio, com a Turma inteira. E logo viu que aquela fotografia era especial, pois a mulher que estava nela se mexia. Dançava. Ele nunca ouvira falar de fotografias assim. Virou-a do outro lado e viu uma dedicatória:
“Tom, meu filho, não te espantes. Esta sou eu, tua mãe, aos dezoito anos. Esta fotografia é a única que tenho, espero que a guarde como um tesouro. Leia agora a carta, para descobrir a que povo pertences.”

Seu coração bateu descompassado... a resposta, a resposta do porque ele era diferente, do porque tinha sonhos estranhos... sua mãe ia dar-lhe a resposta que jamais encontrara. Abriu nervosamente a carta, escrita num estranho papel, como jamais vira. A letra floreada de sua mãe parecia dançar à sua frente, como sua mãe dançava na fotografia. Ele não conseguia ler. Fechou os olhos e tornou a abri-los. Lá estava, a carta, tudo que restava de sua mãe:

“Meu filho”,
Teu pai nos abandonou esta noite... Ainda nem nasceste, e já és como eu, um abandonado.
Eu gostaria de poder dizer-te isso tudo pessoalmente, mas nos últimos tempos eu me mantive viva apenas para que vivesses, porque desde que teu pai nos deixou, eu morri por dentro. Talvez te perguntes porque isso aconteceu... seu pai me amou, seu pai nos amou, até o dia que soube o que eu era... o que nós somos.
Somos bruxos, filho. Tanto eu, como, tenho certeza, tu. Não somos gente comum, e a essa altura da vida, já deves ter percebido isso. Com certeza, podes fazer coisas que garotos de tua idade não podem, deves querer saber de onde vem essa diferença, deves desconfiar que tenha vindo de mim... pois veio, filho, sou bruxa, e tenho orgulho disso. Até hoje eu era a última bruxa de uma linhagem gloriosa, a descendente única do maior bruxo que o mundo já viu.
Nosso ancestral se chamava Salazar Slytherin, e em breve entenderás a importância dele, quando ingressares no nosso mundo. Mas mantêm segredo disso, filho, pois verás cedo cedo que ser um Slytherin hoje é ser um maldito. A lousa que te dei, ela há de te ensinar o que é ser um Slytherin, mas usa-a em segredo, não deixa nenhum bruxo deitar os olhos nela, para tua segurança. Descobre o segredo da lousa, filho, e todos os segredos do mundo bruxo podem estar ao teu alcance, como estiveram ao alcance de muitos que vieram antes de nós.
Confiei esta arca a Mary porque sabia que ela te entregaria, mas seus tutores no mundo bruxo hão de ser os Snapes. Se não dei essa arca a eles foi porque nossa família é solitária e confia desconfiando de outros bruxos. Em breve duas coisas hão de acontecer na tua vida, provavelmente a primeira delas vai ser a chegada de uma coruja.
As corujas são as mensageiras de nosso povo. Uma vai te levar uma carta com o pedido de matrícula em Hogwarts, a escola dos bruxos. Ela vai falar de uma lista de material, responde-a sem demora e aceita a matrícula, não te preocupes com o material de escola, nem como vais chegar até ela... confia apenas em tua mãe.
Os Snapes vão te procurar logo depois, Rose e Theobald. Eles vão te levar para comprar o material, e não te preocupas com isso. A chave que te dei acessa um cofre no banco dos bruxos, lá não há muito dinheiro bruxo, apenas o suficiente para que termines teus estudos, são todas as economias que pude juntar e guardar para que não sofras. Talvez tenhas que algumas vezes usar material de segunda mão, perdoa tua mãe por isso, por favor. Não sei se estás em orfanato, ou com pais substitutos, não viverei para saber esse teu destino, mas seja qual for, deixa que os Snapes expliquem o seu destino, e nunca digas que és um bruxo àqueles que tomam conta de ti, se são trouxas (não bruxos).
Meu filho... a última coisa que te peço, é que um dia procure teu pai, quando fores um bruxo de verdade, e mostre a ele o grande filho que ele perdeu... deves isso à minha memória. Morri para que vivesses, mostra isso a teu pai, mostra o ódio de tua mãe, àquele que a rejeitou por não aceitá-la diferente. Vingue-me. Vingue-nos.

Tua mãe,
Ursula S. Grimoire

O menino leu e releu a carta várias vezes. E quando leu pela última, já muito consciente daquilo que era, com o corpo todo latejando do choque da informação, já tinha mais forte que tudo a semente pequenina do ódio. Seu pai. Por isso que Mary jamais falara dele. Um dia. Um dia ele vingaria sua mãe. Um dia ele teria vingança.
Vagarosamente, destrancou a porta do armário e saiu pé ante pé. O orfanato estava mergulhado num profundo silêncio. Todos dormiam, ninguém parecia ter notado sua ausência. Silenciosamente, ele foi até sua cama e guardou a pequena arca, antes de se deitar. Cobriu-se e ficou de olhos abertos no escuro, incapaz de dormir. Agora era esperar. Esperar pela coruja.

Capítulo 3
Os Snapes
CAPÍTULO 2- OS SNAPES

Rose Snape jogou o xale escuro sobre os ombros, aborrecida. Era uma mulher de pouco mais de trinta anos, trinta e cinco se muito, mas extremamente envelhecida. Vestia-se sempre de preto, e sua magreza aliada aos traços secos do rosto nada bonito, emoldurado por um cabelo grisalho desde seus vinte e poucos anos, conferia-lhe um ar de bruxa de contos de fada, reconhecível até mesmo por um trouxa. Jamais fora uma pessoa alegre, mas depois da morte do marido, em 1928, por uma galopante, tornara-se simplesmente incapaz de sorrir.
Guerra, gripe, pobreza, doenças... pragas que ela atribuía unicamente aos trouxas. Ela era exímia em poções, mas nenhuma de suas poções salvara a filha mais velha e o marido da tuberculose galopante. Doenças de trouxas, fruto da burrice dos trouxas. Ela ficara só com Demian, seu filho mais jovem, fraco, enfermiço, muito parecido com o marido, sem a força que ela tinha sem aparentar, oculta na sua figura seca como um galho.
E agora, que ele ia entrar para escola, depois do imenso sacrifício que ela fizera, depois de se mudar para Londres e trabalhar de sol a sol no Beco Diagonal como atendente da loja de Mademoiselle Malkin, ela ainda tinha que recolher o pequeno bastardinho que Ursula fizera o favor de deixar no mundo para que os outros criassem.
Se Ursula não a tivesse ajudado a conquistar Theobald Snape, por meio de poção de amor que elas haviam confeccionado juntas e que o fizera acreditar que Rose era tão bela quanto Ursula até o dia de sua morte, ela jamais iria àquele povoado para pegar o bastardinho. Ursula. Irresponsável, imprudente, idiota... quantas vezes ela lhe advertira que um bruxo pobre era mil vezes melhor que um trouxa rico, mas a pateta não a escutara... o resultado agora era que ela ia ter que viajar pela lareira até a casa de uma bruxa naquele povoado onde ambas haviam nascido e caminhar até o orfanato para pegar seu pupilo. Um menino provavelmente medíocre para a feitiçaria, contaminado pelo sangue trouxa do pai.
Rose odiava os trouxas mais que qualquer coisa no mundo. Fizera um imenso sacrifício para que seu filho fosse alfabetizado por uma bruxa, longe do convívio de crianças trouxas, ela não o queria tolerando sangues ruins. Bom seria se aparecesse um bruxo que promovesse uma separação radical, que expulsasse todos os trouxas dos domínios bruxos para sempre. Mas bruxos assim eram raros, o último morrera mais de cento e cinqüenta anos antes, um dos muitos descendentes de Salazar Slytherin que de anos em anos se revelava para levar morte aos trouxas.
- Venha, Demian – ela disse secamente, e o menino levantou-se de sua cadeira assustado. – vamos, pegue um pouco de pó de flu, precisamos pegar seu companheiro de escola.
Demian estava exultante. Nunca tivera amigos de verdade, agora teria um, filho de uma amiga de sua mãe, que haveria de ser também seu amigo. Ele fora criado entre trouxas, e se Demian estava certo, ensinaria a ele sobre os trouxas, como Demian o ensinaria sobre os bruxos. Atravessou a lareira, e do outro lado, viu uma mulher meio velha, que o olhou com paciência. Sua mãe saiu atrás dele e agradeceu por ter deixado que ela usasse a lareira polidamente, depois pegou sua mão e o conduziu pela rua, firmemente. Ele finalmente teria um amigo.

