02/02/07 - 11h:02mDenunciar

Os amigos Bob Dylan e David Bowie

Sei que estão velhas, mas vou postar essas matérias assim mesmo...falar de David nunca é tarde demais. Elas foram publicadas na Folha de S.Paulo em comemoração aos 60 anos desse camaleão do rock (8 de janeiro é a data do aniversário dele) e enviadas na semana passada pelo amigo Gilcevi.



Aí seguem...



Bowie, 60



O escritor argentino Rodrigo Fresán encara as várias faces do mito pop, que entrou na sétima década de vida neste mês





RODRIGO FRESÁN

ESPECIAL PARA A FOLHA



Alguns dias atrás, no prólogo a uma biografia de Peter Sellers [1925-80], li que o ator inglês, depois de tantos anos transformando-se em tantos outros e adotando tantos sotaques e inflexões, já não lembrava qual era sua verdadeira voz -sua voz original, a de Peter Sellers.

Assim, conversar com o comediante pouco antes de sua morte equivalia a se deixar sepultar e seduzir por uma eufórica psicose de personalidades. Mas, quando se pedia a Sellers que, por favor, fosse ele mesmo, por um minuto apenas que fosse, ele não sabia, não podia, não se lembrava. Uma associação de idéias livre, mas não tão casual assim -e, de repente, me vi pensando no também britânico, camaleônico e multidisciplinar David Bowie, que completou seis décadas de vida em boa forma, no último dia 8, e me perguntando qual dos Bowies estava chegando a essa idade, e qual não.

Porque foram muitos os Bowies que ficaram pela "long and winding road" de sua passagem pelo planeta pop. Para começar, Bowie fascina por ter sido o espécime mais poderoso e contagiado pelo vírus Beatles: A necessidade de transformação constante, de ser outros (como "Sgt. Pepper"), de conquistar o mundo para depois, como todo bom messias, abandoná-lo e deixá-lo entregue a sua sorte.

A leitura da biografia "Strange Fascination", de David Buckley [Estranho Fascínio, Virgin Publishing], lançada em 1999, contribui com um elemento bizarro: poucos astros do rock fracassaram tanto e tantas vezes quanto Bowie no início de suas carreiras.



Encarnações

Em sua primeira e terrena encarnação, Bowie tentou quase tudo e não se destacou em nada, encontrando a glória planetária quando, depois de um breve período de esquentamento como travesti ligeiro cantando o evangelho do Major Tom em "Space Oddity" e funcionando como supergroupie que louvava Warhol, Dylan, Lennon, Velvet Underground, Aleister Crowley, seu filho e seu irmão enlouquecido em "Hunky Dory" (1971) -o álbum de Bowie que eu ouço mais-, ele decidiu deixar de ser.

Depois, em 1972, ele se converteu no ET-glam-nietzscheano Ziggy Stardust. A partir desse momento, Bowie compreendeu que o que funcionava melhor eram as personalidades, e não as personas, e que a doutrina a seguir era a perversão polimorfa como ética e estética. Vieram o alien decadente Thomas Jerome Newton no filme "O Homem que Caiu na Terra", de Nicolas Roeg, o "plastic soul man", o cocainômano paranóico em Los Angeles, o fascistóide Thin White Duke, o existencialista em Berlim, o clown psicodélico de "Ashes to Ashes", o profeta da MTV nas noites hedonistas de "Let's Dance", o artista confundido com a própria lenda nos anos 1980, quando foi imitado por todos os "new romantics" numa década que ele mesmo tinha inventado nos anos 1970, o absurdo líder da ainda mais absurda banda Tin Machine -até chegar ao Bowie de hoje.

Alguém que é feliz ao lado de uma modelo tão vampírica e jovem quanto Iman. Que se mostra mestre multimilionário em fazer negócios na Bolsa. Que gosta de brincar na web a partir de seu paradigmático site. Alguém que se diverte aparecendo em papéis pequenos em filmes mais ou menos grandes (basta vê-lo em "Zoolander", representando a si mesmo e considerado o árbitro definitivo do que é "cool"). Alguém que é considerado um recluso embalado a vácuo.



Auto-análise

Alguém que de tanto em tanto lança discos bons que podem chamar-se "Outside", "Earthling", "hours..." ou "Heathen", e nos quais o mais importante parece já não ser o fato de ser o primeiro a chegar a algum novo lugar, moda, ou som, mas, à diferença de Peter Sellers, deixar memórias e não resignar-se ao sacrifício e perda da própria voz e estilo, sem que isso equivalha a petrificar-se num só, muito menos em público.

