05/07/09 - 20:14Denunciar

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ao som de "Danger bird", do Neil Young...linda demais essa música.

Aí segue uma poesia do Manoel de Barros...é algodão-doce como o Young. Adoro! É o poeta-filósofo das coisas simples. Barros vê poesia em tudo, no balanço da criança, nas árvores e nos pássaros cantados por Neil Young...rsrs. Ah, se eu pudesse abraçá-los demoradamente...

Matéria de Poesia

Manoel de Barros

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia.
O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia. Terreno de 10 por 20, sujo de mato, e os detritos que nele gorjeiam, como, por exemplo, latas, servem para poesia.
As coisas que levam a nada têm grande importância. Cada coisa ordinária é um elemento de estima; cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia.
As coisas que não pretendem, como, por exemplo, pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia. Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado, como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia.
Os loucos de água e estandarte servem demais para a poesia.
O traste é ótimo, o pobre-diabo é colosso. As pessoas desimportantes dão para a poesia.
Qualquer pessoa ou escada, o que é bom para o lixo é bom para a poesia. As coisas jogadas fora têm grande importância. Um homem jogado fora também é objeto de poesia. Aliás, saber qual o período médio que um homem jogado fora pode permanecer na terra sem nascerem em sua boca as raízes da escória também dá poesia!
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia.

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