10/04/08 - 00h:24mDenunciar

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Hoje, o colega de trabalho Flávio me mostrou um texto dele que me fez lembrar muito de uma canção da Sugarcubes. Lembrei-me também da música "Amanda" da Carolina Diz ( "por alguns trocados, ela é sua garotinha. Aqui dentro ou do lado de fora"...)



Aí segue o texto...



Amarelado



Um quarto sujo num hotel barato numa rua estreita. Seminua, aguarda na cama encardida. Aviso pra subir sozinha, calada e esperar – pronta – no quarto 23. Vai que alguém vê? Dá problema. Cadeia até. Aos 16, prestes a se vender pela primeira vez. Distrai a fome vendo os rabiscos na parede em volta da janela pequena. Nem medo nem preocupação. Os rapazes da rua ensinaram tudo-ou-quase pra ela em tardes escondidas atrás do entulho das construções.

O pouco corpo abre os braços e se estende na cama, até bem melhor que a dela lá no barraco distante, onde o pai aparece fedendo pinga de vez em quando, onde a mãe expirou faz dois anos, cinco meses e alguns dias.

Num arranco, a porta do quarto sujo do hotel barato na rua estreita se abre. Um moço de vinte e poucos chega bufando, cheirando a perfume caro, nem fala nada, pega o braço dela com força. Ela quer gritar, mas se ele..., precisa tanto, tanto. Sufoca o grito. Suporta.

Lá embaixo, o irmãozinho espera sentado em cima da bola velha. Brinca com os contornos do chinelo. Há poucas horas, disse à irmã que queria pastel e suco. Nem imagina que o moço subindo apressado, de olhos preocupados e carro preto bonito é aquele lá em cima que agora bate no rosto dela. Que o moço da roupa limpinha, parecida com a de gente da televisão, é aquele lá em cima que agora tem olhos mais vermelhos que o sangue deixado pela irmã no lençol amarelado. Que o moço que agora volta com a mesma cara esquisita jogou alguns dinheiros em cima da irmã encolhida na cama encardida. Ali, vendo o carro sair depressa, nem imagina as lágrimas no quarto escuro, dolorido – frio como nunca. Frio.

Minutos depois, descem ela, algumas dores e os dinheiros. Pega a mão do irmãozinho e segue em direção a uma barraca fumacenta. No caminho, murmura uma prece qualquer. Reza em intenção da inocência dele.



Flávio Roberto é jornalista e redator-chefe de "O Pergaminho"



Acho que o Flávio plagiou de mim a palavra "encardida". Uso-a muito para qualificar as mulheres "pastéis de feira", que, na minha opinião, são burras. São assim por escolha própria e não porque as dificuldades da vida, a condição social as obrigam. O pior de tudo: não cobram nada pelo serviço.



Gostei da frase "rezar em intenção da inocência dele"...um rapaz totalmente por fora da realidade da garota...





Sugarcubes - Birthday (tradução)



Aniversário



ela vive naquela casa ali na frete,

onde tem seu próprio mundinho.

se agarra com a terra com seus dedos e sua mão

ela tem cinco anos.

alinha minhocas numa corda,

mantém aranhas em seus bolsos,

coleciona moscas em um jarro

esfrega moscas de cavalo e as gruda em uma linha

ela tem um amigo

ele vive na porta ao lado,

eles escutam o tempo,

ele sabe quantas sardas ela tem,

ela arranha sua barba.

ela está pintando livros enormes,

colando-os juntos,

eles vêem um grande corvo;

ele desliza pelo céu

ela o toca.

hoje é um aniversário

eles estão fumando charutos,

ele tem um buquê de flores,

semeia um pássaro em sua calcinha,

eles estão chupando charutos

eles estão deitados na banheira,

buquê de flores.



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