A coruja chegara numa quarta feira, Tom podia lembrar-se. Ele ficava o dia todo olhando para o céu, esperançoso, até que naquele dia, no começo de suas férias, ele viu o pontinho marrom no céu aproximando-se. A coruja pousou na mesa de pedra do pátio do orfanato, e ele olhou em volta, não achava bom que a vissem ali. Ele passou rapidamente o olhar pela carta, leu brevemente a lista de material e seus olhos fixaram-se no pequeno escudo com animais, onde se lia “Hogwarts” e um lema em latim. Satisfeito, ele sacou do bolso um toco de lápis e preencheu de qualquer forma, rapidamente, o formulário de matrícula, atando-o à perna da coruja, que saiu voando e sumiu no céu. O coração dele saltava no peito. Era verdade. Ele era um bruxo. Agora era esperar os tais Snapes.
Eles chegaram pouco antes de uma semana do tempo previsto para ele entrar em aula, e ele estava nervoso, achando que não viriam, já se conformando com mais um ano naquela escola aborrecida, quando uma manhã uma das inspetoras procurou-o, com uma cara intrigada:
- Tom, meu filho, visita para você.
Ele desceu as escadas do dormitório ansioso, iria conhecer os primeiros bruxos na sua vida. Gente da sua gente, como ele e sua mãe. Entrou na ante-sala da diretora do orfanato e bateu à porta, entrando assim que esta autorizou. Ele viu duas cadeiras na frente da mesa, e a as pessoas sentadas nelas viraram-se quando ele entrou.
Foi um pouco decepcionante. A mulher não era sombria e com ar de poderosa como ele imaginara, mas magra e seca, com uma cara bastante mal humorada. E não trouxera o marido, mas um menino com uma cara ansiosa que o olhava rindo. Tom ficou sério e esperou que eles tomassem a iniciativa, como fora orientado pela sua mãe. A mulher torceu o rosto no que parecia bastante com um sorriso e ergueu-se vindo ao encontro de Tom:
- A última vez que eu o vi era um bebezinho... – disse com voz untuosa – como parece com a mãe, ainda bem, exceto pelos olhos... – ela pareceu um pouco descontente – nisso deve ter puxado ao pai.
- Essa senhora disse que é sua tutora legal, Tom – disse a diretora, ainda não parecendo acreditar muito – você sabe algo sobre isso? – Tom, mudo, apenas balançou a cabeça. A diretora continuou – sua mãe deixou um documento assinado... veja – ela estendeu um papel para Tom, que olhou e assentiu, finalmente abrindo a boca:
- Minha mãe me deixou uma carta sobre isso... tia Mary me entregou – ele disse, parecendo tímido, apenas para que a diretora não desconfiasse da bruxa magricela.
- Aaaaah... – disse a diretora – na carta sua mãe falava de uma escola nova? – Tom apenas balançou a cabeça. A diretora refletiu por um instante e olhou para a mulher: - Essa escola... a senhora conhece?
- Perfeitamente – disse Rose Snape, um tanto secamente – eu e a mãe dele fomos colegas lá. Ela queria que o filho obtivesse a mesma educação. Matriculou-o antes mesmo de nascer como é costume entre – ela hesitou e a outra a olhou intrigada – entre as pessoas da família dela. Não quero seqüestrar o menino, apenas cumprir a promessa que fiz à mãe dele no leito de morte. Ele estará de volta nas férias...
A diretora encarou desconfiada Rose Snape, que fazia um esforço sobre humano para não fazer um feitiço de convencimento, porque a droga da trouxa desconfiava justamente dela? Mas não foi necessário, depois de algum tempo, a mulher verificou o registro de instituições de ensino da Grã Bretanha e viu o nome de Hogwarts, a tal escola onde o menino iria estudar. Não dizia o endereço ou a localização exata, mas havia algo surpreendente:
- Essa escola é uma das mais antigas da Grã Bretanha – ela comentou – seu registro é um dos mais antigos... como nunca ouvi falar nela?
- É tradicional, porém não é muito conhecida – replicou Rose Snape entre dentes.
- Bem... a senhora me desculpe. Vai levar Tom para Londres, é isso? Comprar o material... mas onde Tom vai arrumar dinheiro? Ele aqui estuda com o Material do orfanato...
- Minha mãe deixou algo num banco – interrompeu Tom – ela me disse na carta.
A diretora olhou-o incrédulo e votou seu olhar para Rose.
- Acho que deveria saber se a senhora tem o correspondente à quantia para pagar o trem para Londres...
- Já temos transporte – disse a outra, impaciente.
Durante todo o diálogo, Tom encarara o menino magro que o olhava da cadeira. Sorriu. Se ele também fosse ao colégio, podia ser uma companhia valiosa, que ia explicar como era ser bruxo, filho de bruxos. Quando eles se dirigiram ao dormitório, a mulher ia calada, mas o menino começou a puxar assunto com ele:
- Também vou a Hogwarts... – ele disse – vamos ser do mesmo ano, como sua mãe e minha mãe... será que vamos ficar na mesma casa?
- Casa? – perguntou Tom intrigado
- Quieto, Demian – disse a mãe.
Em pouco tempo, ela arrumou agilmente as coisas que Tom precisaria, descartando outras, como uma criada eficiente.
- Essa calça curta... não vai querer usá-la em Hogwarts – ela disse – não combina com o uniforme.
- Mas... eu não tenho muitas roupas.
- Compraremos algumas, o que não falta é artigo de segunda mão no Beco Diagonal, coisas apropriadas... e essa caixa – ela estendeu as mãos ossudas para a caixa que Tom recebera da mãe e ele arrebatou-a, encarando a adulta que ficou surpresa
- Não – ele disse – essa caixa vai comigo, e ninguém pega nela... foi de minha mãe.
Rose assentiu calada e olhou o garoto... bem filho de Ursula, o mesmo rosto bonito, o mesmo queixo insolente... a mesma autoridade nas palavras, que a antiga colega tinha. Pois bem, o temperamento em nada ajudara Ursula. Ela lucrava mais deixando o menino em paz. Ele seria bom, ela pressentiu, bom em tudo que fizesse, muito melhor que seu filho, que nem parecia filho dela, tão fraco e medroso era. Continuou a arrumar as coisas dele em silêncio, e seguiu com ele em silêncio até a casa da bruxa que lhe emprestara a lareira para a viagem. Explicou-lhe brevemente o uso do pó de flu, e ele pareceu realmente encantado com aquilo, o que não era de se espantar vindo de alguém criado no meios dos trouxas. O filho dela demonstrou-lhe o uso e ele riu quando o menino desapareceu.
- Sua vez, Tom. – ele riu de forma meio cínica. Parecia que pressentia que ela achava que ele ia ter medo. Quase toda criança parecia ter medo de usar flu pela primeira vez. Ele jogou o pó na lareira e disse confiante e sem medo:
- Beco Diagonal – desapareceu dentro da lareira com o mesmo sorriso. Rose teve um sentimento adverso. No fundo não apreciara muito o filho da falecida amiga.
- Até breve, Lucy – ela disse para a mulher da casa e desapareceu ela mesma lareira adentro.

