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HISTÓRIA DE IMPERATRIZ POR CARLOTA DE CARVALHO
por imperatrizma em 18/01/07 - 21h:32m
IMPERATRIZ
Uma vila do Pará no Maranhão - Episódio da história nacional
Em 1850 havia dúvida e litígio acerca da limitação das províncias Pará e Maranhão e inteiramente não conhecida era a zona em que os limites interprovíncias deviam ser traçados.
Não havia portanto ocupação oficial e jurisdição estabelecida, parecendo que esta se firmaria naquela e o direito da província seria o resultado da prioridade de ocupação, já alegado pelo governo do Maranhão em 1810 e triunfante na régia Resolução de 11 de agosto de 1813, que deu a este governo a margem direita do Tocantins, da junção do Araguaia para cima, até o Paratinga, que os conquistadores chamaram de Manoel Alves.
Baseado nesse precedente, o presidente do Pará, conselheiro Jerônimo Francisco Coelho, mandou, em 1851, edificar uma vila "em território do Pará próximo de onde devesse limitar com o Maranhão".
Dessa missão ou comissão foi encarregado o reverendíssimo frei Manoel Procópio do Coração de Maria, natural da Bahia, onde ingressou em uma ordem religiosa.
Hipotética era altura ou posição geográfica em que a divisão das duas províncias podia ser feita.
Perto do oceano Atlântico, na costa, a limitação era, em 1850, pelo riacho Turiaçu, que tem as cabeceiras sumidas na mata, entre Pindaré e Gurupi, abaixo de onde os afluentes destes dois emaranham nascentes, circunstância então não conhecida. Parece que, vendo o golfinho em que o Turi despeja, os homens supunham-no foz de um rio que fosse longe.
Da cabeceira do Turiaçu uma linha reta de Leste a Oeste até o Tocantins era limitação fixada no papel.
Sabe-se hoje, depois das explorações de borracha e copaíba no Pindaré e no Gurupi, que a cabeceira do Turiaçu é abaixo do Caru, afluente do Pindaré que tem nascentes emaranhadas com nascentes de afluentes do Gurupi, entre 3º e 4º latitude Sul.
Contra a geral expectativa a linha reta para Oeste, partindo da Itaboca, e pertenceria ao Maranhão um território imenso de que foi despojado pela mudança de limite para o Gurupi, cuja cabeceira vai mais um grau e meio para o Sul.
Em 1850 ninguém sabia onde era a cabeceira do Turi e não podia calcular onde a linha Leste-Oeste tocaria o Tocantins.
Impossível era a frei Manoel determinar esse ponto de incidência da linha, mas frei Manoel Procópio do Coração de Maria não era homem para embaraçar-se em dúvidas geográficas e cogitações da verdade. Por isso, não conduziu consigo instrumentos para medir longitudes, latitudes, densidades e temperaturas, nada com que pudesse fazer um estudo geodésico ou geológico e todos os seus atos parecem indicar indivíduo sem noções dessas coisas.
Executando o mandato, subiu o Tocantins até a disjunção do Araguaia e continuou a ascensão pelo braço oriental até onde o ocaso lhe deparou um campinho de forma oval, encimado num combro de areia de formação aluvial, alteado entre o rio e charnecas rodeadas de buritiranas, espécie de palmeira pequena e espinhenta, que no Pará chamam de caranã, cujo fruto é aproveitado pelo mesmo processo por que são aproveitados bacaba, buriti e açaí ou jussara.
Com a vista enfastiada da mata, ele que nunca tinha visto um campo no natural, sentiu-se fascinado pelo quadro novo.
- Um campo! -, exclamou.
Estava achado.
Formação geogênica, estrutura do solo, latitude, longitude ninguém lhe diria. Também não tentou saber se ali era o ponto de incidência da linha.
O campinho achado por frei Manoel é o que chamam de "campo falso", isto é, sem ligação aos campos gerais, isolado dentro de uma mata, carecendo explicação de como foi feito aquele "aberto".
Do lado de cima, o campinho extrema na grande ipueira (pau e represa) da foz do Cacau.
