09/06/06 - 11h:41mDenunciar

'Escada fechada'

Quarta-feira desta semana a Câmara Municipal deu entrada a uma projeto de lei que doa essa escadaria [que liga a Praça Ferreira Pires à estação] ao Clube Centenário de Formiga. A proposta estabelece ainda o fechamento dela entre as 19 e 7 horas. A idéia, que partiu do presidente do Legislativo, Gonçalo de Faria, é coibir o uso de drogas e violência no local. A boa dele intenção não vai funcionar. A escada é um bem público e todo cidadão tem direito de ir e vir onde quiser. Fechá-la com grades e portões não é resguardar e garantir a segurança dos cidadãos que frequentam o centro da cidade. Fico pensando, porque que o poder público não iveste em ações culturais para coibir essa prática em Formiga, ações que irão promover a educação das pessoas. Já que não há arte nas praças, poderia haver uma ação cultural na própria escadaria, que ao meu ver não pode ser doada a clube algum.



Aí vai o final de uma história de um livro escrito pelo meu irmão Branco, que por coincidência fala sobre a escadaria...



Certo domingo, após o almoço, saí para dar uma volta pelo Centro. Encontrei-me com Thom. Sentamos na porta da agência dos Correios e fumamos cigarros Derby. Ele me disse que tinha pedido um tempo a Leila há uma semana e que ainda não reatara com Sueli. Fomos ao bar de frente e pedimos duas vodka com martine. Tomamo-las em três goles. De repente, senti um tapa nas costas. Virei e vi Roberto, irmão de Thom, que há quatro anos não o encontrava. Disse-me que estava morando em Belo Horizonte, em uma república. Ao voltarmos para a porta da agência dos Correios, Roberto me contou que abrira um boteco no Centro da cidade e que lá rolava um som muito legal. Mais que depressa fui conferir.

Ao caminhar para o boteco avisto Leila com algumas amigas, mostro-a ao Thom e eles trocam apenas acenos.

A uns vinte passos da agência dos Correios, na escadaria do Clube Centenário, uma minúscula porta e uma escadinha dava de frente para o bar. Pedimos uma cerveja para os três. O barman nos serve com bom grado, escuto um barulho e vejo cinco pessoas entrando no recinto que mal cabia nós três. Era o pessoal da No Control e da Slow Crash, que também pediram cerveja. Fomos para a escada.

Ao sentarmos, Thom avistou Sueli e, nos mostrando-a, apenas acena para a garota que o retribui com o mesmo gesto.

Os outros que não cabiam no boteco também saem e o barman enxugando alguns copos emenda dizendo:

_Pô! Aí! Vocês bem que podiam fazer um show nessa escada agora à tarde, estão todos à toa mesmo!

Um minuto de silêncio e todos começaram a olhar um para a cara do outro e dizer:

_É mesmo!

_É mesmo!

_É mesmo!

_Rola??

_É lógico que rola, isso aqui é público e a energia elétrica tem aqui no meu bar!!

E assim começou uma movimentação para arrumar carros e buscar equipamentos. Em menos de duas horas estavam todos ajudando a montar bateria, caixas, amplificadores, microfones, guitarras e baixos no local. Na primeira passagem de som, aparece um senhor e diz:

_Essa escada pertence ao Clube Centenário e é proibido tocar aí.

E um grito de dentro do bar atravessa a parede:

_Não vem com essa não! Eu aluguei isso aqui e tenho direito de fazer o que bem entender na minha calçada!

E o retruco vem na hora:

_Quem é que está falando?

O rapaz sai de dentro do bar e diz:

_Eu!

E o outro:

_ Bem, você tem direito apenas na metade da escada e você só pode montar na metade que lhe diz respeito.

E o lavador de copo diz:

_Aí pessoal, deixa a metade para a passagem desses molengas do Clube Centenário e montem o equipamento do lado de cá!

Após alguns minutos, está a Slow Crash a todo vapor a tocar e vai se formando uma multidão na praça, umas três mil pessoas. Nunca se vira uma coisa dessas em Formiga. De três em três músicas, a formação de bandas se muda. Participam Bodeus Blues Band, No Control com uma nova baixista e Slow Crash, na qual o guitarrista vai para a bateria e o antigo baixista do No Control assume o contra-baixo. Com isso, se forma uma miscelânea musical, chega músicos da cidade inteira para participar da confraternização. Alguém da platéia pede para tocar “I could have lied”, da Red Hot Chilli Peper’s. Um trio começa a tocar. Roberto me cutuca e me mostra uma cena: Sueli e Leila no alto da escada se beijando. Mostrando a cena também para Thom, vimos em seus olhos a sua morte.

Comentários (3)

1. B. 9/06/2006 - 14h41m

Exmo. Sr. Gonçalo de Faria, coibir o uso de drogas e violência é dar oportunidade e integração social aos jovens e adolecentes.
A escada não faz mal a ninguém, o sistema de governo dos nossos representates, sim! A escada não vai fugir do local e nem usar drogas, pra que cercar com grades?
A doação da escada a um clube é "Transferência de Renda" dos que pagam seus impostos para um grupo seleto que ao meu ver não estão prescisando de doação nenhuma.
Esse Projeto, que me desculpe, é a af

2. Ju Khouri 10/06/2006 - 10h46m

Ju, eu concordo com suas colocações, mas te digo uma coisa, no ofício enviado pelo Gonçalo à Prefeitura, foi pedido um tipo de estudo, em relação à viabilidade. O projeto, tal como foi escrito, é de origem da Prefeitura. Também acho que é mais importante o investimento em politicas culturais e sociais, porém o poder Legislativo é muito limitado... por mais fachada que tenham, não têm uma atuação irrestrita. A Câmara, por exemplo, não pode apresentar nenhum tipo de projeto que gere custos.

3. Ju Khouri 10/06/2006 - 10h50m

e investir em cultura ali, inevitavelmente, precisaria de um mínimo de capital. Mínimo que seja. NÃO ESTOU DEFENDENDO O FECHAMENTO DA ESCADARIA, estou apenas comentando que a burocracia e outras questoes políticas dificultam muito a chegada rápida em bons resultados. São boas as intenções e difíceis execuções... em muuuuuuitos âmbitos.
JUUUUUUUU, te adoro muuuuuito, mas não resisti a sua postagem...rsrs.. é meu emprego, né?!!

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