Blog

Antonio Carlos Jobim

por murabr em 08/12/04 - 16h:23m

Sabia ou instintivamente meu pai guardou o jornal especial do dia 9 de dezembro de 1994, o dia após a morte de Antonio Carlos ‘Brasileiro’ de Almeida Jobim, o popular Tom Jobim. Enquanto fuçava nas velharias do meu pai, encontrei o jornal amarelado, mostrando a dor da perda do nosso melhor compositor. Vou colocar aqui alguns trechos que dizem muito sobre Jobim, que dizia “É mais confortável morrer em português”.
“[Tom] Era uma síntese do que nos legaram Ernesto Nazareth, Villa-Lobos, Pixinguinha e Ary Barroso, (...) Tom era algo mais: há tempos não havia no mundo que lhe chegasse aos pés.”, “Não se empolgava com a fama, nem por causa delas mudou seus hábitos e sua personalidade. Possuía notórios saberes: fauna e flora, bentos e nuvens, marés e estrelas – nenhuma das coisas da natureza parecia estranha ao autor de ´Águas de Março´”. – Sérgio Augusto, da Sucursal do Rio.
Tom mudou-se da Tijuca para a conhecida Ipanema quando tinha quatro anos. Era neto de pianistas e sobrinho de seresteiros e violinistas. Teve aulas de piano com o alemão Hans Joachim Koellreutter, mesmo sabendo que se encaminhava para a carreira de arquiteto. “mas, para a felicidade geral da nação, Tom acabaria trocando a prancheta pelo piano. Com as bênçãos, presume-se, de Frank Lloyd Wright, para quem a arquitetura era ´a música petrificada´” – Sérgio Augusto. Além de estar sempre em compahia de Radamés Gnatalli.
Ao contrário do que muitos pensam, suas influencias não vieram somente do jazz americano, que ele conheceu mais tarde, e sim de Chopin, Debussy e Ravel. Sua música foi imortalizada no mundo todo, sendo “Garota de Ipanema” uma das dez mais gravadas e interpretadas por todo o planeta. E homenagens não faltam: “O Tom tinha um humor fantástico e uma musicalidade impressionante. Hoje [09/12/1994] o Brasil vai se vestir de Tom” ,relata o compositor Toquinho no jornal. Chico Buarque, em sua canção “Parartodos” já dizia “Meu maetro soberano foi Antônio Brasileiro”, assim como muitos outros músicos, Edu Lobo, Gal Costa, Marina Lima, Djavanm Danilo Caymmi, Gilberto Gil, Vinicius, Guerry Mulligan, Caetano Veloso, Frank Sinatra, Joe Henderson e muitos outros que sentem a falta desse “som brasileiro, impossível de ser copiado”. Concordo.
Brasileiro, amante da natureza, dizia com o mais justo orgulho “Já era ecologista antes dessa palavra ser inventada, desde menino, quando isto aqui era um paraíso”. Arnaldo Jabor deixa isso bem claro no jornal, “Você sabe, Jabor, que o urubu-caçador dorme na perna do vento...”, “Você sabe que as onças atacam por baixo, não é?” ele vivia o Brasi.”, isso se mostra no disco “Passarim” e na canção “Águas de Março”.
Aqui eu vou colocar uma parte da reportagem que o jornal Folha de São Paulo fez com o compositor:
“Eu gostaria que minha música levasse os meninos a Deus. Eu criei quatro gerações de roqueiros, mas meus filhos tiveram a oportunidade de ouvir um pouco de música brasileira. Nunca quis ficar nos EUA, sinto saudades do ‘paraíso’, como dizia Sérgio Buarque. É lá fora que você recebe os prêmios, que reconhecem o valos das pessoas; mas o preço é caro, por ter que viver fora do seu país. As criticas sempre partem do brasileiros, dizendo que a música de Antonio Brasileiro não é brasileira; isso aconteceu também com Portinari, Niemeyer e Villa-Lobos.”
“Não cuido de dinheiro, não assino cheque, não quero saber, e não tenho o direito sobre a minha obra. No exterior não tenho controle; ganho uns trocados. Nunca vi um compositor viver de direitos autorais. Todos fazem show. Se o Tom Jobim vai pro Japão, é por que precisa de dinheiro, se não precisa, pára de fazer show. Sou avesso a uma coisa pomposa. De acordo com a ‘Bíblia’, você não é dono da sua obra, alías, com os contratos que assinamos não somos donos mesmo (risos). Se eu ganhasse US$10 milhões, eu compraria a obra do Tom Jobim, minha própria obra, e iria edita-la toda direitinho, por que está toda escrita errada. Fará isso para poder morrer em paz”.
“Apoiei e votei no FHC. Tenho esperança de que ele de um jeito na miséria. Ele já foi preso como comunista, para nós é um socialista. Não é possível que o Brasil seja um país de meia dúzia de milionários”.
“Sou nascido católico, mas não vou muito à igreja. Creio em Deus. Tem a ver com tudo, com a música, a natureza. Está nas árvores, nos passarinhos, nas mulheres. Velhice é boa mas... perguntaram pro Drummond como é que é ficar velho, ‘É uma merda, não queria ficar não porque é uma porcaria’. Mas a vida é isso mesmo, chega uma hora que tem que descansar um pouco”.
Tom morreu no dia 8 de dezembro de 1994, depois da segunda parada cardíaca.
Queria que seus discos fossem infinitos, para escutar todo o tipo de som que esse brilhante compositor nos deixou, com sua harmonia excelente, seus arranjos (impressões digitais de Jobim) e sua voz desafinada e baixa. “E chega de saudades.....”
Não dá pra falar do Tom sem pagar pau pra ele, e também não podia deixar de falar que minha admiração pela Yoko Kanno cresceu ainda mais quando soube que ela também é uma fã do compositor.
Valew