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(167) SOBRE CRESCER...
- Comprou a tua casa?
- Comprei, sim.
- Agora sim, terá o espaço que sempre quis.
- É, sim. Poderei me organizar melhor agora.
- Vai mesmo. É hora de arrumar tudo.
Sem pressa começou a empacotar os seus pertences. Ele, o mais novo de quatro irmãos, estava de partida. Ninguém acreditaria nessa hipótese se a mesma fosse cogitada em algum momento do passado. Mas a oportunidade chegou e ele a agarrou. Dividia o quarto com o terceiro irmão, que demonstrou certo contentamento com a partida.
Prendeu às costas o que tinha, o que era realmente seu naquele ninho. Os pais sabiam que a hora chegara e o apoiavam, mesmo sem muita vontade. Sentiram-se orgulhosos saudosamente, com aquela certeza boa de ter formado mais um ser de bem, mais um da minoria da qual esse mundo precisa tanto atualmente.
Todos esperavam que a ordem natural das coisas fosse obedecida. Sendo assim, o próximo a partir deveria ser o terceiro, e até ele mesmo acreditava que iria embora antes. Entretanto, pequenos detalhes impediram a concretização dos seus sonhos. Calado, em um canto do ninho, observava com atenção toda aquela movimentação.
O quarto desceu as escadas, abriu as asas, fixou-se no meio da sala e começou a despedida pelo inanimado: olhou para paredes, teto, movéis, tudo. Tudo aquilo que era sua vida até ali. Disse:
- Chegou a hora.
Começou a despedir-se de todos os familiares, um de cada vez e a cada modo, porque cada relacionamento é diferente, cada pessoa possui algo diferente a compartilhar com outra e esses vínculos fazem nossas vidas.
A empolgação pelo novo misturava-se à nostalgia do antigo. Agradeceu, outra vez, aos pais:
- Hora de bater minhas asas, correr pelo mundo. Foi assim com meus irmãos. Será assim também com o terceiro. Desse modo, levarei a nossa vida, a nossa história. Carregando seus genes e misturando-os ao mundo. Continuando nosso ciclo. Obrigado por tudo.
Coletivamente partilhou um amor igualmente partilhado da melhor maneira possível: um abraço coletivo. Saiu do chão por um instante, quando foi interceptado pelo terceiro:
- Irmão, você sabe.
- Sei o que?
- Vou sentir muito a sua falta.
- É, eu também. Mas não vou de vez. Volto pra ver todos, sempre voltarei. E mesmo que não consiga voltar, meu pensamento sempre estará aqui. Termina de crescer suas asas e vem com a gente. Irei te esperar lá.
- Eu sei. Se cuida, irmão.
- Valeu. Até logo.
No vôo do quarto, o terceiro aprendeu como voar.
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