Demian estava ansioso para conquistar a confiança de Tom, por isso falava sem parar. Quando este saiu pela ladeira de sua casa, ele ficou olhando-o com uma reverência silenciosa, como se o menino tivesse algo para dizer-lhe de especial. Aquilo incomodava um pouco Tom. Ele disse:
- Interessante, isso.
- Pó de flu?
- É – disse com ar entediado – é sempre assim que se viaja?
- Na verdade não. Tem outros jeitos... – nesse momento, a mãe do menino saiu da lareira e disse:
- Vamos, Tom, temos muito a fazer... sua mãe te deixou uma chave de Gringotes?
O menino anuiu em silêncio, ela podia ter sido amiga de sua mãe, mas ele não gostava nadinha do jeito de Rose Snape. Ela levou as duas crianças para a rua, os Snapes moravam em pleno Beco Diagonal, num lugar que lembrava um sótão, em cima de uma loja de doces. Eram gente muito pobre, Tom podia perceber. Ele começou a achar tudo diferente e impressionante, o mais longe que tivera ido na vida fora a uma outra cidade em um piquenique do orfanato, quando tinha oito anos.
- Aqui é Londres? – ele perguntou ao menino.
- É. Mas é a Londres dos bruxos, aqui você não vai ver nenhum trouxa. Pararam em frente a uma construção alta.
- Aqui é o Gringotes, Tom... vamos ver o que sua mãe deixou no seu cofre.
Entraram no banco, e foram levados por duendes (é, são duendes sim – disse Demian feliz por ver o colega impressionado) até o cofre da mãe de Tom. Não era um cofre muito impressionante, logo nos túneis mais altos, onde ficavam os menores, quase nichos. O duende abriu o cofre com a chave de Tom e ele olhou dentro. Havia algumas moedas, que Rose Snape olhou por cima do ombro. Ela disse que deveriam contar, para racionar quanto ele poderia gastar por ano. Depois de explicar rapidamente ao menino como funcionava o dinheiro bruxo, sob o olhar reprovador do Duende que não pretendia perder tempo com clientes desinformados, Rose Snape contou eficientemente o dinheiro e disse:
- Quinze Galeões, quarenta sicles e vinte e seis nuques, é o que você vai poder gastar por ano. Economize, porque não é nenhuma fábula, menino.
Eles saíram e ela o levou pelo Beco Diagonal, sempre impressionado, cumprindo todo o roteiro de compras. Ela lhe explicou que conseguiria desconto nas vestes, o que o livraria de usar roupas de segunda mão, ela trabalhava na loja, não? Os livros do primeiro ano não eram tão caros, mas ela comprou para as duas crianças livros usados, que haviam pertencido a ex-estudantes. Ele olhou insatisfeito para a capa meio gasta de seu livro de poções.
- Não reclame – disse a mulher, quase lendo o seu pensamento. – economizamos em livros por consideração ao dinheiro de tua mãe... ela não o ganhou de forma fácil. Agora só faltam as varinhas.
- Mãe – disse Demian – não vamos ter bichos?
- Nem Tom nem nós temos dinheiro para isso.
- É uma pena. Adoraria ter uma coruja.
- Podemos os dois dividir uma coruja? – perguntou Tom para a mulher. Ela olhou-o de forma diferente.
- Você e Demian não brigariam?
- Não.
- Então dá para comprar uma, que não seja muito vistosa – ela disse, entrando na loja com os meninos. O atendente mostrava a grande variedade de corujas para Tom e Demian. Repentinamente Tom parou. Algo chamou sua atenção, um sussurro, ele podia sentir, vindo do canto da loja. Sem que o vendedor ou Rose e Demian percebesse, ele foi até lá. O som saía de um ovo visível sob algo enroscado numa caixa de vidro com furos. Era um balbucio ininteligível. Subitamente, algo na gaiola estranha que continha o ovo se mexeu. Tom levou um susto quando viu uma cobra negra abrir os olhos e erguer a cabeça, e ele podia jurar que ela tinha dito:
- Um que fala nossa língua.
O atendente veio correndo e o puxou dali.
- Meu filho, cuidado... essa é uma mamba negra, nós a mantemos aqui porque alguns bruxos a compram... mas alguém da sua idade não ia querer uma dessa.
Tom afastou-se intrigado, olhando a cobra, que tornou a baixar a cabeça, com os olhos fixos nele. Não foi o único que percebeu o interessa da cobra. Rose passou a olhar de um para o outro discretamente, até o momento em que saíram da loja com uma coruja parda e pequena. Não esqueceria esse incidente. Rumaram para a tradicional Olivaras.
O Sr. Olivaras pai instruía o jovem Olivaras filho, um rapaz magro de dezenove anos, formado Hogwarts há dois anos. O rapaz já confeccionava varinhas magistralmente, aprendera ainda menino o ofício com o pai, mas só agora passava ao balcão para atender os clientes. Quando a sineta tocou, eles sorriram em par jovialmente para Rose Snape e os meninos. Olivaras pai disse:
- Rose... parece que foi ontem que vendi tua primeira varinha, lembra? – Tom viu o primeiro sorriso sincero aparecer no rosto da Srª Snape. – Corda de Coração de Dragão, 27 centímetros, bem flexível, corpo de bétula... e o que temos aqui? Seu filho?
- É, Demian meu filho único...o outro é de Ursula – o homem teve um lampejo.
- Ah, sim sua grande amiga... ela...
- Morreu – disse o menino, que olhava para o homem, sério .
- Ah, pequeno, sinto muito... – o menino não disse nada. Olivaras filho achou melhor adiantar-se e deixar que o pai atendesse o outro menino. Procurando ser agradável, trouxe várias varinhas para o menino experimentar. Nada aconteceu. Até que ele trouxe uma varinha comprida e pouco flexível, que passou ao menino.
Ele a agitou no ar com uma cara displicente e uma trilha de faíscas esverdeadas se desprendeu dela. O rapaz sorriu.
- Pai... encontramos comprador para uma das fênix perdidas...
- O pai olhou com interesse. Aquelas duas varinhas na sua opinião, tinham sido as melhores que o filho confeccionara, ainda aos doze anos, assim que aprendera o ofício, em suas primeira férias de Hogwarts. Temperamentais, pareciam ter vontade própria... há muito tempo gostaria de vender uma delas, mas aquelas duas varinhas eram estranhas... pareciam ter uma ambição própria. O rapaz olhou para o pai e sorriu:
- Quanto tempo será que vamos levar para desencalhar a outra? Menino, você deve ser especial... essa varinha não é para qualquer um.
“E eu não sou qualquer um” – pensou Tom, olhando feliz para o artefato. Agitou-a novamente no ar e sorriu. Era divertido ser bruxo. Ele achava que ia gostar.
Quando estavam com todo material comprado, voltaram ao sobrado e Rose deu aos meninos o que comer, observando o filho de Ursula com mais atenção. Ela se enganara... ele não seria um imprestável para feitiçaria, se sua intuição estava certa, era melhor incentivar a amizade entre ele e Demian, que ela podia jurar que seria um bruxo no máximo mediano, como fora Theobald. Perto de Tom, Demian poderia sempre se dar bem, o garoto era inteligente e provavelmente talentoso. Fora bom ter cumprido a promessa, e levá-lo para casa uma semana antes de embarcarem para a escola. Fora excelente.

