05/02/07 - 10h:38mDenunciar

A triste partida

Hoje, acordei com vontade de ler Patativa do Assaré, apelido do sertanejo que tinha nome comum: Antônio Gonçalves da Silva. Analfabeto, "sem saber as letra onde mora ", como diz em um de seus poemas, sua projeção em todo o país se iniciou na década de 50, a partir da regravação de "Triste Partida", toada de retirante gravada por Luiz Gonzaga. Sua vocação de poeta, cantador da existência e cronista das mazelas do mundo despertou cedo, aos cinco anos. A mesma infância que lhe testemunhou os primeiros versos presenciou a perda da visão direita, em decorrência de uma doença, segundo ele, chamada "mal d'olhos". Sua verve poética serviu vassala a denunciar injustiças sociais, propagando sempre a consciência e a perseverança do povo nordestino que sobrevive e dá sinais de bravura ao resistir as condições climáticas e políticas desfavoráveis.



Aí vai uma poesia dele que emociona...





A morte de Nanã - Patativa do Assaré



Eu vou contá uma histora

Que eu não sei como comece,

Pruquê meu coração chora,

A dô no meu peito cresce,

Omenta o meu sofrimento

E fico uvindo o lamento

De minha arma dilurida,

Pois é bem triste a sentença,

De quem perdeu na insistença

O que mais amou na vida.



Morreu na sua inocença

Aquele anjo incantadô,

Que foi na sua insistença,

A cura da minha dô

E a vida do meu vivê.

Eu beijava, com prazê,

Todo dia, demanhã,

Sua face pura e bela.

Era Ana o nome dela,

Mas, eu chamava Nanã.



Pelo terrêro corria,

Sempre sirrindo e cantando,

Era lutrida e sadia,

Pois, mesmo se alimentando

Com feijão, mio e farinha,

Era gorda, bem gordinha

Minha querida Nanã,

Tão gorda que reluzia.

O seu corpo parecia

Uma banana maçã.



Mas, neste mundo de Cristo,

Pobre não pode gozá.

Eu, quando me lembro disto,

Dá vontade de chorá.

Quando há seca no sertão,

Ao pobre farta feijão,

Farinha, mio e arrôis.

Foi isso que aconteceu:

A minha fia morreu,

Na seca de trinta e dois.



E com a braba comida,

Aquela pobre inocente

Foi mudando a sua vida,

Foi ficando deferente.

Não sirria nem brincava,

Bem pôco se alimentava

E inquanto a sua gordura

No corpo diminuía,

No meu coração crescia

A minha grande tortura.



Se passava o dia intêro

E a coitada não comia,

Não brincava no terrêro

Nem cantava de alegria,

Pois a farta de alimento

Acaba o contentamento,

Tudo destrói e consome.

Não saía da tipóia

A minha adorada jóia,

Infraquecida de fome.



E, numa noite de agosto,

Noite escura e sem luá,

Eu vi crescê meu desgosto

Eu vi crescê meu pená.

Naquela noite, a criança

Se achava sem esperança.

E quando vêi o rompê

Da linda e risonha orora,

Fartava bem pôcas hora

Pra minha Nanã morrê.



E, enquanto nós assistia

A morte da pequenina,

Na manhã daquele dia,

Veio um bando de campina,

De canaro e sabiá

E começaro a cantá

Um hino santificado,

Na copa de um cajuêro

Que havia bem no terrêro

Do meu rancho esburacado.



Na sua pequena boca

Eu vi os labio tremendo

E, naquela afrição lôca,

Ela também conhecendo

Que a vida tava no fim,

Foi regalando pra mim

Os tristes oinho seu,

Fez um esforço ai, ai, ai,

E disse: "abença, papai!"

Fechô os óio e morreu.



Nanã foi, naquele dia,

A Jesus mostrá seu riso

E omentá mais a quantia

Dos anjo do paraíso.

Na minha maginação,

Caço e não acho expressão

Pra dizê como é que fico.

Pensando naquele adeus

E a curpa não é de Deus,

A curpa é dos home rico.



Saluçando, pensativo,

Sem consolo e sem assunto,

Eu sinto que inda tou vivo,

Mas meu jeito é de defunto.

Invorvido na tristeza,

No meu rancho de pobreza,

Toda vez que eu vou rezá,

Com meus juêio no chão,

Peço em minhas oração:

Nanã, venha me buscá!





Saluçando, pensativo, sem consolo e sem assunto, eu sinto que inda tou vivo, mas meu jeito é de defunto - Patativa do Assaré Confira aqui outra poesia bonita de Patativa, "A Triste partida"

Comentários (1)

jukhouri
1. jukhouri 5/02/2007 - 17h15m

A simplicidade é que mais enriquece o conteúdo da poesia, aliás, somada à tristeza de uma vida de miséria e dificuldades no sertão, descrita de forma sincera e fiel, que é como se enxergássemos exatamente as coisas que ele narra... mto bonito, Ju... não conhecia esse escritor... gostei mto da postagem

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