03/02/09 - 23:22Denunciar

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Ao som de “The One I Love”, da REM…

Você consegue ver poesia na água? Adélia Prado vê. Hoje, li um texto interessantíssimo sobre essa poetisa do cotidiano. Ele foi escrito pelo professor da USP Luiz Jean e está na edição 38 da Revista “Língua Portuguesa”, que, aliás, é excelente. Por enquanto não posso, mas ainda vou assinar esta revista. Quem puder desembolsar, eu recomendo assiná-la.

Segue parte do texto “A linguagem mística do cotidiano na poesia de Adélia Prado”:

Há experiências poéticas que são também religiosas, ao dizer que, de algum modo, seria da presença de Deus no cotidiano que se alimentam a arte e a percepção do belo. Adélia Prado expressa experiência do gênero. “Minha insistência no cotidiano é porque a gente só tem ele: é muito difícil a pessoa se dar conta de que todos nós só temos o cotidiano, que é absolutamente ordinário. Eu tenho absoluta convicção de que é através do cotidiano que se revelam a metafísica e a beleza; já está na Criação, na nossa vida”, disse Adélia.
A arte, para a poetisa, só floresceria como expressão de afirmação e louvor a Deus, pela beleza do mundo. “Admirar-se do que é natural é que é o bacana; admirar-se desta água aqui, quem é que se admira da água, a que estamos tão habituados? Mas a alma criadora sensível, um belo dia se admira desse ser extraordinário, essa água que está tremeluzindo aqui na minha frente e, na verdade, eu não entendo a água, eu não entendo o abacaxi, eu não entendo o feijão. Alguém entende o feijão? Admirar-se de um bezerro de duas cabeças qualquer débil mental se admira, mas admirar-se do que é natural, só quem está cheio do Espírito Santo. Eu quero essa vidinha, essa é que é boa, com toda a chaturinha dela e suas coisas difíceis...o cotidiano tem para mim esse aspecto de tesouro.” E ela recita: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes.
É questão de sensibilidade: o filósofo e o poeta não habituam um mundo diferente, mas sabem ver – com olhos de admiração – o sentido e a beleza que se encerram na realidade de cada dia. Para nós, a realidade deixou de ser objeto de contemplativa admiração e passou a ser opaca matéria-prima. A discreta simplicidade dos valores da poesia escapa à sufocante mentalidade consumista e massificada, amarga e reivindicatória, do homem que se quer auto-suficiente num mundo tecnologicamente domesticado, que, quando muito, só se deixa atingir por “efeitos especiais”: não por acaso “sofisticado” deriva de “sofista”.
Certamente, o fato de a arte remeter a Deus é mais aceitável quando estamos diante da beleza pura. É o mistério que é expresso na mística de Adélia Prado, que encontra Deus não só nas maravilhas das belezas manifestas da natureza, mas até nas situações prosaicas: das tripas de peixe, da poesia Casamento, ao sebo das peças de frigorífico, em “Duas horas da tarde no Brasil”.
Para Adélia, a beleza é uma experiência e não um discurso. Ela exemplifica esse conceito: num caminho habitual nos espantamos com algo (casa, obra, coisa) que já tínhamos visto: “Que beleza! Nunca tinha enxergado isso desse jeito!” É numa situação assim, avisa a poeta, que se pode dar graças: estamos tendo uma experiência poética que é, ao mesmo tempo, religiosa, pois nos liga a um centro de significação e de sentido. Como só Adélia Prado faria.

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra e vejo pedra mesmo”

O texto de Luiz Jean vem acompanhado da poesia abaixo, que eu adoro

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


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