Uma perda irreparável
Querido Centenário, nós te amamos
Com muita afeição, á ti nós vamos
Tu és o nosso lar
No ano escolar
Oh, Centenário
Oh, Centenário!
Nosso Colégio é bom
É a brilhante luz
Que a boa instrução
Á todos nos conduz
Dai-nos belas lições
E também diversões
Oh, Centenário
Oh, Centenário!
Um pavilhão inteiro destruído. Salas de aula, laboratório de informática. Bebedouros. E registros. E histórias em vida, em fotos, em fatos, em livros. Não, não é possível que tudo se tenha enegrecido.
O Colégio Centenário já faz parte de um conto vivo, de um período quieto, clássico e formal de Santa Maria. Usando o estilo neoclássico de antigos colégios americanos, típico da Igreja Metodista, a Instituição (como é melhor chamá-la) abrigava 1800 alunos em suas entranhas. Nem a velhice de 86 anos impedia o ancião de oferecer seu corpo, sua estrutura para o ensino. É um lugar caloroso, nostálgico. O fato, difuso e incompreensível: 1800 almas. 1800 seres que lamentam um prejuízo incalculável; não em valores, sim em memória.
E senhores, eu vi. Eu vi, senti a dor de quem amputa um membro sem aviso prévio, com o horror e a surpresa dos que não são os cirurgiões nem os anestesistas. Eu estive dentro do que é agora carbono, matéria pura. Eu estudei nas salas de aula que são agora simplesmente, além de lembranças, escombros. Terceira série, nove anos. Quarta série, dez anos. Quinta série, onze anos. Pré-escola, inominável. Uma infância que assistiu a serenidade e a imponência de um lugar semelhante á uma casa. Uma infância que assistiu a agonia desse mesmo velho, sem nada poder fazer. Sim, a estrutura era fantástica: incontáveis salas de aula, espaçosas e confortáveis, refeitório, capela, sala de troféus, biblioteca extensa e rica, ginásio poliesportivo, setor infantil, residência, auditório e uma faculdade. Pelo menos duas horas num tour.
O chão desabou, Cristo. Não há mais segundo andar. Os corredores largos que abrigavam centenas de estudantes estão irreconhecíveis, intransitáveis, e a culpa não é da rotina. É tragédia infeliz de um provável curto-circuito.
Não, o impacto de tudo isso ainda não veio sobre nossas cabeças; o teto inexistente do pavilhão contempla, vazio e inútil, sob a complacência das janelas em mesmo estado, o céu nublado e friamente amigo, aquele que oferece consolo, mas que não estende a mão e fica á distância segura de comprometimento. Quadros dos formandos do curso tal, onde estão? A parede que sustenta a educação já é dispensável. A capela, ao lado, por um milagre, nada sofreu. Mas e o refeitório, a diretoria, a secretaria, as glórias e troféus e medalhas? Meu Deus, as glórias! Décadas e décadas de conquistas grandiosas, triunfos, feitos, times, de qualidade esportiva, tão conhecidos na região, onde ficam?
É realmente um funeral.
Passei ao final da tarde lá, para só então ter consciência do que me lamentar. E ver o que o breu da noite escondeu: as janelas mortas, mais uma vez, os vidros partidos, uma espécie de expressão cansada naquele arranjo arquitetônico. Para ver o que as chamas, essas malditas, fizeram no silêncio (?), na imagem aérea que previu o negro sobre o branco: Uma bola de fogo cá e lá nos dois andares do prédio, o prelúdio do inferno e das lágrimas da manhã.
Nesse ínterim, enquanto eu olhava, de boca aberta o estrago, um resquício de sol despreocupado tangenciou o teto (?) da Instituição, criando um bonito contraponto no laranja-marrom dos tijolos da sacada neutra e restante, ali na frente. Houve um reflexo, uma linha difusa nessa mesma sacada, uma linha vermelha. E conforme o tempo ia passando, alheio á visão embaçada que a fumaça ainda produzia, aquela linha ia abarcando a borda da sacada, indo e indo, até que deixou de ser uma linha; me pareceu mais uma mancha.
O Colégio Centenário estava sangrando.
Mas a noite que levara 86 anos para passar iria estancar tudo aquilo, eu tinha certeza.
Mesmo que inesperadamente, como o fogo.
Não podemos deixar de ressaltar o trabalho dos bombeiros, óbvio. Parabéns aos homens que arriscaram suas vidas para salvar a de um colégio.
E Colégio Centenário, nós te amamos. Com muita afeição, á ti nós vamos.
www.clicrbs.com.br/pdf/2930835.pdf
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