09/08/06 - 01h:58mDenunciar

Escadaria

"Rejeitado projeto de lei que permitiria o fechamento da escadaria ao lado do Clube Centenário"



A idéia de fechar a escadaria ao lado do Clube Centenário, no Centro, não deu certo. O projeto de lei que permitia o ato entrou em votação anteontem e foi derrubado pela Câmara Municipal. Pelo menos quatro vereadores falaram, durante a reunião, contra a proposta, que determinava ainda a doação da escadaria para o Clube Centenário, instituição particular.



O projeto previa o fechamento do local de 19 às 7 horas do outro dia. Isso para coibir o vandalismo e uso de drogas. A escadaria é um bem público e todo cidadão tem direito de ir e vir onde quiser. Fechá-la com grades e portões não seria resguardar e garantir a segurança dos cidadãos que frequentam o centro da cidade.



Todos os vereadores que foram contra a proposta sugeriram revitalização e promoção cultural do lugar. Se isso fosse realmente feito, poderíamos até voltar aos anos 90, quando jovens formiguenses iam para a escada e, com a aparelhagem improvisada, faziam um rock legal...





Aí vai o final de uma história de um livro escrito pelo Branco, que por coincidência fala sobre a escadaria...só para relembrar o assunto...



Certo domingo, após o almoço, saí para dar uma volta pelo Centro. Encontrei-me com Thom. Sentamos na porta da agência dos Correios e fumamos cigarros Derby. Ele me disse que tinha pedido um tempo a Leila há uma semana e que ainda não reatara com Sueli. Fomos ao bar de frente e pedimos duas vodka com martine. Tomamo-las em três goles. De repente, senti um tapa nas costas. Virei e vi Roberto, irmão de Thom, que há quatro anos não o encontrava. Disse-me que estava morando em Belo Horizonte, em uma república. Ao voltarmos para a porta da agência dos Correios, Roberto me contou que abrira um boteco no Centro da cidade e que lá rolava um som muito legal. Mais que depressa fui conferir.

Ao caminhar para o boteco avisto Leila com algumas amigas, mostro-a ao Thom e eles trocam apenas acenos.

A uns vinte passos da agência dos Correios, na escadaria do Clube Centenário, uma minúscula porta e uma escadinha dava de frente para o bar. Pedimos uma cerveja para os três. O barman nos serve com bom grado, escuto um barulho e vejo cinco pessoas entrando no recinto que mal cabia nós três. Era o pessoal da No Control e da Slow Crash, que também pediram cerveja. Fomos para a escada.

Ao sentarmos, Thom avistou Sueli e, nos mostrando-a, apenas acena para a garota que o retribui com o mesmo gesto.

Os outros que não cabiam no boteco também saem e o barman enxugando alguns copos emenda dizendo:

_Pô! Aí! Vocês bem que podiam fazer um show nessa escada agora à tarde, estão todos à toa mesmo!

Um minuto de silêncio e todos começaram a olhar um para a cara do outro e dizer:

_É mesmo!

_É mesmo!

_É mesmo!

_Rola??

_É lógico que rola, isso aqui é público e a energia elétrica tem aqui no meu bar!!

E assim começou uma movimentação para arrumar carros e buscar equipamentos. Em menos de duas horas estavam todos ajudando a montar bateria, caixas, amplificadores, microfones, guitarras e baixos no local. Na primeira passagem de som, aparece um senhor e diz:

_Essa escada pertence ao Clube Centenário e é proibido tocar aí.

E um grito de dentro do bar atravessa a parede:

_Não vem com essa não! Eu aluguei isso aqui e tenho direito de fazer o que bem entender na minha calçada!

E o retruco vem na hora:

_Quem é que está falando?

O rapaz sai de dentro do bar e diz:

_Eu!

E o outro:

_ Bem, você tem direito apenas na metade da escada e você só pode montar na metade que lhe diz respeito.

E o lavador de copo diz:

_Aí pessoal, deixa a metade para a passagem desses molengas do Clube Centenário e montem o equipamento do lado de cá!

Após alguns minutos, está a Slow Crash a todo vapor a tocar e vai se formando uma multidão na praça, umas três mil pessoas. Nunca se vira uma coisa dessas em Formiga. De três em três músicas, a formação de bandas se muda. Participam Bodeus Blues Band, No Control com uma nova baixista e Slow Crash, na qual o guitarrista vai para a bateria e o antigo baixista do No Control assume o contra-baixo. Com isso, se forma uma miscelânea musical, chega músicos da cidade inteira para participar da confraternização. Alguém da platéia pede para tocar “I could have lied”, da Red Hot Chilli Peper’s. Um trio começa a tocar. Roberto me cutuca e me mostra uma cena: Sueli e Leila no alto da escada se beijando. Mostrando a cena também para Thom, vimos em seus olhos a sua morte.

Comentários (3)

jukhouri
1. jukhouri 9/08/2006 - 08h10m

Ju, já que a escada ainda é um espaço público... não é propriedade privada, bem que poderia ser palco, novamente, de um show, não é mesmo... bjo, amiga...

rednewvideomaker
2. rednewvideomaker 9/08/2006 - 08h51m

Será quando que as autoridades de Formiga vão perceber que a juventude precisa é de incentivo a cultura. Que murros e grades não coibe e não dá oportunidades para aqueles que vivem nas margens. Este local representou ou ainda representa muito o contraste social da juventude de Formiga. Espaço publico que foi muito bem aproveitado por aqueles que não podiam freqüentar o privado. Lembro que nesta escada nos anos 90, a interação era tão boa , que muitos associados desciam preferindo ficar...

rednewvideomaker
3. rednewvideomaker 9/08/2006 - 08h52m

com os amigos que não podiam entrar no clube. Bons tempos estes! Já cogitamos até a ideia de fazer um filme deste livro do Branco. O que falta para concretizar é apoio!

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