À noite, Tom e Demian conversavam, deitados próximos, Tom numa cama de armar que Rose conjurara. Trocavam idéias sobre vida, e Tom soube que Demian era quase tão recluso quanto ele fora no orfanato, e poucas vezes saíra do Beco Diagonal, mas sabia demais sobre vida bruxa, costumes, tudo que ele ainda não dominava, mas em breve não seria segredo para ele. Quando o menino adormeceu, Tom virou de lado, olhando o céu intensamente estrelado do lado de fora. Ele sabia que não era qualquer um... seria grande, Olivaras dissera isso. Seria muito grande, quem sabe o maior de todos? Com esses pensamentos estranhos para alguém tão jovem, cheio dessa ambição juvenil, adormeceu.
Lá fora Londres dormia. Tom sorriu no sono. Em algum lugar uma voz sussurrante que apenas ele entenderia, silvou:
- Um que fala nossa língua... anda sobre dois pés, mas é como um de nós.

Capítulo 4
Medo de Voar
Tom concluiu rapidamente que, tirando o fato de ali se estudar magia, não havia muita diferença entre aquela escola e uma escola trouxa. Logo, se fora sempre excelente aluno para matemática, inglês e história, não seria diferente em Astronomia, história da magia, transfiguração, etc. Logo logo compreendeu também que Demian não só parecia, era efetivamente bem menos inteligente que ele, se bem que não fazia dele um tolo, para algumas coisas ele era bem esperto.
Mas havia uma matéria em que Demian sem dúvida nenhuma sempre superaria Tom. Uma matéria que não dependia de inteligência, mas sim de habilidade, o que ele descobriu logo na primeira aula: vôo.
Não que Tom fosse um garoto medroso. Mas ele simplesmente não suportava altura, a primeira aula de vôo da turma foi com a Grifnória, e ele viu o jovem Caius, que ele conhecera no primeiro dia, conversando com outros meninos da Grifnória sobre vôo e quadribol:
- Não, não é difícil, meus irmãos voam muito bem, tanto que um deles é batedor no time da escola, eu mesmo voei nas férias na vassoura dele... vocês não tem idéia do que é voar numa dessas novas vassouras de corrida, não tem nada a ver com aquelas coisas que a gente vê, que não tinham aerodinâmica nenhuma... e esses cabos polidos dão total segurança, cerdas regulares também foram um achado... imagino como vão ser as vassouras daqui a alguns... olá, Tom... preparado?
- Mais ou menos – ele disse, sabendo que provavelmente sua pele naquele momento estaria ligeiramente esverdeada. Demian por outro lado parecia no melhor dos mundos, conversando animadamente com Cornélio Fudge:
- Sim, eu nunca voei, sabe, meus pais nunca tiveram dinheiro pra me comprar uma vassoura, mas é o que eu mais quero fazer... e você, Tom?
- Eu... hã... não sei, nunca voei mesmo...
E todos os meninos e meninas pareciam excitados e ansiosos por voar, menos ele. Quando a professora, Madame Hansel, uma mulher estranhamente gorda que ele simplesmente não conseguia imaginar voando numa vassoura apareceu, teve uma vontade de pedir dispensa imediatamente, mas sabia que não podia. Só percebeu quando estavam perfilados às vassouras o quanto tremia. Não queria voar, não queria tirar seus pés do chão, onde eles estavam tão bem. A aula foi prosseguindo, até que chegou o momento em que todos deveriam dar seu primeiro vôo.
Tom jamais diria que estava com medo. Nem em mil anos. Se ele tinha medo, teria que superá-lo. Se Demian, que era um bocó, já fazia voltas no ar, ele podia perfeitamente voar, respirando forte, deu um impulso com o pé e tirou a vassoura do chão. Subiu um pouco, e sentia suas mãos tremendo juntas segurando a vassoura, e com tremenda dificuldade, voou pelo tempo estritamente necessário, trincando os dentes quando os pés bateram de volta no chão. Para sempre ele sabia que odiaria aquilo, como odiava lugares altos. Ainda bem que as aulas de vôo eram obrigatórias só durante o primeiro ano. A professora obesa aproximou-se:
- Muito bem, Tom... para um novato você foi muito bem. – e começou a tecer críticas sobre seu vôo que ele ouviu atento e prestando atenção. Era algo que seria obrigado a fazer,e faria, mas nunca ia gostar. Era melhor ser realmente bom em todo o resto, porque sabia que em vôo seria menos que medíocre. Mas isso não lhe dava inveja de Demian, que àquela hora planava alegre disputando corrida com o menino da Grifnória, acreditava que voar era para tolos, e ele não era um tolo.
Tom logo começou a se destacar nas outras matérias, porque além de inteligente, estudava com afinco. Uma tarde, surpreendeu-se pensando em Mary. Fora uma carta que ele mandara logo depois da visita dela avisando que estudaria fora, cuja resposta ele recebera na semana em que os Snapes haviam chegado, ele não recebera notícia nenhuma da amiga de sua mãe. Então, falou com Demian e pegou a coruja que dividiam, para que entregasse uma carta a Mary.
Disse na carta que estava gostando da nova escola, mas omitiu o que estudava. Um dia ele pretendia contar, mas não enquanto fosse apenas um estudante. Ele não tinha consideração por pessoa alguma no mundo como tinha por Mary e por Ester. Agora que ele sentia-se ligeiramente superior ao restante da humanidade por ser bruxo, elas eram as únicas trouxas das quais ele se lembrava com algum carinho e respeito. Mary, e grandes olhos azul-água, sempre parecendo cansada por cuidar tanto dos filhos, e Ester, loura e luminosa, que sempre o vencia nas corridas.
Ficou observando a coruja sumir no céu quando mandou a carta, imaginando se Mary estranharia a forma de receber a carta, então, como sempre acontecia com ele, voltou a pensar no que era realmente importante: seus estudos.
O tempo foi passando, e á medida que o semestre avançava, ficava claro para ele que Demian sempre seria sua sombra. Era fácil até demais conseguir que Demian concordasse com ele: Demian pensava que Tom era a pessoa mais inteligente do mundo e tudo que ele dizia, era prontamente acatado. Ele gostava disso, nunca tinha tido um amigo que lhe desse tanta atenção.
Não havia também um único professor que não gostasse dele. Era sempre o primeiro a responder as perguntas, e da mesma forma, o mais interessado nas aulas. Muitas vezes cutucava com o cotovelo Demian, que sentado ao seu lado olhava para ontem ou tentava puxar outro assunto. Talvez por isso, também tivesse se aproximado de Cornélio Fudge. Eram alunos medianos, companheiros de quarto e Fudge dava atenção a Demian quando Tom estava ocupado demais.
Uma manhã, eles estavam tomando café quando a coruja de ambos finalmente retornou. Era a carta de Mary.
“Tom.
Não posso escrever muito, pois estou doente. Eu imaginei que fosse apenas uma gripe por causa do cansaço e das dores, mas parece que é algo um pouco mais sério, mas não se preocupe comigo.
Que bom que você está gostando da nova escola... Ester também deve mudar de escola ano que vem, conseguimos para ela um internato de moças, um pouco longe daqui de Little Hangleton, mas onde acho que ela irá se adaptar bem.
No mais, filho, levo a vida desinteressante de sempre, com o incômodo adicional de estar de cama. Mas a próxima carta tua vai me encontrar de pé, você vai ver...
Afetuosamente,
Mary Smith-Marshall

