20/09/06 - 01h:06mDenunciar

"O Wolverine do Rock"

Muito interessante a entrevista que o Nasi deu à "Caros Amigos"...além do IRA!, esse "porra louca", que é filiado ao PC do B, fala sobre a Ordem dos Músicos, o movimento punk, a política, as drogas, o jabá, a pirataria, os anos 80 e outros assuntos...



Como a entrevista é muito grande, vou postar alguns trechos...o restante pode ser conferido no www.carosamigos.com.br



Paulistano criado no Bexiga, Nasi foi um dos líderes do agitado cenário musical dos anos 80. Junto com o seu amigo Edgar Scandurra, montou o IRA! no auge do movimento punk, do qual faz duras críticas. Hoje, Nasi divide seu tempo entre o IRA! que completa 25 anos no próximo mês e seu novo disco solo Nasi – Onde os Anjos não podem pisar.



Movimento punk



Você pegou o começo do punk?



Nasi - Peguei, claro.



Como foi o começo do punk? Ele foi importante e é pouco falado, né?



Nasi - O movimento punk em São Paulo foi um movimento rápido, forte e social. O punk, pelo próprio niilismo, se autodestruiu, as bandas se destruíram. O punk em São Paulo era dividido em duas turmas. A turma da Vila Carolina, que é a do Clemente (vocalista da banda Inocentes) e de todas as bandas que fizeram o histórico disco O Começo do Fim do Mundo e, por outro lado, tinha a turma rival e acabavam se pegando, que era do Grande ABC. O primeiro show do IRA! foi na PUC com algumas bandas do ABC. Essa turma se encontrava na Galeria do Rock (ponto de encontro de roqueiros da capital paulista). Lá se juntavam garotos desempregados e subempregados, garotos proletários que usavam a música como porta-voz da falta de futuro e de perspectiva que existia. Isso, junto com o caldo que vinha do movimento do rock simples que qualquer um podia aprender a tocar, que existia na Inglaterra. Esse movimento foi importante porque mexeu bastante no cenário do rock brasileiro da época em que as bandas tinham o estilo bicho-grilo, progressivo. Era um tempo de decadência do hippie e o punk apareceu. Ouvíamos muito punk rock quando montamos o IRA! como Ramones, mas também Gang of Four e Talking Heads. Os punks dessa turma da Vila Carolina eram muito presos a um tipo de radicalismo hardcore, de bandas com discurso mais radical e niilista e o som mais tosco . Esse som não nos satisfazia musicalmente, freqüentávamos os mesmos lugares onde se trocava informação, mas eu, o Edgar e o Adilson não fazíamos parte de nenhuma dessa turmas, nem do ABC nem da Vila Carolina. Na época, tinha muitos fanzines, era a principal forma de comunicação. Não tínhamos revistas de rock, só a revista Pop. Nas lojas de discos, se não conseguíamos comprar os discos, ficávamos ouvindo as novidades por lá.



Ordem dos Músicos



Vocês nunca se reuniram para discutir a ordem dos músicos?



Nasi - Sim, várias vezes. Na classe musical, precisa juntar todo mundo, e é difícil, dá uma preguiça...



A classe não se junta por preguiça?



Nasi - Não, tem gente que tem medo. Por exemplo, eu e o Edgar temos carteira de músico provisórias. Tenho vinte discos lançados, já toquei no exterior. Sabe como a Ordem dos Músicos ganha dinheiro? No Carnaval junta aquela fila de caras que mal sabe tocar um tamborim e a Ordem toma um troquinho, ou então aquela fila de músicos sertanejos, não os músicos sertanejospop, é gente muito simples que tem medo que, se não tiver a carteirinha, não faz show. Nas reuniões da Ordem, eu falava: “Classe musical não existe, classe artística não existe, na hora h todos viram as costas e você fica sozinho”. Teve um episódio famoso que foi a nossa briga no Hollywood Rock (festival de música da década de 90). No primeiro Hollywood Rock perguntaram na coletiva se estávamos cientes de que não ganharíamos cachê, como foi no primeiro Rock in Rio. Os artistas brasileiros, até por um complexo de vira-lata e também pela esperteza dos empresários, eram convidados. “Olha, está muito bom para você tocar aí, não precisa ganhar nada”. Hoje em dia, a situação se inverteu: a maior parte das bandas nacionais são é popular, leva tanto público quanto as bandas internacionais. Voltando ao episódio, na coletiva foi perguntado também se as condições eram as mesmas das bandas gringas e a gente respondeu que não. Já outros artistas nacionais, que não vou citar o nome porque não quero tripudiar sobre ninguém, escapavam da pergunta: “Veja bem, não é por aí, é assim, assado...”. Nós respondemos: “Temos menos palco, menos luz, menos som e não ganhamos nada”. Manchete, né? Deu uma briga e um dos organizadores, o Luís Carlos Niemeyer, nos chamou de bosta e xingamos de volta. Foi com esse clima que subimos no palco para o show. Os outros músicos que tinham os mesmos problemas que nós fingiam que não viam o problema.



Anos 80



Você não disse isso, mas já deve ter ouvido, é quase um consenso, as pessoas que ouvem música hoje dizem que a música brasileira a partir dos anos 90 é anos-luz superior à música dos anos 80.



