filhos da criminalidade..
Felipe nasceu em Botucatu (SP), tem quatro irmãos. Tem 15 anos e mora com os pais. A mãe dele, Rosânea, trabalha de diarista e ganha uns trocados pra ajudar no orçamento da família. O pai, um alcoólatra. Só serve pra dar gasto, além dos essenciais, com bebida.
Felipe sempre foi muito popular em seu bairro. De origem pobre, seus amigos costumavam brincar na rua até o fim da noite. Até que um dia, um de seus amigos lhe ofereceu uma coisa.
Parecia legal, todo mundo estava contente, todo mundo estava usando. Um tal de crack, acho que era isso. Enquanto ele usava aquilo, sentia-se tão feliz que até esquecia das brigas constantes que seus pais tinham na presença dele, ou até mesmo das vezes em que o pai chegava bêbado em casa batendo na mãe, e de quando ele a defendia e apanhava por isso.
Felipe chegou em casa meio entorpecido. Sua mãe nem o notara, já que estava muito ocupada batendo boca com seu pai. Todos os vizinhos escutavam seus berros: “Cachaceiro! Você é um peso pra nossa família!”. Enquanto a discussão se estendia, Felipe outra vez se sentiu mal por pertencer à tal família desestruturada. Foi deitar em sua cama, que nem era uma cama, era apenas um colchão velho, todo encardido e com a espuma rasgada que ficava no chão da sala. (Nota: somente os pais tinham um quarto, mas mesmo assim, só quem dormia lá era o pai, pois, por causa do estado em que sempre chegava em casa, expulsava-a da cama e a fazia dormir no chão com os meninos)
No outro dia, contou para os amigos do colégio o que experimentara. Todos arregalaram os olhos quando ele disse a palavra crack. Eles já tinham feito um trabalho sobre isso na aula de sociologia, mas Felipe nem se lembrara. Somente da bela experiência que foi, daquele pause nos problemas que enfrentara através da droga, é que ele se apegava.
Como ele era muito querido, seus amigos (alguns deles) disseram-lhe que era melhor ele não voltar a usar. Ele rebateu, dizendo que eles nunca tinham experimentado pra saber, então não tinham o direito de dizer o que lhe era conveniente.
Passado alguns meses, Felipe estava viciado. Mas ele não sabia. Sua fama no colégio e no bairro onde residia cresceu significativamente. Seus amigos começaram a se afastar dele devido à isso, e também, porque seus respectivos pais descobriam que ele era usuário e não permitiam que tal fosse companhia para seus filhos. Logo, Felipe tinha uns bons conhecidos, amigos de fumo, o que eram. Saiam em missão, atrás de mais droga, e quanto mais ele usava, mais ele queria.
Sua mãe nunca percebia a mudança em seu estado. Já vivia na defensiva e tão irritadiça que chegou a pensar que, talvez, o fato de Felipe estar sendo tão hostil ultimamente fosse apenas genética, hereditariedade: “Coitado, herdou meu gênio intolerante!”
Mais um mês, Felipe já não conseguia mais viver com aquela dose de sempre. Começou, então, a roubar coisas dentro de casa. Coisas velhas, no início, mas depois, chegou até a tirar a única TV de 29 polegadas que eles tinham na casa inteira pra vender. Foi aí que dona Rosânea começou a desconfiar.
Numa certa noite, Rosânea resolveu então tirar satisfação. Mas não com o filho! Com o marido! A louca pensou que o marido havia roubado pra comprar bebida, enquanto a explicação estava debaixo de seu nariz!
Expulsou seu marido de casa, mas chorava o dia inteiro. Apesar de todos os pesares, dona Rosânea o amava, mas não suportava mais tanta chateação. E quanto a Felipe? Assistiu à tudo isso e não fez nada. Bem, na verdade, ficou com um peso na consciência muito grande. Mas não falou. Achou melhor deixar passar.
Por conta desse acontecimento, resolveu não roubar mais as coisas de casa. Afinal, o próximo a ser expulso poderia ser ele! E se ela descobrisse? O que ela faria dele? Ela nunca iria entender que ele experimentou da boa e que era bom de verdade, que não era nada que os outros pensavam que fosse. Passou então, a furtar fora de casa.
Juntou com alguns de seus parceiros que já costumavam fazer isso com freqüência, e foi a luta. Que luta! No 1° dia, roubou uma casa de dois andares, em que os donos deixaram uma das janelas abertas, e dormiam no andar de cima. Enquanto dormiam, eles faziam a festa. Riram muito disso tudo.
Passaram-se duas semanas, e eles furtaram tanto o próprio bairro que os bandidos dali se enfureceram quando descobriram que eram eles. Mandaram devolver tudo o que haviam roubado para seus donos. Mas como iriam devolver, se já haviam vendido e comprado droga com os mesmos bandidos? Não havia como reverter.
Resolveram ir roubar em outro bairro, pra tentar, se não devolver a mesma coisa, amenizar a situação com os bandidos, já que se tornaram alvo fácil pra uma sentença de morte.
Viram uma casa bonitinha, pequena, mas muito bem conservada, e resolveram pular. Entraram pela porta da cozinha, que era fácil de arrombar, e foram a caça. Abriram as portas, chegaram na sala, avistaram uma TV, um home theather, um aparelho de dvd com karaokê, microfones. Pensaram: “Tamo salvo!”
Foi aí que, ouviu-se um ronco de motor. Era o dono, chegando com o carro. Isso os amedrontou, mas mesmo assim, eles colocaram tudo nas mochilas e foram em direção a 1ª janela que viram. Só que a janela tinha uma trinca especial, com um cadeado. Eles ficaram tentando achar uma solução, mas o tempo era o curto. Pegaram uns alfinetes no bolso, qualquer coisa afiada que entrasse no buraco. Nada. Não conseguiam raciocinar direito.
Foi aí que o dono entrou pela porta da sala, e notou que havia sido assaltado. Felipe, então, saiu do quarto onde estava escondido e apontou uma arma pra ele. Arma essa que ele havia roubado recentemente. O dono reagiu, pois era um milícia. Ao tentar puxar a arma do bolso, Felipe atirou.
Hoje Felipe é um fugitivo. Sabe-se lá em quantas armadilhas já caiu, em quantos roubos se meteu ou se ainda é vivo. O milícia ficou paraplégico e não consegue mais exercer a função que exercia anteriormente. O pai de Felipe virou mendigo de praça, pede esmolas e nem lembra como se chama, muito menos de que teve um filho. Dona Rosânea, adivinhem? Casou-se de novo e está esperando um filho.
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