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ao som de "whatever happened to my rock and roll", da Black Rebel Motorcycle Club...

Em uma tardinha fria, encantamento: Jardim Luxemburgo é um luxo.

BRIGA NO BECO

Adélia Prado
Bagagem (1976)

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.

Dias atrás levei meu pai a Divinópolis para passar por uma cirurgia. Deixamos o carro no prédio onde meu irmão Branco reside, na Rio de Janeiro, e eu, Branco e papai fomos a pé ao Hospital São Judas Tadeu, que fica no Centro, bem pertinho do apartamento do meu irmão. Ao chegar em uma esquina da avenida do hospital, encontrei Adélia, com seus cabelos branquinhos e de óculos, parada na calçada, pensativa, olhando para o alto (não sei se olhava para o céu ou para algum prédio à sua frente). Fiquei com uma vontade gigante de parar e lhe pedir um autógrafo, mas tive vergonha (sempre sinto vergonha das pessoas que eu gosto e admiro), receio de incomodá-la. Adoro os versos dessa poetisa.

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