11/04/07 - 23h:46mDenunciar

Os jogadores de peteca

Ao som da linda "Tomorrow Never Knows" dos Beatles...



Suspeito que esses dois sejam os italianos Arthuro Bandine e Francesco Zorzi, mas andam falando por aí que são "Ben"Edito Plancton e Valmor Plancton. Pelos olhares, acho mesmo é que estão disfarçados de Branco e Paulo, da Anarkaos...rsrs.



Aí vai um texto produzido pelo Branco...





Uma dor



Onório Lupércio tem 30 anos. Vive sozinho em uma casa a quatro quarteirões dos seus pais, em um bairro afastado de Arcos. Trabalha como mecânico em oficina nas proximidades de sua casa e sua especialidade é montagem de motor. 6 da manhã, o relógio desperta, parece que a cerveja com cachaça foi muita ontem. O mecânico levanta e caminha até a cozinha, coloca aproximadamente meio litro de água para ferver com quatro colheres de açúcar. Enquanto isso, vai ao banheiro. No rádio, toca “Go Back” dos Titãs. Ao voltar, pega o coador de pano e coloca duas colheres cheias de pó junto ao bule de alumínio. Vai à horta “panhar” quatro folhas de boldo e as lava. Com os dedos mesmo espreme as folhas em um copo grande com água e deixa repousar. Retorna ao quarto, pega seu maço de cigarros e acende um para coar o café. Ao encher sua caneca, ele vira o copo de boldo goela abaixo e dá o primeiro gole no doce e forte suco preto. Já é hora de ir para a oficina. Ao chegar, depara com a caminhonete da retífica trazendo o seu trabalho do dia.

_ “Onório, me ajuda a conferir se não falta nenhuma biela, casquilho e se os pistões não vieram trocados”, diz o motorista.

_Vamu lá... ...opa! Está tudo certo, chefe!

_ Que dia fica pronto?

_ Hoje, ponho para funcionar!

Onório parafusa o suporte no bloco do motor e o coloca nos cavaletes. Perto dali está Carlos Guabino, Kaká, que observa a movimentação em volta do motor. Trabalha na oficina como ajudante de todos os mecânicos, que ao todo são quatro. Vendo que Kaká está encostado, Lupércio o intima:

_Kaká, me dá uma mão aqui! Cê não quer ser mecânico?

_Quero sim, Onório!

Ao organizar as ferramentas, limpando-as com um chumaço de estopa, Carlos Guabino repara um magrelo conversando com seus colegas da oficina e aproxima para saber o que está acontecendo. Onório enfia a mão na lata de graxa e põe um bocado no suporte do cavalete para a montagem e lubrificação da máquina, pega uns casquilhos e começa a colocá-los no motor, sempre dando pingos de óleo com o dosador de óleo. E também repara a roda formada em volta daquele magrelo com cara de conhecido. O rapaz o chama para conversar a sós em um canto da oficina, após algum tempo não querendo acreditar nas palavras do magrelo moreno. Lupércio afasta-se e grita:

_Kaká tenho que ir para casa!

Já sabendo do assunto, Kaká responde:

_Pode deixar que iremos tomar conta de tudo!

Com passos largos, apressados e uma grande dor no peito, Onório tenta chegar o mais rápido possível. Pelas ruas sente que todos começam a olhá-lo com uma cara de piedade. Atravessando a rua, avista uma senhora que de longe o reconhece e coloca as mãos no rosto. Ele volta para o lado em que estava e, não querendo conversa, finge que não a viu. Passa direto, tira um cigarro do bolso da camisa com as mãos sujas de graxa e o isqueiro no bolso da calça. Acende sem demora, dá três tragos em seguida sem dispensar a fumaça dos dois primeiros e solta uma baforada, sentindo sua cabeça rodopiar. Vasculha os bolsos com as mãos e o cigarro entre os dedos a procura da chave do cadeado de seu portão. Ele entra em sua casa e nota que suas roupas e mãos estão sujas de graxas, vai ao banheiro para se lavar. Ao sair, troca de roupas e veste-se formal. Nota que suas botinas de passeio estão um lixo. Onório pega seu calçado e o leva para a sala. Abre uma gaveta na estante da TV, na qual encontra uma escova velha de dentes e uma pequena lata de pomada para sapatos. Põe-se a limpá-los sentado na cadeira em frente à TV. Primeiro, passa um pano para tirar a poeira. Depois, espalha um pouco de pomada com a escova de dente. Vai até a garrafa de café e serve mais uma canecada. Com a pomada meio mole ainda, começa a lustrar suas botinas. Onório relembra do dia em que o pai inventou de cozinhar uma galinha na panela de pressão, enquanto ao lado do fogão havia uma garrafa de cachaça que ambos já deliciaram. Aquela tarde de domingo tinha ficado marcada em sua vida. Sem lustrar a parte de traz dos sapatos, ele os calça e sai de casa com a camisa de botões ainda aberta. Lembra que a carteira ficou no bolso da outra calça e volta para pegá-la. Tranca a porta, passa pelo portão que só o encosta e, a passos largos e rápidos, vai para a casa dos pais. Subindo as escadas da porta da sala, encontra-se com seu irmão que o abraça e diz:

_Ele descansou, dois meses no hospital.

Onório sente o aperto do abraço e retribui, mas nenhuma lágrima desce de seus olhos. Vai até o quarto onde a mãe está, guiado pelo irmão e a abraça. Ela diz.

_A vida é isso meu filho, sempre uma dor por perto. Sem palavras fica ali por um bom tempo, sentindo o coração da mãe bater forte. Algum tempo depois, pergunta:

_Como foi?_Ontem à tarde ele estava bem, parecia que iria se recuperar do derrame, mas ao entardecer ele teve alguns espasmos. Achamos que não seria tão grave e não deveríamos te amolar, mas às 6 da manhã teve de novo e não agüentou. Ele descansou. Sem nenhuma lágrima, Onório sabia que seu pai viveu intensamente e desfrutou da vida o máximo que pôde, mas ainda estava indignado com Deus, e em sua cabeça sempre perguntava:

_Por que tem que ser assim? Por que nos tira quem amamos? Qual o sentido dessa dor?

autor: B.

3/4/2007 - 17h26m41s





The Beatles

Comentários (5)

jusmith
1. jusmith 11/04/2007 - 23h52m

Está aí Branco a sua receita de café: aproximadamente meio litro de água para ferver com quatro colheres de açúcar. Enquanto isso, vai ao banheiro. No rádio, toca “Go Back” dos *****ãs. Ao voltar, pega o coador de pano e coloca duas colheres cheias de pó junto ao bule de alumínio. Nossa, deve ser amargo esse seu café viu...rsrs.

2. B. 12/04/2007 - 08h08m

Toda receita tem um contexto!
Mas esse aí fica docim!

maritheusaeverde
3. maritheusaeverde 12/04/2007 - 11h34m

a cara de mau do paulo! hahaha

jukhouri
4. jukhouri 12/04/2007 - 15h40m

Excelente esse texto do Branco. Já tinha lido no site da Anarkaos... acho massa como ele tem habilidade de trabalhar as descrições... parece que ele vê exatamente aqueles detalhes que escreve... isso é um dom...
*
Juuuuu, adoro-te...
bjo

5. Wálisson 12/04/2007 - 22h42m

gostei do Texto! amanha é dia de show!

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