05/05/06 - 12h:18mDenunciar

PJ Harvey

Ouvi algumas músicas da PJ hoje...tem uma que ela canta com Thom York, do Radiohead, que é demais.



Vou postar mais uma crônica hoje...só que essa é do incrível Millôr Fernandes...foi enviada pelo amigo guitarman Aleks Cabral...adorei Aleks...acho que estou precisando usar mais essa expressão "Foda-se".



FODA-SE



(Crônica de Millôr Fernandes)



O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-

se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.

"Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na

Constituição Federal.



Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para

prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes

e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua.



Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita

quantidade do que "Pra caralho"? “Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão

matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?



No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" não o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.



Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral?

Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: “Marquinhos, prestatenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.



Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma! O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.



Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.



E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"?

E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no

olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e

aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao

canalha de seu interlocutor e solta:

"Chega! Vai tomar no olho do seu cu!"? Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face,

olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado e amor-íntimo nos lábios.



E seria tremendamente injusto não registrar aqui a

expressão de maior poder de definição

do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de

vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e

arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora

complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu

autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa.

Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de

habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar:

O que você fala? "Fodeu de vez!".



Liberdade, igualdade, fraternidade - e foda-se!













Comentários (6)

1. Flávia 5/05/2006 - 13h55m

AMO ESSE TEXTO!!!
Ow, nem comenta mais meu flog, tô de mal!!

2. Ju Khouri 5/05/2006 - 14h40m

AAAAMMMMMEEEEIIIII esse texto... excelente... eu ainda tenho minhas reservas, mas penso que é perda de tempo ficar me contendo..rsrs... achei muito divertido... bjão

3. Fabinho 5/05/2006 - 14h50m

Só gostaria de dizer que copiei o texto e arquivei aqui em meu computador,,onde costumo guardar textos interessantes.........só isso...a..tem outra coisa tbm, mas esqueci agora,,não peraíi,, lembrei..não ,né isso que eu ia falar não..deixa pra lá...flow Jú

maritheusaeverde
4. maritheusaeverde 6/05/2006 - 00h27m

graaande!!

5. Thalles Thompson 6/05/2006 - 17h37m

olá...tá bllz....seu texto é maravilhoso..mas aqui, voc~e curte the cure????? então me add no msn pra gente trocar umas idéias! tsukuyomi_shirou@hotmail.com

veniceking
6. veniceking 7/05/2006 - 03h32m

q rox o texto, ele é bom pra pessoas com baixa estima, vo começa a xinga os outros agora

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