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Dez mil anos de amizade 24/11/2004 Revista Veja
por joanaarc em 30/11/04 - 11h:08m
Esse é o tempo comprovado da aproximação
entre homens e cães – símbolo da relação
complexa, apaixonada, utilitária ou até cruel
dos humanos com as outras espécies animais
Montagem sobre fotos de Edison Russo
COMPANHEIROS
O contato com animais transmite sensações de utilidade, conforto e segurança; cientistas apontam a necessidade biológica de manter laços com o mundo natural, representado por nossos parceiros na aventura da evolução
Um monge chega a uma ilha povoada por pingüins e, cegado pelo brilho da neve, confunde-os com homens. Prega-lhes a palavra do Senhor e os batiza. Ao saber do ato blasfemo, os Céus entram em polvorosa: como aceitar que meros pingüins recebam o sacramento? Na tumultuada assembléia de anjos, santos e outras entidades celestiais convocada por Deus, Santa Catarina, enfim, propõe uma saída: que seja concedida aos animais uma alma – mas uma alma pequena. A parábola do francês Anatole France foi escrita em 1908, mas traz à tona uma questão que, hoje, não só preocupa biólogos e filósofos como diz respeito ao dia-a-dia de todos os humanos: qual, afinal, é o lugar que os animais devem ocupar em nossa vida?
Para uma certa classe de animais, essa é uma pergunta que não deixa muitas dúvidas. O lugar é o banco do carro, o melhor travesseiro na cama mais fofa da casa ou, acima de tudo, o colo de donos embevecidos, dispostos a atender a qualquer capricho de seus bichos de estimação. Calcula-se que, em todo o mundo, 800 milhões de cães e gatos sejam criados em lares. No Brasil, são 38 milhões. Obviamente, uma enorme parcela ainda está muito longe das mordomias oferecidas no topo do mundo animal, mas a, digamos, ascensão social de lulus e bichanos é um fenômeno. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais (Anfal Pet), o mercado brasileiro de pet food – assim mesmo, em inglês, como se consagrou a ração – entre os donos de bichos subiu de 220.000 para 1,3 milhão de toneladas entre 1994 e 2003. Está em expansão constante também o setor de serviços destinados às mascotes, como lojas, hoteizinhos e clínicas. Os seres humanos, enfim, não só se cercam cada vez mais de animais de estimação como os tratam de fato como membros da família, com direitos idênticos a alimentação, saúde, bem-estar, afeto – e também alguns exageros, como roupinhas, laçarotes e outros acessórios cujo ridículo costuma ser suportado com paciência e dignidade pelos consumidores involuntários. Por que tudo isso?
O homem provavelmente carrega nos genes o amor pela natureza – e é amplamente recompensado por isso. Que os animais de estimação satisfazem várias necessidades humanas – da saúde física e emocional ao aprendizado intelectual e motor – é fato bastante estudado. Pesquisas demonstram que crianças que têm um bichinho por companhia desenvolvem mais rapidamente suas habilidades cognitivas e socioemocionais: as mascotes incentivam a comunicação e a responsabilidade dos filhotes humanos e facilitam sua convivência com os demais membros de seu grupo. As mascotes ajudam a fazer amizades e a encarar a vida com otimismo, principalmente entre idosos: pessoas que mantêm animais conversam mais sobre o presente e o futuro do que sobre o passado – uma atitude natural, se considerarmos que cuidar de um bicho de estimação traz, além de satisfações, preocupações e cuidados.
Cães, gatos, peixes, pássaros e cavalos também podem acelerar ou melhorar o restabelecimento de pessoas com doenças do corpo, da psique ou da alma. Segundo fisioterapeutas e psicólogos, atividades como tocar os animais e sentir seus movimentos vão além dos benefícios físicos: ajudam vítimas de lesões musculares a melhorar a coordenação motora e a recuperar a capacidade de locomoção. Pacientes de problemas cardíacos que mantêm contato com algum bicho vivem mais tempo do que aqueles que não têm nenhum. E crianças hospitalizadas se recuperam mais rapidamente se receberem uma eventual visita de quatro patas. A explicação encontrada por psicólogos para todo esse efeito benéfico é que a atenção dispensada a um animal de companhia nos transmite a sensação de utilidade, conforto e segurança. Segundo os veterinários, o contato com os bichos libera no corpo a célebre endorfina, uma substância que funciona como analgésico e relaxante natural. A dura batalha contra os sentimentos de solidão, depressão e ansiedade fica um pouco mais suportável com um companheiro animal por perto.
