Ensaio sobre a Cegueira
Ensaio sobre a Cegueira,
a possibilidade de ver a outra face de si mesmo
Pra ser sincera, quando decidi assistir a esse filme não me deixei levar pela historia em si e nem pelo fato desta ser baseada na obra de José Saramago. O que me chamou a atenção foi na verdade o Diretor: Fernando Meirelles. Só em saber o responsável por esta produção cinematográfica, já sabia que o dinheiro gasto naquele ingresso no mínimo valeria muito a pena. Mas realmente eu não esperava. Surpreendi-me. Entrei naquela sala como fã do diretor e saí de lá apaixonada por ele. Sem exageros, mas na minha opinião o filme é digno de um Oscar.
A história é sobre uma epidemia de cegueira inexplicável que assola uma cidade e vai tomando proporções maiores. A mulher de um médico, no entanto, é a única imune ( não se sabe o porquê e também, não fica explicado no filme) e junto com ele vai para um sanatório de quarentena, pois acredita-se que a cegueira é contagiosa. Lá ela conhece pessoas com as quais terá amizades e vive situações intensas e emocionantes que te prendem do início ao fim do filme.
Não sem nem por onde começar. Não basta dizer que tudo nesse filme se conecta ou tem algum significado incrivelmente belo nas entrelinhas. È preciso explicar. Eu não sei o jargão cinematográfico mas como diria um leigo, vamos começar pelas imagens, ou seja, pelo que se apresenta aos nossos olhos.
Durante todo o filme as cores utilizadas são mortas, caem quase num monocratismo, elas se associam muito ao preto,branco e cinza. A utilização das luzes sempre em contraste merecem destaque, pois conforme a epidemia de cegueira vai inundando a cidade as imagens vão ficando mais escuras. Do meio ao final elas clareiam até demais, de modo que possamos ser transferidos para essa atmosfera de “ doença branca”. O cenário vai se individualizando e focalizando em alguns rostos dos personagens principais, mostrando suas expressões, seus medos, suas esperanças naqueles olhos vazios e cegos. Ao mesmo tempo, quando mostra a massificação de um sanatório improvisado de quarentena, retrata uma realidade cruel, suja e principalmente caótica, na qual impera mesmo naquelas condições precárias e subumanas o egoísmo, o irracionalismo e a perda da dignidade.A trilha sonora; a melodia em si aparece em poucos momentos mas mesmo assim é marcante.Nas horas mais tensas como nas brigas e na ansiedade e no desespero das personagens, ela ganha mais inquietude.Porém quando uma das mulheres morre ao ser estuprada ela se torna mais melancólica aumentando ainda mais o dramatismo da cena.No resto das vezes em que a ouvimos ela é calma, tranqüila e quase monótono como se representasse a impotência dos cegos perante àquele mundo.Outra cena comovente é quando todos se reúnem ao redor de um rádio para ouvir uma música que ecoa quase como um gemido mas é bela o suficiente para fazer com que todos que estavam ouvindo se emocionassem. Sem dúvida, o que se quer destacar no filme são as imagens brancas e fugidias mas o som tem um papel importante. É por ele que as personagens se guiam e até nós mesmos em algumas cenas em que tudo é claridade ou escuridão.Nestas, o som ganha mais amplitude e aumenta a curiosidade sobre o que está acontecendo.Mais uma vez somos transferidos para essa atmosfera de cegueira.
Acredito que o ponto máximo; o forte do filme está no roteiro.Adaptado por Don Mackeller, evidencia ora com sensibilidade ora com brutalidade as angústias, as lições de vida, e a sabedorias quem podem ser adquiridas daquelas pessoas.Apesar de não ser apelativo, o roteiro choca o telespectador em certas cenas.Porém é através do roteiro que de modo velado e indireto se encontra a grande moral do filme.
Como eu disse anteriormente, a pouca individualização está quando focalizamos os personagens.Não os conhecemos por seus nomes, mas por seus dramas e por suas reações quando tomam contato com a cegueira e por como interagem com os outros cegos. Entre as personagens principais podemos citar a “mulher do médico” brilhantemente interpretada por Julianne Moore, que é na verdade “os olhos” de toda aquela gente.Ela vive um conflito interno pois apesar ser imune à cegueira, o que já a coloca acima dos outros, ela na verdade se sente tão fraca e perdida como eles e muitas vezes preferiria também ficar cega a carregar o fardo de responsabilidade de cuidar daqueles quase inválidos e de enxergar um mundo completamente animalizado.Outro protagonista é o médico interpretada por Mark Ruffalo( que apesar de ser sempre associado à comédias românticas como as do estilo de “ E se fosse verdade...”, mostra que consegue caminha entres esses dois extremos comédia – drama) que sempre conseguiu ter o controle de tudo em sua vida mas quando fica cego se sente inseguro e frustrado. Também há outros tipos como a prostituta( Alice Braga), o velho( uma espécie de narrador onisciente) interpretado pelo veterano Danny Glover e o inescrupuloso “rei da ala3”( participação especial de Gael García Bernal).
Existe uma coisa que te faz sair pensando da sala de cinema.Afinal nos dias de hoje, quem realmente é capaz de enxergar? Ou Como seria o mundo se ninguém pudesse ver? Um lugar onde não existiria aparências ou julgamentos.Um mundo onde não existiria branco, o negro, o amarelo, o feio, o bonito, o gordo, o magro, o machismo, o feminismo.Um mundo em que todos seríamos praticamente iguais pois estaríamos sujeitos à mesma condição.Apesar de não podermos enxergar a beleza das cores e das paisagens, seríamos gratificados por enxergar uma beleza muito maior: a da vida. Conheceríamos as pessoas pelo que são e pelo que pensam, pelos seus ideais e sonhos.Só aí poderíamos alcançar a verdade e o real conhecimento de quem somos nós.
Resumindo: a magnífica moral do filme é que para realmente enxergar as pessoas e o mundo, deveríamos ficar “cegos”.
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