10/05/06 - 11h:43mDenunciar

Arctic Monkeys

Texto enviado pelo amigo músico e poeta César...



Retrato do crítico de rock quando velho (kudos to J.Malcher)

Music News - 9/5/2006- Por Rock Press - Carlos Eduardo Lima e Cláudia Reitber



Você é fã de rock? Gosta? Ouve apenas pra pular? Acha que as letras das músicas são importantes ou é movido apenas pelo som das guitarras? Vai para a noite atrás das menininhas(nhos) sob o manto protetor da rebeldia que o rock lhe confere? Quer ser in no clubinho dos descolados? Ou você é um dos que param pra pensar depois de ouvir uma música? Imagina o que o autor estava vendo quando escreveu ou compôs a canção? A partir disso, procura por conta própria ouvir mais e mais coisas? E daí pra frente, procura ouvir o que seu artista predileto ouviu antes? Talvez antes mesmo de você nascer? Sou um velho crítico de rock aos 35 anos de idade. Na verdade, farei 36 anos em julho próximo. Perdi no meio do caminho, talvez em algum lugar dos anos 90, a minha capacidade de ser impressionável. Substituí pelo ceticismo, sem que notasse. Claro, esses processos são inconscientes e se dão naturalmente, nada é planejado. Por algum revertério, não perdi totalmente a ingenuidade com o rock, talvez ainda acredite numa boa letra, numa boa canção. O mundo já foi mudado por boas canções. Eu sou um sujeito nostálgico, entendam. Eu ainda ouço Electric Light Orchestra e Beatles. Dêem um desconto. Mas esse texto não é sobre mim. Seria chato e egoísta demais. É sobre as outras pontas desse triângulo que move o chamado "fluxo e refluxo do rock". Claro que é um neologismo, mas só podemos perceber isso levando em conta o próprio artista e os fãs, além do crítico. Antigamente era assim: banda soltava disco, crítico emitia opinião, povo comprava ou não. Hoje é assim: crítico ouve falar, banda ainda não existe, povo não tem conhecimento. Ou banda não tem conhecimento, crítico não existe, povo ouve falar. A música pop, finalmente, está na cama da UTI, revirando os olhos. Não se iludam com bandas que lançam um disco e são capa das revistas inglesas que vivem de colocar bandas na capa. Elas serão olvidadas amanhã, para que outra possa assumir seu papel nessa degeneração cultural que se transformou a indústria musical. As novas bandas, de 2000 pra cá, são formadas por moleques de 17, 18 anos. Isso é legal, isso é bom. "Isso é punk, meu." Mas, me diga, qual é a diferença entre bandas de moleques nos anos 2000 e bandas de moleques nos anos 70? O conhecimento musical. Não venha com a suposição cínica de que música é só sentimento e que não precisa de bula. Não precisava porque era espontânea. Hoje, faz-se necessário. Seria ótimo que uma banda surgisse com conhecimento de causa musical. Não existe. Não deveria ser aceitável aceitar uma formação como Arctic Monkeys, de Sheffield, Inglaterra, que começou a tocar rock decalcando o primeiro disco dos Strokes, de 2000. E por que essa tal banda cometeu a mais bem sucedida estréia desde os Beatles? Pense bem nisso. Desde os Beatles. O som deles é algo relevante a esse ponto? Traçando um paralelo com o Detonautas Roque Clube, do Rio de Janeiro. Não fique irritado/a, é a mesma moeda, na mesma face, com uma leve vantagem para os DRC, que têm três discos lançados. Pois bem, a banda carioca quis fazer um disco de rock mais rock (um discreto pleonasmo) e procurou ouvir The Who e Led Zeppelin. Como assim? Não é necessário gostar, mas, como fazer ou ouvir rock sem conhecer Who ou Zeppelin? Claro, o tempo acabou por transformar as bandas anteriores em intérpretes das influências, papel que deveria só existir enquanto elas estivessem ativas, portanto, influenciando também. Se eu gosto de Red Hot Chili Peppers, por que eu gosto? Eu sei de onde vem o som? Flea e seus amigos criaram aquilo? Não importa, o que importa é que é bom. Aí está o erro, ou melhor, o que gera um Alzheimer cultural na geração que aí está, nos palcos, incensada por uma multidão torta de nerds cínicos que constituem um público zumbi capaz de recitar mil nomes de bandas mas não é capaz de sentir absolutamente nada. Ou, pior ainda, que se contenta em ouvir a quinta ou sexta versão dos mesmos três acordes. Franz Ferdinand, Strokes, Arctic Monkeys, Clap Your Hands And Say Yeah, alguns com seus méritos, outros envoltos em benevolência e beneplácito da crítica burra e imberbe de alma, grassam absolutos, envelhecendo as formações que ainda têm muito para dar. Nota discreta: se uma banda já tem dez anos ou mais de três discos, não é mais novidade, não é mais rock, não é mais capaz de impressionar. Isso tudo é verdade? Claro que não. Não totalmente. O texto é radical, de propósito. Há um sem numero de exceções a estas regras que fazem com que a gente ainda confie no fã de rock. Porque o rock não morre e isto está provado praticamente pela ciência. O fã de rock é que pode morrer, envolto na névoa de uma modernidade que só serve para distraí-lo do que importa. Que o restringe no trinômio sucesso-grana-cinismo. Tudo está sendo jogado na cara do jovem, ao mesmo tempo, como nunca foi. As bandas, repito, são produtos que ficam numa prateleira. Se não comprarmos, ficarão lá. O consumidor de rock está na prateleira errada, comprando o mais fácil, o mais barato, o mais colorido. Se você é um deles, acorde. Ou não. Nota: depois de terminar esse texto, me dei conta de que ele se parece com vários outros que já escrevi para a Rock Press, em dez anos de participação. Não temo ser repetitivo, claro que não é por um texto que as pessoas mudarão sua dinâmica de ouvir as músicas que mais gostam. Música, talvez, não seja mais que um agrado nos ouvidos de quem ouve. O chato é que o mundo é transformado por ela, já o foi antes e, de tempos pra cá, tudo tranforma o mundo, menos a música. Não é aceitável que ela seja um dos fatores que impeçam o mundo de mudar. Portanto, a repetição do assunto, infelizmente, é necessária.

Comentários (1)

1. Flávia 10/05/2006 - 13h20m

Ai, que preguiça de ler isso tudo... :P

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