Os animais de estimação parecem ter jurado lealdade e companheirismo ao homem na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na glória ou na sarjeta – e, por isso, nos são muito caros. Mas, como as espécies selvagens, eles também despertam em nós um profundo sentimento de familiaridade e fascínio – o que Edward O. Wilson, biólogo da Universidade Harvard, chama de biofilia (literalmente, "amor à vida"). Criador da teoria conhecida como sociobiologia, Wilson entende que a sociedade humana evolui segundo as mesmas leis de seleção que comandam o mundo natural – ou seja, o comportamento humano teria mais a ver com os genes com que cada indivíduo nasce do que com o que ele aprende por meio da cultura. Wilson afirma que o homem tem necessidade biológica de manter laços com o mundo natural e, portanto, com os animais, nossos parceiros de evolução. Parceiros tão leais e aos quais estamos tão ligados que, mesmo depois de deixarmos de dividir com eles o ambiente selvagem, não nos permitimos excluí-los da vida "civilizada".
O primeiro indício concreto do elo afetivo entre um humano e um animal data de 12.000 anos. São os restos fossilizados de uma mulher abraçada a um filhote de cão ou de lobo encontrados em uma região que hoje corresponde a Israel. Mas suspeita-se que o homem tenha começado a conviver com algumas espécies, em um regime de colaboração mútua, muito antes de domesticá-las. Há mais de 140.000 anos, quando o homem ainda dependia da caça e da coleta para se alimentar, alcatéias de lobos já seguiam os bandos nômades, a fim de aproveitar as carcaças largadas pelo caminho. Há cerca de 10.000 anos, esse laço se estreitou (veja quadro). O cão começou a entrar em casa e canalizou seu primitivo espírito gregário e seu instinto de clã para aquele que veio a se tornar seu proverbial melhor amigo: o homem. "A coragem e a tenacidade com que um cão protege seu dono parecem ter origem na solidariedade que seus ancestrais selvagens encontravam nas alcatéias. Nesse sentido, o cão atual é um lobo que vive numa matilha humana", disse Edward Wilson a VEJA.
O homem, entretanto, escolhe bem as espécies com as quais vai compartilhar laços de afeto e cooperação. Às demais ele dá um destino bem diverso: o prato. O homem é, e sempre foi, um onívoro, capaz de atacar em todas as escalas da vida animal para garantir suas necessidades, inclusive a de satisfação do paladar, pois o prazer da carne é quase insubstituível. A idéia tem gerado alguma controvérsia nos últimos anos, mas continua bem estabelecida na antropologia: a ingestão de carne foi um dos grandes propulsores da criação da cultura humana. Em algum momento da evolução, os seres humanos tornaram-se muito mais carnívoros do que a maioria dos primatas. A dieta rica em proteínas acelerou o crescimento do cérebro – e o cérebro grande levou à criação da cultura. Ou seja, comer carne foi um dos pré-requisitos para o desenvolvimento da cultura entre os homens.
O processo entrou num ritmo conhecido. Quanto mais bem nutrido, mais bem-sucedido era o Homo sapiens – daí, maior a população humana e a necessidade de animais para mantê-la alimentada. Desde a época de nossos antepassados nômades, onde quer que os humanos coloquem os pés a vida selvagem corre risco de extinção. Foi o que aconteceu há 11.500 anos, logo após a chegada de grupos humanos à América do Norte, quando 73% dos grandes mamíferos da região desapareceram. Hoje, a expansão da população humana e suas vastíssimas conseqüências ambientais têm tal escala que alguns cientistas suspeitam estarmos diante da sexta extinção – a quinta aconteceu há 65 milhões de anos e varreu do planeta os dinossauros.
Para o biólogo inglês Desmond Morris, autor de O Contrato Animal, de 1990, o crescimento descontrolado da população humana é responsável por outro fenômeno ainda: o recuo da natureza e o isolamento do homem. A necessidade cada vez maior de alimentos e de terras cultiváveis levou à quebra das regras originais que permitiam ao homem dividir o planeta de maneira equilibrada com as demais espécies. Campos e matas, antes arenas de um embate justo entre presa e predador, cederam lugar a aglomerações humanas cujo mero tamanho implica a eliminação de populações inteiras de animais. A redução das áreas selvagens do continente africano e das florestas tropicais e equatoriais, como a Amazônia, últimas grandes reservas, prenuncia um mundo irremediavelmente dividido – de um lado, os humanos; do outro, todas as demais espécies animais, ou as que restarem.
Os bichos destinados ao prato, em contrapartida, acompanham o inchaço populacional. Para uma população mundial de 6 bilhões de humanos, as fazendas criam 22 bilhões de espécimes de bois e vacas, porcos, galinhas e perus. A transposição do sistema de linha de montagem para o universo agropecuário, no início do século XX, abriu a possibilidade de confinar grande número de aves e bovinos em espaços exíguos, à espera de sua vez no abatedouro. É um paradoxo: ao mesmo tempo que crescem a afeição dos homens por seus bichos de estimação e sua preocupação com a preservação dos animais selvagens, os espécimes domesticados cada vez mais se tornam apenas um produto industrial.