Mesmo assim, há indícios, pistas, instruções. Em entrevista à revista britânica "Mojo", em 2002, Bowie, por uma vez na vida, se mostrou francamente disposto a se explicar: "Eu tinha muitos interesses diferentes. E compreendi em pouco tempo que a única "carreira" na qual poderia desenvolver todos seria a música. É claro que eu não poderia fazer isso sendo contador. Eu amava a arte, o teatro e as muitas maneiras em que nos expomos a nós mesmos como cultura. E pensei realmente, então, que apenas no rock eu poderia me permitir não renunciar a nenhuma dessas coisas. No rock eu ia poder inserir meus blocos retangulares em orifícios circulares. Poderia martelá-los até que entrassem. É por isso que na minha trajetória há um pouco de ficção científica, um pouco de kabuki, um pouco de expressionismo alemão... É como se eu sempre tivesse organizado as coisas para não prescindir de nenhum de meus amigos".

Anos atrás, em 1976, Bowie propôs outra definição, mais infeliz: "Nunca houve a intenção de que Bowie existisse. É como um Lego. Estou certo de que eu não gostaria de mim mesmo, porque me vejo inexpressivo e indisciplinado demais. Não existe um David Bowie definitivo". E em 2003: "O que desejo mais desesperadamente é viver para sempre. Continuar aqui dentro de 40 ou 50 anos".

Uma coisa está clara: sem nunca mentir, Bowie -como todos os artistas realmente grandes- fez com que durante várias décadas permanecesse oculta a verdade última e final que está em alguma parte dele. Ou não. Talvez não exista mais que isso: Bowies demais desde o início -armáveis e desarmáveis, introdutores de novidades, com vontade de não parar nunca- e que, há pouco tempo, esses Bowies passaram a se unir para influenciar alguém que é feliz por já não precisar influenciar ninguém, porque basta pronunciar seu nome para que todos se sintam transformados por sua sombra alta e magra. Para sempre, é claro.





Os anos dourados de Ziggy

Bowie começou inspirando uma geração; hoje, é um dos poucos veteranos afiados




ANDY GILL



Não é novidade um astro do rock fazer 60 anos. O notável sobre David Bowie é que ele atingiu esse marco na ativa: ao contrário da maioria de seus contemporâneos, não cogitou se aposentar nem deixou de lançar álbuns da vanguarda popular. A maioria dos roqueiros bem-sucedidos se retira para casas de campo e resmunga sobre os jovens arruaceiros que os suplantam no afeto público.

Os afortunados cuja lenda se enraíza suficientemente se ocupam com apresentações periódicas de glórias passadas. Mas é difícil pensar em mais que um punhado de roqueiros sexagenários que se tenham mantido aguçados artisticamente ao longo da carreira. É uma elite que inclui Bob Dylan, evidentemente, e o trio de trovadores coadjuvantes formado por Neil Young, Leonard Cohen e Van Morrison. Mesmo gênios como Stevie Wonder e Brian Wilson passaram por longos hiatos de depressão criativa nas décadas recentes.

A razão mais mencionada para explicar a longevidade criativa de Bowie é sua capacidade de mudar de figura, matando personagens adorados como Ziggy Stardust e Alladin Sane, e levar sua carreira a novos rumos -estratégia imitada por Madonna com diferença menor no produto resultante. Esse fator bastaria apenas para estender o apelo de Bowie até meados dos anos 80. De lá para cá, ele adotou uma persona única e passou a vestir o terno ditado aos homens de certa idade. O afeto que ainda lhe é reservado tem origem mais profunda do que roupas.

O apelo de Bowie provavelmente tem mais a ver com o impacto de suas primeiras obras. Ele mudou vidas: seu jeito de pavão criou um modelo para pessoas mais fantasiosas, e a ruptura com as convenções ajudou gays a sair do armário. Mas Bowie ainda revelou inteligência suficiente para combinar a superfície burlesca de seus personagens a um trabalho substancioso e provocador. As trocas de papel trouxeram metalinguagem ao rock. Depois de Ziggy Stardust, tornou-se quase impossível ouvir rock sem perceber relação entre astro e fãs e outros artifícios subjacentes. Ilusões que sustentavam parcela do pop e do rock foram demolidas. Foi o fator mais importante para se desenvolver o punk.

Foi durante a era punk que ele gravou três álbuns sobre os quais boa parte de sua reputação repousa -"Station to Station", "Low" e "Heroes", o equivalente, na carreira de Bowie, à trilogia elétrica de Dylan: picos diante dos quais qualquer obra subseqüente será julgada.

Bowie se tornou o barômetro cultural, alimentando-se de conceitos culturais da vanguarda da era, da alienação ao vídeo, passando pelo rock eletrônico alemão, transformando-os em pop lucrativo de quilate elevado. Os discos eram o som de um futuro em construção, e vivemos até hoje naquele futuro.



das cinzas para cinzas é engraçado e divertido - David Bowie David Bowie

Comentários (1)

maritheusaeverde
1. maritheusaeverde 2/02/2007 - 13h57m

putz! ele é o cara!( ou seriam "os caras"?) hahah

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