13/11/09 - 00:04Denunciar

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ao som de "no expectations", da Soulsavers...

Gilles Lipovetsky

Os indivíduos deixaram de ser conduzidos pelo coletivo. Eles não têm mais um grande objetivo coletivo que possa levá-los. Também houve uma mudança nas formas da educação. A gente gera filhos fracos, frágeis, e esse é um grande enigma para o futuro. Mas não há dúvidas de que a educação liberal gerou a fragilização em massa. Esse será um desafio para o século XXI. Deveremos reconquistar o espaço, mas a educação também, pois a gente vê pessoas muito frágeis, como se tivessem ficado sem força, e ali está um belo ideal: o que é educar? A gente não tem progredido muito nesse sentido. As nossas crianças não recebem uma boa educação. Como se diz agora, elas são hiperativas. Não têm senso dos limites. No futuro, deveremos pensar muito bem sobre esse assunto, já que há tudo por ser inventado. Não acho que isso possa durar muito tempo, pois não deixa de ser um grande desperdício humano. Os próprios pais reconhecem, com muita ansiedade até, que não sabem mais criar filhos.

As relações de trabalho têm alterado as relações entre os indivíduos. Outrora, eles pertenciam a grupos, eram operários, as relações existiam no nosso universo, não se pediam coisas complicadas. Hoje temos as demissões, há uma incerteza quanto ao futuro, as pessoas se questionam. Antes se dizia: “É o capitalismo”. Hoje também, mas além disso se diz: “Eu é que não sou bom, não estou à altura”. Vemos que a instabilidade no mundo do trabalho tem gerado falhas e coisas muito difíceis de serem encaradas para indivíduos que se questionam, que têm dúvidas sobre si. Ao mesmo tempo, isso gera um maior distanciamento entre o indivíduo e a empresa. As pessoas estão mais desconfiadas, elas sabem que sua posição não é perpétua. Portanto, o futuro pede indivíduos cada vez mais móveis, capazes de trocar de empresa e até de profissão. E por isso é que, numa situação geradora de tanta angústia, a educação tem tanta importância. Quanto melhor a formação, maiores as chances de encontrar um novo emprego. Se não tiver uma formação inicial, a situação se torna trágica. Por isso, no século XXI, a hipermodernidade deve fazer um tremendo esforço em matéria de educação, de formação. Caso contrário, geraremos indivíduos que sempre serão rejeitados, e isso é algo terrível.

São várias as causas do mito do durável. Primeiro, as razões ecológicas. Temos hoje uma cultura totalmente diferente, em que as pessoas começam a entender, acham imoral jogar tudo fora, desperdiçar... afetaria as próximas gerações. E uma segunda razão é que persiste o gosto pela novidade, mas o antigo reconquistou um certo valor. Eu sou da geração que gostava do novo. Hoje, a gente vê o gosto pelas coisas velhas, pelo vintage[1], pelas antiguidades. O passado recuperou um certo valor, porque a modernidade está mais angustiada e não estamos mais vivendo numa fase na qual se cultua apenas o moderno, o novo. O que dura gera uma certa segurança, uma marca do tempo contra a sociedade do efêmero, do digital, do virtual. Há nisso algo tangível, um pouco nostálgico também. Essa é uma tendência do consumo, não a única.

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