11/11/09 - 12:10Denunciar

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Era simples, a manhã chegava todo dia.
Ela nada pedira: nem a janela que se abria, nem o vazio azul brotando pelas frestas do sono contido pela luminosidade que inaugurava um amanhecer nem um pouco diferente dos outros; guardava na memória dos olhos semi-abertos a sombra contínua que se impregnara na leitura feita sob a lâmpada fraca da luminária, sua companheira fiel por mais de uma década. Constrangia-se de acender a luz principal do quarto, preferia submeter à vista fraca ao martírio do que se ver à madrugada insone com claridade demasiada sobre a solidão, sentia-se assim guardada no tempo em que o abajourt era a alternativa para atenuar o incômodo do homem ao seu lado, do homem meio-cinza com que dividira alguma parte das únicas lembranças de onde remanescia algum resquício de vida em sua vida. Por isso à meia-escuridão entregou-se ao labirinto daquele livro indigesto, indigesto porque era cru, cru por sua lucidez, lúcido pelo reconhecimento embriagado de que o velho quadro da musa nua pendurada na parede era pouco gentil, lembrava da passagem do tempo, da única vez que ousara despir-se diante do mundo, recordava dos verbos conjugados infinitamente sobre o não: não falar alto demais, não amar demasiado, não costurar muitos decotes, não abrir mão do nome, nem da aparente alegria que só via quem não há conhecia (e ninguém a conhecia), todos os nãos ensinados por uma vida inteira, inteiramente reconhecida pela metade, todos os nãos retratados nas linhas de um exemplar colhido de um sebo tão tarde, tão tarde que já havia encontrado com uma estação amarelecida de cheiro taciturno ou quase nada.
A personagem do romance parecia ter sido gerada na réstia de sentimentos confusos que pertenciam a ela em dias em que a madrugada se demorava, nos dias em que apenas os dedos longos e frios acariciavam o desejo de pertencer de novo, de saber-se viva. Acordou-se então naquela manhã sem saber se havia saltado das páginas ou se ainda era a mesma, ou se por ter saltado nunca fora tão ela, tão vazia como o azul que acordava tediosamente sempre às cinco e meia, sempre aquela que nunca vira lagarta virar borboleta e que detestava as rimas do sol.

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