Imagine-se uma fábula do "tempo em que os bichos falavam", na qual o homem se sentasse à frente de um boi ou de uma galinha e, à moda dos casais humanos modernos, se propusesse a "discutir a relação". É bem provável que o animal começasse o diálogo com a questão: "Você precisa mesmo nos comer?". Se o representante dos humanos fosse o filósofo australiano Peter Singer, a resposta seria um sonoro "não". O autor de Libertação Animal, de 1975, e pai de um dos movimentos mais radicais de defesa dos animais, considera que o caráter utilitário que permeia o relacionamento com os animais é fruto do preconceito que o homem tem em relação às outras espécies – o que ele chamou de especicismo –, comparável apenas aos maiores horrores cometidos contra a própria humanidade, como a escravidão dos negros. Para Singer, que leciona bioética na Universidade Princeton, nos Estados Unidos, os animais devem usufruir os mesmos direitos concedidos a qualquer humano, por uma única razão: como nós, eles também têm capacidade de sofrer física e psicologicamente. Para o filósofo – que abraçou o vegetarianismo por razões éticas –, a questão central do relacionamento entre homens e animais é exatamente essa: por que comê-los? (veja artigo).
AFP
OS PREDADORES
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A resposta provavelmente é: porque podemos. A velha idéia, porém, de "superioridade" humana é cada vez mais contestada. No livro Humankind, a Brief History (Humanidade, uma Breve História, não traduzido para o português), o historiador inglês Felipe Fernández-Armesto, da Universidade de Londres, afirma que a ciência tem desmontado o arcabouço de argumentos sobre o qual se pôs a humanidade como uma categoria especial. Segundo ele, não existe nenhuma justificativa filosófica, antropológica, biológica ou paleontológica que legitime o poder que nos atribuímos. O código genético que define o homem, por exemplo, é 98% idêntico ao código de um chimpanzé. A própria separação entre macacos e humanos, ao longo da evolução, é confusa. O homem de Neandertal, por exemplo, recentemente foi reclassificado e excluído da árvore genealógica da espécie humana.
Não existiria, tampouco, nenhuma característica comportamental que defina os humanos como uma espécie única, separada de todas as demais – nem o domínio da linguagem nem a construção de ferramentas. Vários estudos de biólogos e psicólogos, realizados principalmente a partir da segunda metade do século XX, demonstram quanto é difícil delimitar as fronteiras entre o mundo humano e o animal. Um dos estudos mais impressionantes é o da especialista em comportamento animal Irene Pepperberg, da Universidade do Arizona. Irene se dedica a pesquisar a capacidade que aves "falantes" têm de se comunicar e de aprender. O maior sucesso de seus experimentos é "Alex", um papagaio-do-congo que não se restringe a repetir palavras. Alex conhece cores e domina conceitos abstratos, como a quantidade, as dimensões e a posição de objetos que lhe são mostrados – o que, na explicação de Irene, indica que essas aves são capazes de raciocinar como qualquer um de nós. Outro exemplo são os trabalhos da bióloga inglesa Jane Goodall com chimpanzés da Tanzânia. Em quarenta anos de pesquisa, Jane flagrou um dia-a-dia surpreendentemente humano. Os chimpanzés não só constroem ferramentas – como varas para "pescar" cupins e pedras para esmagar nozes – como transmitem a técnica de uma geração a outra, num processo extremamente semelhante ao que ocorre entre pais e filhos humanos – e que define o que chamamos cultura. Por que então os animais não compuseram sinfonias, escreveram romances ou inventaram a roda, o avião ou a bomba atômica? Fernández-Armesto diz que as conquistas intelectuais e tecnológicas nos separam de alguns animais apenas em gradação, não em essência. Ele conclui ousadamente: "Outros primatas próximos do homem não enveredaram pela aventura intelectual porque ela simplesmente em nada servia a seu estilo de vida. A evolução não os obrigou, como a nós, a produzir ferramentas mais requintadas do que as que possuem".
Por tudo isso, Fernández-Armesto acha que é hora de repensar o que define a humanidade – e, a partir daí, a relação entre homens e animais. Nesse ponto, poodles brincalhões ou lânguidos siameses possam talvez ter alguma utilidade além de nos dar conforto e companhia. Os animais domésticos simbolizam há muito o elo que manteve o homem intimamente ligado à natureza durante milhões de anos – um elo perdido durante o processo civilizatório. É por meio deles que temos a sensação de pertencer a um mundo que vai além do egoísmo e admite a possibilidade de que valha a pena olhar para o outro. A psicóloga e antropóloga Barbara Smuts, da Universidade de Michigan, parece ter encontrado a receita para retomar o caráter essencialmente natural do homem. Depois de anos estudando 140 babuínos na África, Barbara descreve, em A Vida dos Animais, de J.M. Coetzee, como só é possível manter um relacionamento de igual para igual com os animais de outras espécies ao abrir mão do papel de criador e reconhecer em cada criatura sua personalidade. Voltando à fábula de Anatole France: ao final da assembléia, Deus resolve conceder uma alma aos pingüins e, por conseqüência, transforma-os em homens. Talvez os animais possam devolver o favor e, ascendendo a algum desvão esquecido, chamado memória coletiva ou "alma", contribuam à sua humilde maneira para salvar o homem do seu maior inimigo: ele mesmo.