De alguma forma, Tom sabia que aquilo não era bom. Desde que se entendia por gente, Mary jamais estivera doente, e ainda mais a ponto de cair de cama. Ele nunca a visitara em casa, mas mesmo seus olhos de menino sabiam reconhecer nas mãos ásperas e descascadas e na pele sem vida dela, a marca das mulheres que se matam de sol a sol pela família. Levantou-se da mesa do café distraído, e foi andando pelo corredor. Demian não atrevia-se a perguntar nada, sabia já distinguir quando o amigo não queria que lhe fizessem perguntas.
Quando quase chegavam à sala da aula de poções, uma briga de meninas fez com que Tom voltasse à realidade. Murta Blaine chorava enquanto Olívia Hornby a humilhava:
- Murta, você realmente não merece estar aqui... eu nunca vi ninguém mais pateta.
- Pare com isso, Olívia – disse Murta com os olhos rasos de lágrimas.
- Além de feia e gorda, você é estúpida, devia saber que eu ia esquecer as sanguinárias no quarto, vá lá buscá-las para mim, quem sabe assim eu possa te ajudar com o dever de transformação... mas acho difícil realmente você conseguir transformar um percevejo numa tachinha, que dirá um alfinete de cabeça em um palito de dentes...
Aquela menina, Olívia, conseguia ser odiada por todos. Ela era rica e esnobe. Falava com todos como se estivesse um degrau acima, mas a Murta era ainda sua vítima favorita. Não que Tom fosse realmente com a cara de Murta, mas a outra o irritava tanto que ele não resistiu:
- Se você se olhasse no espelho, Olívia, jamais chamaria ninguém de feio.
- Eu falei com você, paspalho?
- Ninguém aqui é tão insuportável quanto você, garota.
- Acha que um insulto vindo de um trouxa que usa livros gastos vai me atingir, Riddle? Todos sabem que você é um bastardinho, Riddle não é nome de nenhuma família tradicional de bruxos. Você tem sangue trouxa, não, paspalho?
- Tom, Não! – Demian gritou no instante que Tom pegou a varinha para jogar um feitiço trava-língua em Olívia, o que não aconteceu porque na mesma hora a professora de poções, Madame Viper, apareceu e chamou a atenção de Olívia.
- Detenção mocinha... eu ouvi tudo. Não se trata um colega dessa maneira. Tom, meu filho... essa varinha em punho não significa que você ia fazer algo contra Olívia, significa? – Tom teve vontade de dizer que não tinha sangue de barata, mas olhando a expressão no rosto de Olívia, disse:
- Foi só reflexo, Madame.
- Muito bem... todos para dentro, menos a senhorita , que vai para a sala do diretor, ter uma conversinha com ele sobre respeito aos colegas.
A professora se retirou levando a enfurecida Olívia para a sala do diretor Dippet, e os colegas todos sorriram para Tom, principalmente a Murta.
- S-sabe – ela disse tímida – nunca achei que alguém pudesse enfrentá-la por minha causa.
- Não fiz por sua causa – disse Tom – fiz porque ela me irrita. – na verdade, as palavras de Olívia ainda lhe ressoavam na cabeça. Riddle não era um nome bruxo, e sempre saberiam disso. Ele sentou-se sem ver o olhar admirado de Murta, ou a cara satisfeita de Stella Chambers, uma menina de cabelo oleoso que era constantemente humilhada por Olívia. Ele fez tudo na aula automaticamente, imaginando se um dia ele poderia trocar aquele nome idiota para algum que fosse realmente digno do último Slytherin vivo... ah, se Olívia soubesse disso.

Aquela noite ele custou a dormir. Tinha na mente gravada a impressão que seria sempre um filho de trouxa se levasse aquele nome estúpido, e pela primeira vez, odiou a memória de sua mãe por ter dado a ele o mesmo nome do maldito que acabara com a vida dela e agora, mesmo longe, atrapalhava a vida dele. Riddle não era um nome bruxo. Mas ele era um bruxo, e um dia ele seria o maior deles, ele sabia, era o que ele queria. Sua mente não tinha resposta para o nome que usaria ainda, mas ele sentia-se como se o próprio nome lhe assentasse como uma roupa muito suja ao corpo. Era inadequado, era ruim, e em breve ele tomaria uma providência quanto a isso.
Ele continuou a mandar corujas para Mary, e recebia respostas cada vez mais curtas e preocupantes. Depois da festa de Halloween, que sem dúvida fora a melhor que já vira, chegou uma carta que não havia sido sequer escrita por Mary e sim por Ester.
“Tom,
Mamãe piorou. O médico disse que é tuberculose e agora quem cuida dela sou eu. Estou sempre lavando-lhe os lençóis, porque às vezes ela tosse sangue. Eu rezo muito e choro demais... ainda bem que tenho tuas cartas para me consolar, divirto-me cuidando das corujas enquanto eles esperam a resposta.
Reze por mamãe, Tom, porque eu tenho muito medo.
Ester”

