10/12/08 - 00:00Denunciar

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Ainda não havia lido Fernando Sabino...nem sabia da bonita amizade dele com a Clarice Lispector. Estou lendo-o e apreciando as inúmeras cartas enviadas à escritora...são sinceras palavras para "perto do coração".

Clarice,

(...) a gente procura ajudar-se a si mesmo apenas, e usa todos os caminhos, inclusive os indiretos, de cinco ou seis destinos que a gente pode tocar com as mãos. Ninguém ajuda ninguém, e a verdade é que estamos sozinhos, cada um consigo mesmo. Não ajuda porque todo gesto, toda palavra, todo movimento desinteressado visando uma realidade fora da nossa é mais egoísta que o mais sórdido interesse. Porque nasce do orgulho e pressupõe um julgamento. Não nos entregamos a ninguém: absorvemos. Todo gesto de ajuda é o extremo oposto da caridade: é um movimento simulado. Pressupõe um julgamento, e quem julga é Deus. Somos feitos à imagem e semelhança Dele e nos sentimos falhados porque não sabemos fazer milagres. A nossa vida inteira, desde o nascimento até a morte, é um milagre. Nós é que somos o milagre de Deus, porque estamos no mundo não como anjos decaídos, mas como homens – matéria de salvação. Quanto mais vivemos, mais nos perdemos e quando tudo estiver perdido estaremos salvos. Salvos pela humildade em dizer: perdi. Essa é a verdade para mim e não vejo nenhuma outra. Quanto mais avançamos nela, mais nos tornamos incapazes de dar ou receber ajuda, percebendo que todo movimento nosso e dos outros é simulado. A sabedoria integral de Cristo fez com que Ele morresse na cruz. Não podia fazer nada senão morrer por nós. E era Deus. Não somos deuses, e vivemos arremedando Deus. Somos capazes de conceber uma imensa cruz de papelão e sair pela rua com ela nas costas. E há quem morra, por orgulho, numa cruz de papelão. Mas tudo é mentira, é tudo falso e ridículo, não testemunhamos nada senão a nossa própria derrota. Os pobres de espírito não se mexem: bem aventurados os pobres de espírito...os ricos de espírito se desdobram em movimentos simulados, apregoam aos quatro ventos as virtudes elementares, o amor pela vida, a justiça, o sentimento humano. Pobre humanidade deles, do cotidiano sem mistério, da surpresa esperada em cada corpo, do segredo assassinado em cada boca. Tudo isso é horrível e me desespera. Não temos nada a fazer a favor de ninguém que não seja por orgulho. Só temos a oração e o amor. A oração humilde de cada noite, da ave-maria e do padre-nosso repetido muitas vezes, já decorado e sem sentido. É o amor dos homens em Cristo. Mas preferimos amar diretamente, com toda a nossa força, com toda a nossa “humanidade” e nossa “compreensão”. Compreendemos tanto que amamos nos homens e nós mesmos. Não temos a humildade da oração, nossa oração é muito complicada, logo vira discurso. Não temos nada senão nós mesmos, uma realidade obscura da qual fugimos, pelo testemunho dela como artistas. A arte não nos satisfaz porque não passa disso: é o testemunho de nós mesmos.
Gostei muito que você estivesse lendo a Imitação de Cristo, Clarice. Não resolve nada para mim, mas ajuda a pensar, purifica às vezes. O que é preciso é pensar sem truques, sem literatura. Nascer de novo a cada dia. (...).

Abraço com muita amizade,

Fernando.”

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