Nasi - Como o Segura o Tchan, né? Se cuspiu muito nos anos 80, por isso que acho até engraçado esse revival que tem agora, é o revival do eu era feliz e não sabia. Porque era assim: anos 80? Década perdida. Em parte é verdade, porque realmente tinha muita porcaria: Ursinho Blau, Blau(bandaAbsinto),Joga a Mãe no Tanque pra Ver se Quica (banda Dr. Silvana). Na hora que vira um movimento hegemônico, o que interessa para a indústria são os artistas descartáveis, que não dão problema. Artistas de música mais complicada e sofisticada ou que não se adaptam ao formato da gravadora dão trabalho. Então eles pegam aquele cara com uma música descartável, um artista que vai durar esse verão e “não vai mais encher nosso saco e vamos vender disco pra caramba”. Isso aconteceu com o rock, o rock se banalizou muito nos anos 80, apesar de ter tido coisas muito legais que estão sendo redescobertas agora. Por exemplo, você vê essas coletâneas que saíram na Inglaterra e na Alemanha com o pós-punk paulistano, que fizeram sucesso de critica e fizeram, por exemplo, As Mercenárias voltar.



Política



Você se filiou ao PC do B...



Nasi - É, sou filiado.



Foi no momento da numeração dos discos que você se filiou ao PC do B?



Nasi - Na verdade, meu contato com o Partido Comunista tem dados familiares. Sou de uma família de professores comunistas. Tenho tio-avô que morreu no Araguaia, tenho esse caldo desde a infância. Já fui vizinho também de um diretório do PC do B, e lá tive oportunidade de conhecer pessoas nos quais acredito e voto como Aldo Rebelo e Jamil Murad. Essa atividade esquerdista sempre se refletiu no IRA! em muitas ações que fizemos no início da formação do PT. Já participamos até de campanhas, no caso da Erundina. Para você ter idéia, participamos junto com outros artistas de um show no teatro Ruth Escobar organizado pelo antigo Partido Comunista, em 83, para levar remédios para a Nicarágua.



Jabá e pirataria



Fala-se pouco do jabá e fala-se muito da pirataria, qual é a tua opinião sobre isso?



Nasi - É uma conseqüência, é claro. O nosso disco Acústico vendeu 250.000 cópias, mas sei que vendeu muito mais na banca do camelô. É até um status, né, estou fazendo sucesso e estou vendendo no camelô. Sobre a pirataria, não podemos esquecer que o preço do disco é caro e o pirata é um disco de segunda classe, um disco popular. Quem tem dinheiro compra o disco bom, com encarte bonito, todas as informações, que não pula faixa. Se a pessoa não tem dinheiro, ela compra esse disco popular, agora, o problema não é o camelô, é aquele cara que está por trás dele. Porque nada me tira da cabeça, sei que é teoria da conspiração, que existe um conluio de um chinês ou um coreano com o presidente da gravadora (risos). Às vezes tem discos de artistas que as cópias piratas saem antes. Não tenho como provar, mas duvido que uma multinacional deixe escorrer tanto dinheiro assim. Acho que lá em cima falam: “Vamos dividir aqui, você vende disco de segunda classe”. É uma teoria minha.



Drogas



Queria entrar em um tema um pouco espinhoso, que é a questão das drogas, já que você fala com muita desenvoltura sobre isso. Li uma declaração sua que dizia que a sociedade não aceita um ex-dependente, quando o cara vai se tratar e sai, a sociedade tem um certo preconceito. Queria que você contasse essa sua fase. Como foi?



Nasi - O que quis dizer é que não existe ex-dependente. Se você tem dependência, tem para o resto da vida. Quer dizer que você não pode mais usar. Quando você sai da clínica, quer falar para tudo mundo o que passou. Isso faz parte da doença. Eu, como várias pessoas, saí e falava adoidado. Primeiro é uma euforia pela felicidade de ter saído e uma coisa química do seu corpo também. É também uma maneira que você pensa que está ajudando aos outros. Daí, existem pessoas que publicam matérias legais, que realmente te entrevistam direito, colocam em um contexto bacana. Mas boa parte encara isso tudo como sensacionalismo. Então você se expõe bastante e percebe que a maioria das pessoas tem mais facilidade em ter preconceito com você, depois que você assumiu que fez um tratamento, do que antes. Como, por exemplo, o caso do Maradona, ele usou por um tempão e o pessoal falava: “Ele é doidão, mas bate um bolão”. Quando começou o calvário dele de clínica em clínica, todo mundo falava: “Esse cara não tem cura”. E, quando ele ficou bonito, todo mundo falava: “Tá bom, você viu a cara do Maradona? Até parece que ele não está mandando uma”.





Aí vai uma música do disco "Entre seus rins" do Ira! que eu gosto muito...





Ira! - Naftalina



gosto do cheiro de gasolina

gosto também de naftalina

gosto do gosto da sua boca

do seu cigarro

2x



a qualquer hora esse seu beijo ao meio dia

o sol rachando a qualquer hora

esse seu beijo ao meio dia

o sol rachando



o dia inteiro

de corpo inteiro

todo dia

o dia inteiro

de corpo inteiro

todo dia



esse seu cheiro de cigarro

esse seu gosto de bebida

Comentários (3)

rednewvideomaker
1. rednewvideomaker 20/09/2006 - 08h31m

Muito massa! Esta banda é uma das minhas preferidas! Curto pacas!!!

2. anarkaos 20/09/2006 - 22h51m

olha só quem está valorizando a música independente em Formiga: UNIMED, O PERGAMINHO; CARVEL; AUTO OESTE; ALFA PARF; LASER SHOP; 93 FM; COLÉGIO ANGLO. Lançamento dia 14!!!

3. ANARKAOS 20/09/2006 - 22h56m

Obrigado também à NEFROFATA (DIVINÓPOLIS) e à FORMUSICA!!!

Fotos postadas a mais de 15 dias não podem receber comentários.