O que sem dúvida fazia tudo pior era a letra ainda infantil e redonda de Ester, ele imaginava a menina, que era tão menor que ele apesar da diferença de apenas um ano, cuidando sozinha de Mary, já que o marido e os outros filhos deviam ser imprestáveis. Ele nunca tivera família, e a pouca que tinha agora se desfazia em pó. Ele esperava sinceramente que Mary sobrevivesse. Então lembrou-se de uma coisa... era um bruxo, os bruxos eram mais inteligentes que os trouxas, deviam saber um jeito de curar a Tuberculose. Correu até a ala hospitalar e foi conversar com Madame Kuskin, a enfermeira responsável.
Falou a ela quanto aquela mulher trouxa era importante para ele, e quanto ele queria que ela ficasse boa. Madame Kuskin o olhava com pena. Quando acabou, ela balançava a cabeça tristemente e ele soube que ela não devia ter boas notícias sobre aquilo.
- Tom, meu filho... é raro bruxos terem tuberculose, porque nós sabemos uma série de feitiços e poções que livram o ambiente do micróbio da doença. Quando não se trata da forma fulminante, aquela que muitos chamam Galopante, que mata em pouco mais de um mês, até sabemos a forma de curar. Mas a poção deve ser administrada antes que o doente apresente a hemoptse.
- Hemoptse?
- Sim... tosse com hemorragia pulmonar. Depois desse estágio, nem bruxos e muito menos trouxas, sabem a cura, meu filho. Prepare-se para o pior, criança.

Saiu da ala hospitalar com a raiva queimando-o por dentro. Ele não podia fazer absolutamente nada por Mary, nada. Procurou ainda nas horas vagas em livros por uma resposta diferente, mas todos repetiam o discurso de Madame Kuskin. Mary morreria. Mary estava condenada por uma doença de trouxas. Ele pensava na profunda injustiça daquilo... porque Mary não nascera bruxa e pudera ser salva pela poção? A sua fuga era estudar mais e mais... ele seria o melhor dos bruxos, ele seria grande e poderoso e venceria até a morte.
Pouco depois do Ano Novo, a coruja que ele mandava chegou, com uma carta curta, na letra redonda e caprichada de Ester. Uma única frase, tinha a carta:
Deus a levou, Tom.
Tom correu até o alto da torre sul. Ele tinha lágrimas nos olhos, e não conseguia ter nada dentro de si que não fosse raiva. Naquele instante pouco importava se ele tinha medo de altura... ele não iria olhar para baixo, queria apenas gritar num lugar onde ninguém pudesse ouvir, não queria parecer fraco, não iria dar a ninguém o privilégio de ver suas lágrimas. Chegou lá ofegante, e sentou-se no chão contra uma mureta, respirando profundamente, as lágrimas descendo pelo rosto, quentes. Olhou para o céu nublado e pensou que odiava a sua vida. Odiava ser órfão. Odiava ter perdido a única pessoa que gostara dele.
Fez a si mesmo uma promessa que não mais esqueceria: não sofreria assim de novo, por nada. Ninguém mais o veria chorar, porque agora ele estava sozinho. Gritou o nome de Mary, e só o eco respondeu. Nunca tivera uma mãe, mas tivera Mary. Lembrava-se de deitar a cabeça em seu colo, lembrava-se das recomendações dela. Agora ele não veria jamais o seu sorriso. Nunca mais. Nesse instante é que ele percebeu que seus dedos estavam duros: ele estava mal agasalhado num dos lugares mais frios da escola. Não adiantaria se ele mesmo pegasse uma gripe. A razão foi voltando aos poucos, e ele desceu, enxugando as lágrimas.
Resolveu que escreveria para Ester então. Ela seria alguém para conversar, ela também tinha perdido Mary. Ela seria alguém bom para dividir o que sentia, mesmo sendo trouxa. E foi isso que ele fez, dali em diante.
A primavera trouxe o fim do campeonato de quadribol, com a conquista da taça pela Sonserina. Mesmo não gostando muito, ele assistia, ao lado de Demian que dava pulos de satisfação a cada jogada. No final, a única coisa que ele realmente apreciou: ver todo o resto da escola furioso com a vitória da sua casa. Sim, eles eram realmente malditos, pensou. Slytherin era como ele, afinal, não? Alguém indesejável, mas melhor que os outros.
Poucos dias depois, chegou a notícia que o famigerado bruxo Grindewald fizera algumas vítimas na Polônia, supostamente radicado na Alemanha, ele surpreendera dois aurores que estavam em seu encalço e os exterminara sem piedade, mandando os corpos e blocos de gelo encantado para a família. Contavam que a mãe de um dos aurores morrera de infarto ao saber da notícia. A escola comentava e Demian disse a ele:
- Minha mãe diz que Grindewald teria o apoio dela se quisesse separar os bruxos dos trouxas, mas parece que ele quer apenas mandar em todos os bruxos do mundo.
- Coisa idiota – disse Tom, olhando a fotografia de Grindewald no Profeta Diário – se ele realmente fosse esperto, ia querer subjulgar também os trouxas.
- É, mas olha o que ele faz... é assustador!
- Eu sinceramente não acho... ele só pegou os sujeitos desprevenidos, só isso, vai acabar sendo pego.
- Dizem que só Alvo Dumbledore conseguiria pegá-lo.
- Nosso professor de transformação?
- É, ele é um cavaleiro da ordem do fênix. Isso significa que ele tem conhecimento para derrotar alguém como Grindewald
- E porque ainda não derrotou?
- Na verdade ele o venceu, mas não pôde conduzí-lo até Azkaban pessoalmente, encarregando outros de o fazerem com instruções explícitas, e Grindewald conseguiu enganar o auror que o levava, fugindo. Foi um escândalo na época.
- Se ele realmente fosse bom, não perderia para um reles professor de transformação. A mim ele parece patético – disse Tom com desprezo, jogando o jornal para o lado.
- Você acha que pode derrotar Grindewald, Tom – disse Demian em ligeiro tom de deboche.
- Agora não, mas um dia eu vou ser muito maior que ele. Ele é um bruxo idiota. Você tem medo dele?
- Tenho. Claro que tenho.
- Tem medo dele mesmo ele estando longe?
- Estando longe não... o que ele pode me fazer estando na Alemanha?
- Pois bem, Demian... se ele fosse realmente poderoso você teria medo dele onde quer que ele estivesse. Porque você não saberia se ele poderia ou não te fazer mal estando na Alemanha. Se ele fosse realmente poderoso, você sentiria tanto medo, que nem pronunciaria seu nome.
- Que coisa ridícula, ninguém tem medo de um nome...
- Pois acredite, Demian, se ele fosse realmente poderoso, ninguém diria seu nome. Eles teriam medo.

O semestre chegou ao fim rapidamente, e Tom foi cumprimentado pessoalmente pelo diretor por ter sido o aluno que tirara as notas mais altas do primeiro ano. Não fosse a média apenas suficiente em Vôo ele seria o primeiro colocado de toda a escola. Ele sorriu, mas sentiu-se ao mesmo tempo insatisfeito, porque queria ser o melhor de todos. No ano seguinte não precisaria fazer aulas de vôo e tudo seria diferente. Completamente diferente. O menino que chegou naquelas férias ao orfanato não era mais o pequeno Tom. Era outro, um bruxo. Um bruxo que já pensava num novo nome para si. Um nome que um dia todos temessem.

