19/05/09 - 23:34Denunciar

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ao som de "coronas stomp", dos Los Coronas...quiero bailar con la música española de surf.

Foto/Sacchetta: Uma cubana, em algum lugar de Havana...rs.

Havana - Cuba-libre ao cair da tarde

Pedro Juan Gutiérrez

O TURISTA sempre quer se transmutar em visitante, e este, por sua vez, em explorador. Essa é a condição suprema do ser humano. A forma ideal de viver: explorar incessantemente nosso entorno físico, mental e espiritual. É a isso que devemos aspirar para duvidarmos, sempre e por princípio, de todas as coisas estabelecidas. O explorador vive em permanente risco, mas em compensação tem sempre um ponto de vista
diferente, mais interessante, talvez mais perturbador.
A esta altura do processo civilizador, os eventuais riscos já estão bem calculados. São os riscos da modernidade, ou seja, os que corremos em qualquer grande cidade do planeta. Já é praticamente impossível sermos devorados por um leão, por uma jibóia ou uma planta carnívora gigante.
Ou que uma manada de mamutes nos pisoteie e fiquemos feitos bolachas de aveia no meio da pradaria, enquanto um par de tiranossauros em duelo se engalfinha lá no horizonte. Também é pouco provável que sejamos atraídos pelo canto das sereias e naufraguemos contra os recifes.
Esses riscos, e outros ainda mais poéticos, são improváveis. Em Havana, por exemplo, existem zonas não freqüentadas pelos turistas que revelam a outra face da cidade. E há vários circuitos possíveis nessas entranhas. Um deles começa na estação ferroviária central. É um antigo prédio do início do século 20, povoado por uma variada multidão que sempre inclui alguns malandros, de quem é bom manter distância. São eles que vêm oferecer todo tipo de produtos "originais" a baixo preço: charutos, rum, quartos etc. É melhor não cair na conversa desse tipo de gente, em geral simpática, comunicativa, sorridente e nada
perigosa quando você os corta de saída (a não ser que o explorador ou a exploradora justamente namore a tentação de se perder em lugares mais profundos e escuros da cidade).
Nosso passeio pode começar à tarde, quando o calor já cedeu o bastante para a caminhada não ser cansativa. Da estação de trem seguimos para a zona do porto. No caminho encontramos dois monumentos vivos à industrialização de Cuba no início do século 20: os "elevados" de trem, que parecem esculturas sui generis, e um maciço de aço e ferrugem, a central termelétrica de Tallapiedra, tecnicamente obsoleta. Um dia tudo isso vai ser recuperado pela Agência do Historiador da Cidade, que faz um trabalho útil na parte velha, mas que ainda não chegou aqui. Depois, há duas opções: pegamos um táxi para contornar a baía e chegar ao bairro de Regla ou vamos a pé. Se estivermos entre novembro e março, esta alternativa é melhor. De abril a outubro faz muito calor e não é aconselhável dar longas caminhadas.
Mas a opção mais atraente é ir até um pequeno cais perto da central de Tallapiedra, conhecido como "el muelle de la lanchita de Regla". Em frente, o bar Two Brothers, um clássico de Havana, serve uma ótima cerveja, além dos coquetéis típicos: mojitos, daiquiri e cuba-libre. Também podemos saborear um almoço cubano. Tudo a preços módicos e num ambiente tranqüilo, às vezes com música ao vivo. Claro que, querendo lugares mais finos, a dois passos dali temos o Museo del Ron, a Lonja del Comercio e os restaurantes da praça de San Francisco. Só que tudo está cheio de turistas. Meu conselho é deixá-los para outro dia.
Agora é melhor seguir até o cais, fazer uma pequena fila, pagar a passagem, muito barata, e embarcar. O trajeto consiste em atravessar a baía da parte velha até o bairro de Regla. À medida que a lancha chega ao centro da baía, temos uma visão inusitada da cidade, com enormes navios mercantes em primeiro plano e o litoral ao fundo. Além disso, é a hora em que começa o longo crepúsculo havanês, com momentos espetaculares em que a cidade brilha como ouro.
Quando desembarcamos em Regla, mudamos de ares. A cidade estridente, caótica e malandra ficou para trás. Agora estamos numa vilazinha de ritmo lento e quase sonolento. Há uma velha praça sombreada por árvores enormes, rodeada de casas antigas e silenciosas. Perto, outro monumento industrial, a termelétrica de Regla, e a deliciosa igreja de Nuestra Señora de Regla, a Virgem negra, adorada por boa parte dos havaneses como Iemanjá, a orixá trazida da África vestida de branco e azul, cuja característica principal é ser a grande mãe.
Roteiro inusitado Quem gosta de arte moderna pode ir até o ateliê-galeria de Antonio Canet, junto à praça, em um casarão do século 18 reformado por esse artista singular, que cultiva a litografia e a pintura. E já que estamos em Regla, o ideal é andarmos ao léu por suas ruazinhas, que nos oferecem vistas interessantes do porto e da baía.Há alguns locais onde se pode comer peixe de excelente qualidade.
A volta também deve ser feita de lancha. Agora é diferente, pois de noite a vista do porto e da cidade é outra, talvez um tanto misteriosa, por causa da escuridão.Também mudaram os personagens.Havana não dorme, mas nessa zona do porto é bom ter cuidado e procurar locais em torno da Catedral, que oferece sua cúpula como referência permanente. O melhor desse passeio é que ele não consta nos guias nem costuma ser recomendado, no entanto se encontra dentro do perímetro de Havana Velha.Vale a pena fugir um pouco dos roteiros habituais e descobrir tudo isso em poucas horas, mas eu ainda acho que o mais fascinante são as pessoas. O caráter extrovertido e conversador do havanês, e do cubano em geral, é sem dúvida o principal atrativo para caminhar pelas ruas desta cidade.

Melhor época

Havana possui um clima quente e úmido, com a temperatura média anual de 25 ºC. Evite viajar em outubro e novembro, quando podem ocorrer furacões.

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