STEPHEN JAY GOULD (1942-2002)
Que inteligência é o requisito básico para se construir uma carreira acadêmica e uma reputação científica, disso ninguém duvida. Coragem intelectual também é fundamental para que o cientista deixe a sua própria marca. O homenageado de hoje foi mais que corajoso: foi audacioso ao limite da temeridade, uma espécie de Einstein da biologia evolutiva, que abriu um imenso campo de pesquisa nessa área. E ainda aliava tudo isso a uma escrita elegante e um requinte cultural invejáveis, além de um bom humor e carisma a toda prova. Seu nome é Stephen Jay Gould.
Tudo começou no Museu de História Natural de Nova York, onde Gould nasceu em 1942. O pequeno Stephen ficou maravilhado com o acervo fóssil do museu, especialmente com o grande esqueleto de Tiranossauro exposto à visitação pública. Fascinado pela paleontologia, decidiu cursar ciências biológicas, e logo no início de sua vida acadêmica inquietou-se com algumas lacunas e inconsistências da teoria evolucionista.
Propôs, em companhia de Niles Eldredge, a Teoria do Equilíbrio Pontuado, de acordo com a qual a evolução não ocorre apenas em transições lentas e graduais, mas à base de saltos evolutivos (períodos com grande especiação), entremeados por períodos de relativa estabilidade. A teoria era ousada, e recebeu ataques de gente do porte de Daniel Dennet e Richard Dawkins. Juntamente com Richard Lewotin trouxe ainda a idéia de que além da seleção natural, o acaso era também um poderoso motor da evolução, e que esta era um processo complexo e intrincado, não apenas fruto de um determinismo natural como pregavam os darwinistas mais ortodoxos.
No entanto, Gould sempre foi um evolucionista. Sua intenção era aprimorá-la, e indignava-se com as distorções dos criacionistas; escreveu dezenas de livros e ensaios contestando os argumentos criacionistas, sempre com lógica impecável e grande rigor científico.
Em 1982 recebeu uma notícia aterradora: ele tinha um tumor maligno raro e extremamente agressivo no abdome. Os médicos lhe deram 8 meses de vida. Sua impetuosidade intelectual, aliada à vontade de viver, no entanto, o levaram a pesquisar exaustivamente na biblioteca de medicina de Harvard, onde lecionava. Descobriu que havia alguns tratamentos que aumentavam a sobrevida dos acometidos por aquele tipo de câncer. Combinando tais tratamentos com descobertas próprias, foi sobrevivendo, um, dois, três... Até que em 1992 escreveu um artigo intitulado “Media is not the message”, no qual ensinava leigos a ler estatísticas e interpretar dados, usando sua própria experiência como exemplo: o fato de um tumor matar em meses não significa que alguém não possa sobreviver muitos anos com ele.
Viveu o suficiente para ver a própria consagração. Apareceu num episódio de Os Simpsons, dublando a própria voz no seriado. Em 2001 foi considerado pela Biblioteca do Congresso Americano, ao lado de outras personalidades, uma das “Lendas Vivas da América”. Tornou-se um dos grandes divulgadores científicos do século, um superstar da ciência, cujos livros tinham tiragens enormes e sumiam rapidamente das prateleiras. Em Harvard, era uma estrela. Suas aulas eram concorridíssimas e as vagas para suas disciplinas e cursos eram alvo de disputas acirradas entre os estudantes, e sua paixão pelo magistério tal que deu aulas até duas semanas antes de finalmente ser derrotado pelo câncer aos 60 anos de idade. Mesmo na morte, esteve como sempre quis: na biblioteca de sua casa, rodeado de livros.
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