Capítulo 5
O Segredo da Lousa
O sol que entrava pela janela do orfanato aquela manhã podia ser motivo de alegria para qualquer um dos meninos, menos para Tom. Ter voltado para o orfanato fora simplesmente uma tortura para ele, que sentia-se agora um peixe fora d’água naquele mundo de trouxas. Ser obrigado a fazer escondido os deveres de casa, não poder sequer usar magia para se divertir assustando os colegas trouxas... enfim, era aborrecido continuar parecendo um garoto comum. Nem mesmo podia contar com a visita de Ester, que era jovem demais para ir até ali. Aquele estava sendo o pior verão da sua vida.
Naquela manhã todos os garotos pareciam querer correr pelo pátio ou fazer coisas para escapar do calor infernal do dormitório, menos ele. Ele queria estar longe de todos. Como fazia sempre, pegou a arca que sua mãe deixara e ficou observando o que havia dentro. Já decorara a carta de sua mãe, agora perdera a graça lê-la. Olhou para a lousa que recebera, o tal objeto mágico ao qual não dera ainda muita atenção, nem mesmo ele saberia dizer porque. Ele não sabia como uma lousa poderia ser mágica.
Subitamente, se deu conta que nunca sentira vontade de escrever nada naquela Lousa. Então pegou distraidamente o bloco de giz que pendia por uma corrente da lousa e riscou seu nome na superfície negra do objeto. Seus olhos se arregalaram quando as letras desapareceram, dando lugar a outra inscrição:


ENFIM...

Ele abriu a boca incrédulo e sentindo-se idiota... como não pensara nisso antes? Também, as recomendações de sua mãe na carta para ocultar o objeto haviam feito que ele quase desprezasse o mesmo. Tom pensou e escreveu:
QUEM É VOCÊ?

Ele aguardou tenso, praticamente ouvindo a batida do próprio coração. Ele não saberia dizer porque, mas sabia que aquela lousa teria respostas para perguntas que ele sequer ousaria fazer a qualquer bruxo. As letras desapareceram e deram lugar à seguinte frase:
UMA LEMBRANÇA, FILHO.

Tom franziu a testa pensativo. De quem poderia ser essa lembrança? Escreveu ansioso:
SIM, MAS... QUE ESPÉCIE DE LEMBRANÇA?

A resposta desta vez demorou menos:
GUARDEI MINHA PERSONALIDADE E MINHAS MEMÓRIAS NESTE OBJETO, PARA MOSTRAR A MEUS FILHOS A FACE DO INIMIGO, TOM.

Tom hesitou novamente, então escreveu:
E QUAL O SEU NOME?

As letras desapareceram, então rapidamente e a resposta não tardou:
SE VOCÊ NÃO ESTÁ PREPARADO PARA RECONHECER O MAIOR DOS BRUXOS, O MAIOR DOS FUNDADORES DE HOGWARTS, DEIXE MINHA MEMÓRIA EM PAZ!

Tom sorriu. Tinha feito a pergunta sabendo a resposta. Sim, era tudo que ele precisava agora, mas surpreendeu-se com as letras, que continuaram surgindo:
CREIO QUE NÃO ÉS DIGNO DE SER CHAMADO DE MEU DESCENDENTE, TOM RIDDLE... COMO PODES TER FICADO UM ANO TÃO PERTO DE MIM, TENDO TODA MINHA MEMÓRIA E MEU CONHECIMENTO PARA TE ENSINAR O QUE REALMENTE IMPORTA, E NÃO TENHA ME TOCADO SEQUER UMA VEZ?

Tom sentia-se desconcertado. Não era agradável levar uma bronca de um ancestral morto há nove ou dez séculos.
NA VERDADE, EU ESTAVA ESTUDANDO PARA ME TORNAR UM GRANDE BRUXO.

Uma interminável gargalhada ocupou toda a superfície da lousa com “ha ha has”. Tom sentiu-se bem irritado. Mas antes de poder escrever qualquer coisa, a lousa novamente estava coberta de inscrições:
O QUE REALMENTE IMPORTA VOCÊ NÃO VAI APRENDER EM ESCOLA ALGUMA, TOM, SE QUISERES REALMENTE PODER, SE QUISERES REALMENTE SER GRANDE, É COMIGO QUE DEVES APRENDER, NÃO COM PROFESSORES CHEIOS DE IDÉIAS IDIOTAS. SEU ANCESTRAL, SEU PAI, SABE MUITO MAIS QUE ELES.

Pai. Tom jamais tivera um pai, uma figura masculina adulta em quem pudesse se mirar, alguém para admirar. Sabendo que a melhor coisa a fazer sem dúvida era confiar naquela memória, Tom, contrariando sua personalidade, escreveu, submisso:
PERDÃO, PAI.

