23/08/07 - 01h:52mDenunciar

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Os netos da Dona Dica e do Zezé Marinho e da Jovita e do Toinzinho...foto registrada sábado.



O Branco se parece com o Zezé Marinho...rsrsrs.



Fiz um texto no domingo do dia 12. Sei que está velho, mas vou postá-lo assim mesmo.





O cheiro da saudade



Têm pessoas que passam tão depressa por nossas vidas que às vezes nem percebemos a importância delas e vamos notar isso mais tarde, somente quando batem as boas lembranças. Isso ocorreu comigo hoje [12 de agosto], no fim da tarde, quando voltava de Belo Horizonte. Estava em um ônibus da Santa Fé com pouco mais de dez passageiros.



Ansiosa para chegar a Formiga, deixava a viagem seguir entre um cochilo e uma leitura. O meu lugar era a poltrona número 01. Ela me permitia assistir as paradas do ônibus e ver quem entrava e saía dele. Por volta das 18 horas, já próxima de casa e finalizando a leitura “como é a cabeça dos estudantes de jornalismo”, matéria da edição 121 da “Caros Amigos”, o Santa Fé parou. O ponto era de Betânia, comunidade rural que fica a poucos quilômetros de Formiga.



Um velho, com aparência de 70 anos, camisa branca e chapéu de palha, entrou, me cumprimentou e sentou em uma poltrona próxima à minha. Foi neste momento que o cheiro da saudade me chapou e as boas lembranças vieram. O senhor que não sei o nome tinha o mesmo cheiro do vovô José Caetano Leal, o Zezé Marinho. Um cheiro comum, característico de alguns roceiros apreciadores do “pito de paia”, como vovô mesmo chamava seus cigarros. Olhei para o lado e vi as mãos grossas do velho sobre a poltrona. Elas também se pareciam com as do meu avô. Comecei então a voltar no tempo.



As boas lembranças que eu tinha do Zezé Marinho, o velho sorridente que gostava de dançar catira, jogar truco e fumar “pitos de paia”, vieram em um dia bacana – Dia dos Pais. Tenho certeza que muitos da família se lembraram dele hoje, mas faltava eu. Vovô deixava os domingos no Córrego D’Areia mais agradáveis. Eles demoravam a passar e eram sempre claros. Estranho, não me lembro de dias nublados ou chuvosos no sítio dele.



Zezé Marinho foi um roceiro, mas um roceiro elegante (andava sempre com chapéu, roupas claras e um relógio de bolso na calça, além de um canivete que usava para debulhar o fumo). Foi um velho [o conheci assim], porém bonito demais. Acho que o amor faz a gente achar as pessoas mais bonitas.



Inúmeras vezes, o vi tocar vacas, tratar de porcos, cuidar do paiol e apanhar jabuticabas. Por várias vezes, ele me colocou no colo e me fez fumar “pitos de paia”. Dizia que eu podia experimentar que não faria mal.



O cheiro de hoje, de cigarro de palha impregnado no velho do ônibus, me fez voltar a um tempo bom, de inocência, me fez lembrar do Zezé. Essas lembranças só passaram depois que esse mesmo velho parou em um ponto antes do meu e levou o cheiro embora. Assim que desceu, o motorista foi logo comentando com o cobrador: “O cheiro do cigarro de palha fica mesmo na pessoa, parece que está até na alma.”



Em outubro, faz dez anos que o Zezé Marinho, apreciador do “pito de paia”, foi embora. Foi dormindo. Gostei de ter sentido hoje o cheiro dele, o cheiro da saudade.







Música que ouvimos sábado no Piero

Comentários (5)

veniceking
1. veniceking 23/08/2007 - 11h15m

gostei do texto, as lembranças boas ficam sempre armazenadas num canto do nosso cérebro. Os dias chuvosos passam, por isso não merecem ser lembrados.

anarkaos
2. anarkaos 23/08/2007 - 11h49m

Fantástico!
Além de dançar e fumar, adorava canturia, cachaça e tocar pandeiro, ou triâgulo, nos pagodes das roças. De vez em quando arriscava um "acordeão". Ficava a mostrar os rítmos dizendo:
_Isso é pagode, isso é forró, isso é "chanchado", Barroso (ou Bastião, ou Galego)!
Mas ele gostava mesmo era de alegria!
B.
Adorei seu texto Ju!

hellishwill
3. hellishwill 23/08/2007 - 21h02m

Saudade tem cheirinho sim... Eu não me lembro muito do meu avô materno e não conheci o paterno... Que bom que você tem um cheirinho de saudade do seu.
Beijinhos, Ju.

4. Lívia 24/08/2007 - 18h05m

the rock brothers..eheh
abraço!

5. Daniel Stark 29/08/2007 - 00h28m

Muito bem ju, adorei o texto. Engraçado que nos momentos em que vc nem imagina que vai lembrar de alguém que passou na sua vida e que vc gostou reaparece em sua lembrança com algum sinal como o cheiro ou alguma pessoa que lembre esse ente querido. Isso demonstra que os nossos sentidos preservam as minimos detalhes que nos fazem lembrar de alguem ou algum momento tal como o cheiro.Beijão pra vc!

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