10/02/08 - 16h:46mDenunciar

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ao som da "world wide suicide", do Pearl Jam...



Achei demais esse quadro do Retrô Cine Bar...rsrs.



Aí segue mais uma crônica feita na semana passada...





‘O piolho’



“Deus não é vingativo, é justo”. Ouvi isso hoje da minha mãe, justamente depois de ficar sabendo de um fato contado pela amiga Jô, ex-vizinha de muitos anos. Jô é muito bem casada, tem duas filhas lindas (Julie – 8 anos e Jennifer – 5 anos) e é cabeleireira, mas sempre vem à minha casa fazer escovas (diz que só eu sei escovar o cabelo dela). Desde quando virou mamãe, teve muito cuidado com as suas filhas. Até hoje, traz as garotinhas muito bem limpinhas. Porém, o fato contado por ela me chamou a atenção.

Sexta-feira. 8h30. A amiga chega à minha casa. Entra e, enquanto eu arrumo o seu cabelo, começa a me contar seus problemas (e quem não tem?).

Em um dos casos, Jô disse que estava chateada porque Julie havia sofrido preconceito na sala de aula. A garota, que parece índia (morena, de cabelo liso – bem diferente do cabelo mãe), havia pegado piolhos na escola. Por má sorte dela, um caiu em cima do caderno e a coleguinha que sentava ao lado viu. Segundo Jô, foi um berreiro dentro da sala. A coleguinha chorou, chamou sua filha de “piolhenta” e disse que não queria sentar perto dela (por medo de pegar piolho também). Julie traumatizou. Voltou chorando para a casa e não queria mais ir à escola.

Na hora me lembrei de quando Julie tinha a idade da irmã, 5 anos. Por várias vezes, vi Jô proibindo sua filha de brincar na rua com uma garota pobre que morava ao lado de sua casa (aqui no Ouro Negro – hoje, a família de Jô reside no Bela Vista). O motivo? A garota pobre tinha piolho e ficava muito na rua. Não seria boa companhia para Julie.

Eu fui uma criança “piolhenta” (qual criança não pega pilho? Isso é normal. E cabelo liso, assim como o meu e o da Julie, é mais fácil de pegar piolhos. Teve uma vez que minha mãe passou óleo de cozinha para ver se os bichinhos caíam. Na época, dizia que a técnica era boa, mas acho mesmo é que não tinha dinheiro para comprar shampoos específicos).

Também fui uma criança que ficava muito na rua. Apanhava da minha mãe, porque, como ela mesma dizia, era “rueira” demais. Gostava de ficar na casa de vizinhos, na casa de crianças como a Julie, que têm bicicleta, bonecas, garfinho, faquinha, colherzinha, panelinha para fazer comidinha e maçã (não me esqueço de uma vez que uma coleguinha [filha única, tinha as melhores bonecas e era mimadíssima pelos pais] veio para a minha casa comendo uma maçã e eu fiquei olhando – deveria ter 6 anos e comer maçã naquela época era a coisa mais incomum do mundo, assim como tomar sucos Tang: o jeito era tomar ‘Quisuque’ de groselha [aqueles que deixam a língua vermelha, como já disse Paulo, mas que eram uma delícia..rsrs]. Revoltada com a cena, minha mãe virou para a minha coleguinha e retrucou: Vai embora comer maçã lá na sua casa!).

Tem uma frase muito usada pela amiga Adelaide que é a seguinte: “Tudo é para melhorar a vida da gente”. E é mesmo. Outra coisa: “Deus não é vingativo, é justo”. Frase certa da minha mãe. Coitadinha da Julie e de tantas outras crianças que às vezes sofrem inocentemente pelos erros e orgulho dos pais. Crianças têm de brincar na rua, seja com as pobres e piolhentas ou não, têm de se machucar e de apanhar dos pais (o filho que não apanha dos pais dentro de casa, vai apanhar dos outros na rua).

Educação vem é de casa mesmo, não é da rua. Isso me faz lembrar de outro episódio que presenciei há um tempo. Estava com meus irmãos e suas esposas no Shopping Pátio Savassi, em Belo Horizonte, e Arlinho resolveu ir a uma livraria para conferir manuais de redação. Por um momento, vi mãe e filho olhando livros para comprar. O garoto, que deveria ter 6 anos, cismou com uma obra infantil e a mãe não queria levar [estava conferindo outra para ele]. Foi então que o menino começou a dar birra, a gritar e chorar, até que a mãe comprasse a obra que ele queria. Fiquei de cara. Nunca vi uma criança dar birra por causa de um livro e sim por brinquedos e doces. É bem certo que esse garoto, Julie e tantas outras crianças por aí traduzirão a seguinte frase popular: “os filhos são reflexos dos pais”.

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