A lousa ficou negra como se jamais tivesse recebido uma inscrição, e Tom soube que havia marcado um ponto com aquele ancestral submetendo-se (ou fingindo submeter-se) à sua autoridade. A autoridade de um pai. Era isso que aquele ser invisível seria, seu pai no mundo bruxo, ele iria mostrar a ele tudo que a escola não podia ou não queria ensinar. Tom estava disposto a tudo para ser como seu pai, seu verdadeiro pai, Salazar Slytherin. Escreveu então:
PAI, QUEM SOMOS?
Após instantes de aparente hesitação, a Lousa começou a respondê-lo. Mas não foi uma resposta escrita. Tom sentiu as pálpebras trêmulas, e sem saber como, repentinamente não estava mais no orfanato, mas no centro de um castelo abandonado. Sobressaltou-se. Um bando de pássaros entrou pela janela. O castelo parecia abandonado. Ele ouviu passos ecoarem e viu entrarem no salão quatro pessoas. Andou na direção delas, e viu que eram duas mulheres e dois homens, balbuciou uma explicação confusa que foi ignorada, pois os quatro passaram por ele como se ele não existisse. Só então viu como eles eram jovens. A mulher mais alta, de cabelos negros, disse, alegremente:
- É perfeito! É lindo... Há quanto tempo está abandonado?
- Cinquenta anos – disse um rapaz de cabelos castanhos e olhos azuis – Houve uma guerra e o rei trouxa que o construiu foi morto aqui, desde então, as pessoas achavam que ele era assombrado.
- E é- disse um fantasma que surgiu do chão irritado, vindo das masmorras . Era a primeira “pessoa” que Tom reconhecia daquela cena. Era o fantasma da Sonserina, a casa em que ele estudava. – Eu morri defendendo este castelo senhores. Não permito que qualquer um entre aqui... quem são vocês?
- Nós queremos ocupar o castelo – disse uma moça loura baixa e cheinha, com um jeito um tanto invocado – E não vai ser um fantasma à toa que vai impedir...
- Espere – disse o único que estivera calado até então. Era um rapaz, também, mas parecia um pouco mais velho que os outros – ele aproximou-se do fantasma e disse: - Tu eras o bruxo do castelo, não? – o fantasma pareceu um tanto quanto surpreso.
- Sim... eu era.
- Sabes a força deste lugar... sabes que aqui há muita magia.
- Sei.
- Fica então, não vamos perseguir-te. Ajuda-nos, queremos transformar este lugar na primeira escola de verdade para bruxos.
- Uma escola para... bruxos.
- Sim – disse a mulher gordinha – é o nosso sonho, para que possamos ajudar nossos iguais, para que não mais nos persigam.
O fantasma pareceu hesitar, mas então concordou. Tudo escureceu, algo mudou, mas Tom não saíra do lugar. O salão em escombros era agora parecido com Hogwarts, mas Tom já compreendia que era a Hogwarts de outro tempo, já estava lá o céu encantado, mas ainda não haviam as mesas das casas, nem as bandeiras. Um casal entrou no salão correndo, rindo. Eram a moça de cabelos negros e o homem que parecia mais velho. Tom já intuíra que eram Salazar Slytherin e Rowena Ravenclaw. O homem alcançou a moça, e abraçou-a com força, estreitando-a nos braços e beijando longamente. Tom sentiu-se constrangido, mas não conseguia tirar os olhos do casal.
- Eu te amo, Salazar – ela sussurrou, quando ele parou para olhá-la. Ele olhou-a de forma terna, mas havia algo mais naquele olhar, uma exigência imperativa. Ele então falou:
- Então... concorde comigo, Rowena... não me deixe sozinho nessa questão. Só você concordando pode fazer Godric e Helga.
- Salazar, Godric e Helga estão certos... – o olhar dele endureceu, e ele largou-a de forma brusca.
- Então, pegamos esse castelo arruinado e o transformamos na escola dos nossos sonhos para enchê-la de... trouxas? – ele disse essa última palavra com ódio.
- Não, Salazar... você vê tudo pelo ângulo mais sombrio. Acontece que nem sempre a magia escolhe filhos de magos. Você queria que eu vivesse como trouxa, Godric?
- Não- ele disse olhando para ela – eu não quero ofendê-la... mas não acredito que todos os que tem sangue trouxa sejam como você. Tenho medo da escola servir para que os trouxas acabem sendo como nós, e pior, acabem sendo mais do que nós.
- E para isso, se puderes, afastarás todos os filhos de trouxas, Salazar? Me diga... lembra-te que eu mesma nasci filha de trouxas.
- Eu... Rowena – ele deu dois passos na direção dela e a beijou apaixonadamente, e nesse momento tudo mudou novamente, e Tom viu que agora estavam no centro do salão os quatro fundadores de Hogwarts, reunidos em um círculo, e agora o salão parecia definitivamente pronto, se bem que na penumbra, apenas um círculo de fogo iluminava os três. Cada um dizia o que parecia um juramento:
- Eu, Helga Hufflepuff, juro mostrar a meus alunos o valor da lealdade e do trabalho, de resistir a tudo com fortaleza de caráter, de ser sempre amigo. Juro também jamais usar qualquer feitiço que provoque dor ou dano, ou qualquer encantamento ligado às artes negras – ela estendeu sua varinha em direção ao fogo e uma chama amarela voou em direção ao teto, transformado-se numa grande bandeira com um símbolo da casa da Lufa Lufa, que aderiu a uma das paredes.
- Eu, Rowena Ravenclaw, juro ensinar sempre buscando despertar a inteligência de meus escolhidos, valorizando a razão, levando-os através de seus pensamentos aonde apenas as idéias poderiam chegar. Juro ainda jamais usar qualquer expediente das artes das trevas em meus objetivos.- Ela repetiu o gesto de Helga, e a chama tomou a forma de um pássaro, voando antes de se transformar na grande bandeira da Corvinal na parede em frente.
- Eu, Godric Grifndor, juro mostrar a meus alunos o caminho da coragem, que eu mesmo trilhei anteriormente, juro ensiná-los a jamais esmorecer ante as dificuldades, e nunca correr diante do perigo. Juro ainda jamais usar nenhum recurso ligado às artes negras para isso. – Quando ele tocou as chamas com a varinha, ouviu-se um forte rugido, como de um leão, quando as chamas elevaram-se até o teto vermelhas, tornando-se a bandeira da Grifnória, que peregou-se à terceira parede do salão.
- Eu, Salazar Slytehrin, prometo fazer grandes os meus alunos, acendendo em seus corações a sede de ambição, prometo fazer com que eles desenvolvam ao máximo seus poderes. Juro não... juro não usar as artes das trevas para isso. – ele estendeu a varinha para as chamas, mas ao invés de uma explosão, ou de uma grande elevação das chamas, estas tornaram-se verdes intensamente verdes, e delas começou a evolar uma espessa fumaça prateada que tomou a forma de uma serpente, e depois transformou-se na bandeira da sonserina.
Tom observava atentamente o rosto do seu ancestral, e sabia que ele havia com certeza quebrado aquela promessa, ele mesmo sabia muito pouco de artes das trevas, mas não acreditava que elas fossem tão ruins assim, o mais provável é que os outros que tivessem medo. Novamente, diante dos seus olhos, tudo mudou, e ele passou a ver Salazar sozinho diante do que parecia um portal com duas serpentes entrelaçadas. Ele disse uma palavra em outra língua, mas surpreendentemente, Tom compreendeu-a: ele havia dito “Abram”.
Tom viu o lugar, cheio de serpentes esculpidas, e viu quando Salazar parou diante de uma enorme estátua dele mesmo, e gritou:
- Venha, meu servo. – a boca da estátua se abriu, e dela saiu uma enorme serpente, que mantinha os olhos fechados. Tom surpreendeu-se: ele podia distinguir claramente palavras do que a serpente dizia, e repentinamente ele soube que esse era o tal dom... aquilo que o fazia diferente. Ele podia entendê-las... ele quase ouvira o que a serpente dizia naquele dia na loja de corujas. Quase não prestava atenção no que o ancestral dizia, até que algo chamou a atenção:
- Vais ficar aqui, meu servo... adormecido e esperando que meus herdeiros venham te despertar – Salazar silvava para a grande serpente – um dia você vai ser a minha vingança... um dia vais afastar daqui os inimigos, os inimigos de Salazar Slytherin e seu herdeiro...
Tom então concluiu o que a lousa queria mostrar-lhe: havia em algum lugar de Hogwarts um ser adormecido que acordaria para ser comandado por ele, prestando atenção no que Slytherin dizia, ele soube que a criatura podia matar quem olhasse para seus olhos, por isso mantinha as pálpebras cerradas diante de seu mestre. Ele observou bem a grande cobra enroscando-se no chão, sibilando, falando em morte e dor, ele sabia que comandar um monstro como aquele não devia ser fácil, mas envolvia muito poder, um poder que poderia ser dele. Repentinamente, ele viu-se novamente no dormitório, diante da lousa, onde estava escrito, simplesmente:
JÁ SABES QUEM EU SOU... DO QUE EU SOU CAPAZ. SE CONFIARES EM MIM, DESCOBRIRÁS DO QUE TU ÉS CAPAZ. SEJA UM SLYTHERIN. NÃO TE DIREI ONDE ESTÁ A CÂMARA, TERÁS QUE DESCOBRIR SOZINHO, MAS TE AJUDAREI A SER GRANDE, COMIGO, SERÁS O MAIOR DE TODOS.
Tom sorriu. E foi um sorriso como ele jamais dera. Naquele instante, aquele menido de apenas 12 anos começou a mudar definitivamente. Naquele instante ele começou a se tornar o que seria mais tarde.