Para Leste,o campo abaixa-se e nesta parte são as charnecas, cuja água passa filtrada por baixo do combro de areia de forma oval sobre o que edificou a vila, e brota numa infinidade de "olhos-d'água" que nascem no declive do terreno para orio, antes de chegar ao barranco.
Frei Manoel não examinou as condições de salubridade, não considerou o poder mortífero das ipueiras do Cacau.
Se ele se desse à canseira de examinar o território - do qual tomava posse para o Pará - , por certo teria renunciado ao achado.
O campinho, que tão bonito parecera-lhe, era "falso"; dista 18 quilômetros do campo verdadeiro. Essa extensão é terreno argiloso, quase intransitável no inverno.
A saída para fora transpõe esses 18 a 19 quilômetros de caminho temível pelos lamaçais, atoleiros, grotas torrentosas, às vezes invadeáveis pelas cheias das chuvas.
A enchente do Tocantins represa o Cacau e enche as ipueiras, grandes concavidades laterais.
Dessas estagnações emanam miasmas deletérios que produzem a sezão, endêmica na vila.
Finda o terreno fica de difícil trânsito no riacho Bananal, que tem foz abaixo do cotovelo que o Tocantins salienta para o Leste, dobrando-se para o Oeste.
Acima do Bananal são os "campos gerais" e esse cotovelo teria sido o ponto preferido, o lugar escolhido para assentamento da vila, se ele fizesse o exame que devia preceder à escolha do lugar.
***
Em 1852 frei Manoel fundou a povoação de Santa Tereza da Imperatriz da província do Pará, sendo todas as despesas pagas pelo tesouro do Pará.
Exatamente nesse ano, foi votada e sancionada a Lei nº 639, de 12 de junho de 1852, que determinou o limite do Pará e Maranhão pelo rio Gurupi, transferindo para a cabeceira deste ponto de partida da linha Este a Oeste até o Tocantins.
Em 1852 ninguém, no Brasil, exceção de autóctones até esse tempo incomunicáveis, sabia onde era a cabeceira do Gurupi.
Comunicações posteriores com os selvagens trouxeram informações e algumas entradas até as tabas puderam verificar a nascente do Gurupi.
Em 1854-55 foi evidenciado que a povoação fundada por frei Manoel pertencia ao Maranhão.
Foi uma decepção para o governo do Pará,iludido e ludibriado por frei Manoel.
Agora, sabe se que a nascente principal do Gurupi é precisamente aos 5º )' 16" latitude Sul, 4º 26' de longitude ocidental do Rio; que a junção do Araguaia é realizada aos 5º 21' longitude ocidental do dito meridiano, sendo óbvio que a linha Leste-Oeste tirada da cabeceira do Gurupi atingirá o Tocantins 11' abaixo da junção do Araguaia e o ponto de incidência ainda não foi determinado!
No dito tempo, o governo do Maranhão pensava também na fundação de uma vila nas imediações da fronteira do Pará e o conhecimento da topografia estava menos adiantado que o da província vizinha litigante.
Em 1854 erigiu distrito de paz e em 1855 vila a povoação de Porto Franco, na riba direita do Tocantins, defronte a histórica Boa Vista, olhando-se reciprocamente.
Pelo rio, distância mais curta, Porto Franco é noventa quilômetros, distância repartida ao meio pelo caudaloso rio Lageado Grande.
Ao Sul do Lajeado (distrito de Porto Franco), terrenos argilosos com ótimas vargens. Ao Norte do Lajeado, distrito de Santa Teresa, terrenos arenosos com mais forte relevo.
Porto Franco era um povoado com três ruas, cinco travessas, dois pequenos largos, possuindo comércio animado e favorecido pelas melhores condições de salubridade.
Populoso e habitado por muitos fazendeiros que criam gados vacum e cavalar em grandes porções é o território que cerca a povoação.
Inopinadamente, o Maranhão teve mais uma povoação na riba direita do Tocantins, 90 quilômetros abaixo de Porto Franco, nos confins do país habitado por católicos. É Santa Teresa da Imperatriz.
Frei Manoel conformou-se com a passagem da jurisdição e soube tirar proveito.
Todo o território pertencia ao município de Carolina - a nova.
