05/02/09 - 12:05Denunciar

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O escritor cubano Pedro Juan Guitiérrez...habla corazon!


segue uma crônica bacana dele...

O mundo aos olhos do 'animal tropical'

Pedro Juan Gutiérrez

Em algumas igrejas de Roma, as pessoas que querem se confessar colocam moedas numa máquina e falam de seus pecados. Quando terminam, a máquina lhes impõe a penitência que possibilita expiar suas culpas.
Num hospital das Ilhas Canárias, alguns atendimentos aos pacientes são feitos por robôs, embora se saiba perfeitamente que um doente necessita do cuidado e do contato humano, que pode ser tão importante quanto - ou mais do que - os medicamentos. A lista poderia ser interminável. Todo dia, as máquinas invadem mais territórios humanos. E conseguem separar ou isolar mais as pessoas. Cada um se encápsula em sua pequena galáxia e tenta esquecer o resto.
Há explicações sociológicas bem convincentes para esta universalização da solidão. Mas eu diria que é mais um tema europeu e norte-americano. Um assunto típico dos países ricos. A solidão metafísica que todos sentimos alguma vez e que, inclusive, buscamos e desejamos, de tempos em tempos, é outra coisa, inerente à natureza humana mais profunda.
Falo da solidão que não se deseja. Da solidão doentia, típica da modernidade. Tenho tido a sorte de viajar pela Europa nos últimos 25 anos e me senti mordido ferozmente pela solidão na Suécia e na Alemanha, que, por acaso, são dois dos países mais ricos do mundo.
Ante essa solidão corrosiva a gente se sente indefeso e, então, sai em busca de companhia. E nem sempre se encontra com outra pessoa, porque cada um está encapsulado em sua própria caverna, ocupado em ganhar dinheiro ou seja lá o que for. Então, que se pode fazer? Como escapo da solidão que me inunda em seu silêncio deprimente?
Não quero falar da Suécia, porque em meu romance Animal tropical respondo a essa pergunta. Mas há uma pequena cidade da Saxônia, no sudeste da Alemanha, que visito anualmente no verão. Chama-se Chemnitz e é uma cidade antiqüíssima. Por ali passava a Rota do Sal na Idade Média. Me hospedo na casa de um amigo, pintor e escultor e, na maior parte do tempo, fico sozinho. Ouço música, pinto, vejo filmes pornô e os canais internacionais e revejo vez por outra as inscrições antigas em um lapidarium que fica a dois passos da casa. Também visito à tarde o bar Bukowski e porno-shops. Bebo uma dose de uísque e às vezes olho as fotos de Bukowski nas paredes. Fico entediado. Saio e olho de longe as putas alemãs e polacas que pululam lá fora, em frente às porno-shops. Não poderia me deitar com nenhuma delas, nem que me pagassem muito bem - tenho alma e vocação de dono, jamais de cliente - porque me parecem demasiadamente incolores e insípidas para meu gosto. Depois, continuo caminhando e vou a uma enorme área onde vendem carros usados muito atraentes, com apenas 40 mil quilômetros rodados e preços em torno de US$ 500. Assim passo o dia. Sem falar. Às vezes, de noite, encontro meu amigo em casa e conversamos um pouquinho. Bebemos vinho, fumamos tabaco cubano, ouvimos salsa cubana, recordamos as mulatas cubanas e sofremos saudade de Cuba. ''Sou alemão de nascimento, italiano pelo sangue paterno e cubano de coração'', diz meu amigo.
Isso é tudo. Resisto um mês ou pouco mais a essa monotonia e me parece um ano. Às vezes consigo afinal vender alguns quadros e em seguida regresso à pequena casa.
Na Suécia, na Noruega, tem sido pior ainda esta sensação de que sou um átomo absolutamente solitário vagando na atmosfera do planeta, flutuando no ar.

Comentários (2)

1. césar 05/02/2009 - 16h:50

grande juan!! meu escritor preferido atualmente. abraço, ju!

2. césar 05/02/2009 - 16h:56

grande juan!! meu escritor preferido atualmente. abraço,ju.

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