11/05/08 - 02h:38mDenunciar

Eesenha Crítica sobre o livro

Primeiramente, vejamos quem é o autor, bem como o lugar social de onde fala. Na internet, achei uma seguinte descrição: “Laurentino Gomes trabalha na Editora Abril há 20 anos, 15 dos quais foi repórter da revista Veja. Ao examinar a trajetória da revista Contigo!, ele começou a se interessar por marketing. Isso porque ela começou como uma revista de foto novela, passou a tratar de celebridades, em seguida se tornou popularesca e cobria a ficção, as novelas, e, em 2004, foi reposicionada, voltou a tratar de celebridades e se tornou mais elitizada, destinada agora às classes A e B. Esse é um exemplo de que o produto deve acompanhar o mercado e os consumidores e se adaptar de acordo com eles.”



Passemos ao livro. Como historiador, posso dizer que ele não traz nenhuma contribuição às pesquisas historiográficas, e que não passa de um engôdo de venda, em outras palavras, é uma publicação mercenária que visa apenas ganhar dinheiro. Como bom marketeiro, o autor inicia o livro dando ares da importância à sua obra - se é que podemos chamar assim… ? como a ?adaptação? em uma linguagem acessível.



Mais uma jogada de marketing, o autor propaga a idéia errada de que a linguagem dos historiadores é uma linguagem inacessível, o que reforça, por sua vez, o potencial de vendas de livros de história escritos por jornalistas (o que tem sido prática corrente nos últimos anos - e que não tenho muitas coisas contra, desde que se faça um trabalho sério, como o fez o jornalista Elio Gaspari, com sua série de obras em 4 ricos volumes sobre a Ditadura Militar no Brasil).



O livro não passa de uma compilação de outros livros de melhor gabarito e especializados sobre o assunto, sobretudo da obra de Manuel de Oliveira Lima (D.João VI no Brasil - de 1908) sendo telegráfico quase que na totalidade de suas páginas.



Vamos do início. Já na primeira frase do livro, o autor ergue a sua própria forca, quando diz: “Este livro é o resultado de dez anos de investigação jornalística.” Um livro de História, de acordo com o rigor que me foi ensinado por ilustres e bons professores que tive na universidade, deve trazer em si contribuições documentais colhidas a partir de métodos rigorosos, e não de pesquisas jornalísticas (não falo do uso de jornais como fontes, essa é outra história, e os jornais e periódicos trazem informações indispensáveis às pesquisas).



Um dos absurdos cometidos pelo autor é a utilização do Wikipédia como fonte de pesquisa. Mesmo admitindo a insegurança de tal fonte, Laurentino Gomes acredita que com cautela, esta enciclopédia on-line pode ser útil. Não acredito nisso. A Wikipédia, eu penso, é um manual do que costumo chamar de “Geração Google”. Uma geração onde todos sabem nada sobre tudo. Em uma pesquisa doméstica é até salutar o uso do Wikipédia, mas não em um livro de História do Brasil.



Outras fontes eletrônicas usadas pelo autor são de confiança bem maior, como o serviço de audiolivros em inglês, o www.audible.com, que fornece em seus arquivos mais de 20.000 livros, bem como o uso de podcasts no site do iTunes, que oferece muitas aulas do curso de graduação da Universidade de Berkeley, na Califórnia.



Mas, o Wikipédia é imperdoável como fonte histórica. Vou apenas citar um exemplo: Wikipédia informa que o presidente Prudente de Morais teria morrido no dia 13 de dezembro de 1902. Mas, a edição do Jornal do Brasil do dia 03 de dezembro de 1902 traz em sua manchete o informe da morte do presidente. Essa é apenas uma demonstração mínima dos erros a que estão sujeitos os que confiarem na Wikipédia como fonte de pesquisa. Eu não uso dados da Wikipédia nem para fazer trabalhos de faculdade porque corro o risco de colocar uma informação errada em meu trabalho.



O rigor das fontes não está entre os méritos do livro em questão, somando a isso o fato de não trazer nenhuma contribuição para o desenvolvimento das pesquisas em História, além da ausência de boas análises. Em uma palavra, é um péssimo livro, se visto do ponto de vista historiográfico, e não vale a pena ser lido.



Gastou o último capítulo com uma bobagem, uma inutilidade que me deixou boquiaberta. Será que o autor pensa que somos crianças? Pois ele dedicou o último capítulo “O Segredo” a narrar e descrever como o Marrocos, um personagem eleito por Laurentino, como Marrocos teve uma filha ilegítima. Ora bolas! Que que interessa saber se o raio do homem teve uma filha fora do casamento? Aí ele veio citando um site da Igreja dos Mórmons para identificar de onde tinha se originado a menina… uma viajem inútil.. Trabalho de amador coberto de muita malandragem.



Por outro lado, se nos esforçamos a um olhar de vista grossa para essas ponderações (e outras, que nem fiz), pode-se até dizer que é um livro interessante. Possui excelente acabamento editorial, com boas ilustrações e linguagem simples.



Possui excelente acabamento editorial, com boas ilustrações e linguagem simples.



Desta forma, digo que vale a pena ser lido, no sentido estrito de que não é perda total de tempo, e que existe um certo rigor, se diminuirmos alguns anacronismos e confusões entre nomes de grupos políticos e seus interesses. Muitos destes grupos e interesses, o autor fala livremente, quando, em verdade, tais idéias ou pensamentos são próprios de outras épocas da Monarquia, como por exemplo, o pensamento Abolicionista, que não deve ser confundido com Republicanismo e nem com Federalismo.



Para os que não estão preocupados com o rigor metódico das obras sérias e acadêmicas, artigos ou ensaios, etc., estes poderão ler o livro sem maiores preocupações, e engordar a conta bancária do autor.







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