A criação do município de Porto Franco partiu o município pelo rio Itaueira, que ficou sendo limite entre os dois.
Frei Manoel empregou todo o seu valimento e toda sua astúcia no empenho de ser a povoação de Santa Teresa da Imperatriz a sede do município de Porto Franco.
Astuto e hábil, ele conseguiu por intermédio de um deputado provincial que, na redação definitiva da Lei Provincial nº 398, de 27 de agosto de 1856, a povoação Porto Franco, elevada a vila, ficasse denominada "Vila de Santa Teresa de Porto Franco".
Favorecido pela ambigüidade dessa lei, e pondo em ação a influência religiosa, ele obteve do presidente da província a declaração oficial de ser a povoação de Santa Teresa, situada fora do território do povoado, a sede do município de Porto Franco.
Para isso obter, não hesitou em apresentar ao presidente da província atestado dizendo que a povoação de Santa Teresa é defronte Boa Vista, documentos que ainda existem na secretaria do governo.
Reclamações dos habitantes de Porto Franco motivaram a Lei Provincial nº 521, de 9 de junho de 1859, que assim dispõe:
Art. 1º - Fica transferida a sede da vila nova da Imperatriz da povoação de Santa Tereza para a povoação de Porto Franco, conforme o espírito da lei da criação desta vila.
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Art. 3º - O governo da província fica autorizado a receber, mediante contrato, o oferecimento de Leonardo Pereira de Araújo Brito, da construção à sua custa de uma nova igreja matriz, e a casa que José Joaquim Severino dá para casa de Câmara, Júri e audiências.
Era presidente da província José Maria Barreto.
Os doadores da igreja e casa de Câmara erma os mais ricos e influentes moradores no distrito de Porto Franco e anteriormente haviam doado para patrimônio da vila, em escritura pública, três mil braças de terra medidas da riba do rio fora e mil e quinhentas braças de largura, medidas por Paulino e Felipe Rodrigues.
Leonardo Pereira de Araújo, brasileiro, natural da cidade de Caxias, do Maranhão, tinha sido negociante ambulante e enriqueceu casando-se com uma senhora da família Sirqueira, uma das primeiras ocupantes da Cinta.
José Joaquim Severino era português, enriqueceu no comércio com o Pará, e era a casa mais importante de Porto Franco.
Essa transferência pouco durou.
Em 1866, desgostos domésticos motivaram a mudança de habitação do chefe do partido conservador Amaro Batista Bandeira da vila Carolina - a nova, para a sua fazenda de criação de gados Fortaleza, no distrito de Santa Teresa.
Sabendo utilizar-se do prestígio desse chefe e aproveitar a oportunidade da subida ao poder do partido conservador em 1868, frei Manoel obteve a transladação da sede para a povoação de Santa Teresa pela Lei Provincial de 5 de agosto de 1868.
Seguiu-se uma disputa que tomou feição partidária e acirrou ódio entre duas famílias ricas, principais pleiteantes da sede: Bandeiras e Sirqueiras.
Na primeira rubrica incorporaram-se os Milhomens, descendentes de Manoel Milhomem, balaio do Mirador em 1840, proscrito pelo major Clemente, que arrasou a vila, e Pereiras, ambas enlaçadas com Bandeiras por via de casamentos.
Na segunda rubrica, os membros da família Sirqueira, assaz numerosa e abastada de bens e de amigos e chefiados por dois irmãos genros de Leonardo: Wenceslau Gonçalves da Silva, apelidado "o torado", e Jorge Gonçalves da Silva, figura cavalheiresca medieval no século XIX.
Estes dispunham de recursos materiais inesgotáveis e uma energia belicosa.
Os Bandeiras tinham a proteção palaciana e sabiam valer-se da diplomacia.
Essa disputa consumiu muito dinheiro, tempo e energias, esterilmente.
Mas acertada teria sido a criação de duas vilas, separados os municípios pelo rio Lajeado, solução dada em 1919.
Foi preciso o decurso de 60 anos para os homens acharem uma solução tão intuitiva quanto harmonizadora!.
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Fonte: Páginas 162 a 165, Cap. XIII - Imperatriz, "O Sertão", de Carlota Carvalho, Ética Editora.