18/08/08 - 22h:04mDenunciar

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Papai assina uma ficha de filiação ao Clube Atlético Juventude - Ouro Negro. É agora um dos diretores do mais novo clube esportivo de Formiga. Ê Cabana que gosta de um futebol...é daquele torcedor que briga com a televisão e até xinga jogador...rs. E eu continuo sem entender nada de futebol.

Aí segue um texto que, assim como minha mãe, também fiquei emocionada...

ELE

PAULO LIMA SORAGGI

Enquanto o cheiro do café adocicava toda a casa junto com o bolo de fubá, o homem em seu uniforme azul cheio de manchas negras colocava sua bicicleta na rua. Boné em riste cobrindo a calvície, ele partia com seus olhos verdes decididos. Acoplado ao guidão, um radinho de pilha ia dando as notícias locais num volume alto, pois a idade já espalmava em seus ouvidos. Crianças a caminho da escola apontavam o dedo e riam daquela mania singular. Ele não ouvia os gracejos e pedalava sua silhueta sob os ainda bruxuleantes raios de sol.

Na oficina, trabalho pesado em enormes galpões com esqueletos mecânicos espalhados na umidade fria. Sua tarefa era a de pintar máquinas tão grandes e intimidadoras quanto um tiranossauro. Os pneus das retro-escavadeiras tinham o dobro do seu tamanho. Seus braços, peões de trecho em vários rincões por muitos anos, já tinham dificuldades para lixar todos os membros do mastodonte de aço. Depois da aplicação da massa plástica, seu revólver disparava rajadas de tinta durante horas. Em seu bang bang de operário, o lenço seguia protegendo-lhe os pulmões do bandido tóxico. Tantos anos nesse duelo já haviam enferrujado seus pulmões e seu coração, porém, cada máquina pesada pintada naquele ateliê da graxa ganhava sua assinatura de mestre da perfeição. Um infarto trouxe a aposentadoria, mas os apertos domésticos precisavam de um complemento, afinal, a comida e o material escolar dos filhos tinham de ser dignos e limpos. Além do mais, os filhos não podiam ser como ele, impedido de estudar pela pobreza.

Depois da labuta, o homem tinha direito a seus anestésicos. Passava no boteco do Seu Juca Berinjela, pedia uma cerveja e uma cachacinha. Fígado com jiló e cebola acompanhava as conversas sobre o gol do Flamengo, o nascimento do filho do Omar Cabana, a falta d’água às quintas-feiras. Em casa, via o jornal e ia deitar cedo: o fim da ditadura e o dragão da inflação nunca foram maiores do que seu cansaço de homem legítimo.

Aos finais de semana, diversão com seu único filho homem. Ele o colocava na garupa da bicicleta e partia para o cinema. O operário era primo do dono do cineteatro e o ajudava na projeção de filmes. Numa tarde de domingo, comprou empada e guaraná para o menino se distrair enquanto projetava “Marcelino, pão e vinho”, a história do menino que ouvia conselhos de um Jesus pregado no crucifixo. Já a filha do operário, dona dos mesmos olhos verdes do pai e lutadora no seu primeiro emprego, ganhava do pai os beijos preocupados com o mundo ávido por devorar as almas dos jovens.

Em épocas natalinas, o homem enfrentava as vitrines. Durante os passeios com a família pelas ruas piscantes, o dedinho do filho só apontava para autoramas, bicicletas BMX e videogames Atari. “Meu filho, o papai não tem dinheiro para te dar isso, mas você vai ganhar uma coisa bem bonita no Natal”, ele dizia. Quando chegava a data inventada para escancarar as diferenças sociais e familiares, o pai entregava para o filho caminhõezinhos de madeira, pintados e filetados como gente grande. Enquanto o filho se distraía, as lágrimas do pai vertiam pelos autoramas dos meninos da rua, filhos dos sultões do Banco do Brasil ou da Receita Estadual. Logo o choro ia embora. Ele tinha amor demais para entregar para sua esposa e muita dignidade para banhar os filhos.

Este homem tem dificuldades para assinar o próprio nome e já demora demais para ler seu livro de orações. Este homem brota em choro enquanto escrevo este texto.

Este homem é o meu pai.




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