26/06/07 - 15h:02mDenunciar

Cangaceiro Corisco

Cristino Gomes da Silva Cleto nasceu em 1907, na localidade de Matinha de Água Branca, no Estado de Alagoas. Os seus pais se chamavam Manuel Gomes da Silva e Firmina Cleto. Cristino era bonito como um galã, possuía boa estatura, ombros largos, pele alva, cabelos louros e longos. Dotado de força física e coragem extraordinárias, ele entrou para o bando de cangaço de Lampião em agosto de 1926. Seu apelido era Diabo Louro.

Corisco seqüestrou Sérgia Ribeiro da Silva, vulgo Dadá, quando ela tinha apenas 13 anos de idade. À força, colocou-a na sela de seu cavalo e fugiu pela caatinga. Dadá era morena, possuía cabelos pretos, e 1,70m de altura. Ao ser desvirginada pelo cangaceiro, a adolescente teve uma hemorragia tão intensa que quase perdeu a vida. Com o tempo, porém, o seu companheiro foi ficando mais delicado. E o ódio sentido por ela se transformou em simpatia e, posteriormente, em grande amor.

Da mesma maneira que ensinou Dadá a pegar em armas, Corisco também lhe ensinou a ler, a escrever e a contar. Por sua coragem, ela era tão admirada pelos integrantes do bando que, certa vez, um chefe de grupo exclamou: Dadá vale mais do que muito cangaceiro. Com o Diabo Louro, ela teve sete filhos, mas, destes, somente três sobreviveram.

De 1921 a 1934, o bando de Lampião se desdobrou em várias partes, dentre os quais os chefiados por Corisco, Moita Brava, Português, Moreno, Labareda, Baiano, José Sereno e Mariano. Mas, para Lampião, apesar de haver tantos subgrupos, o de Corisco era o mais importante. Além de comparsas, eles eram amigos.

Em certa ocasião, uma postura tomada pelo Diabo Louro, no tocante à defesa da honra masculina, tornar-se-ia bastante conhecida: foi o desfecho do relacionamento amoroso entre Cristina e Português. Ela havia traído este com Gitirana, um integrante do bando de Corisco, e Português contratara Catingueira para "limpar sua honra".

Quando Catingueira chegou ao acampamento de Corisco, foi logo chamando Gitirana para terem uma conversa particular.

Nesse ínterim, Maria Bonita e Lampião, que estavam no mesmo acampamento, se aproximaram do local. A cangaceira se adiantou, e sugeriu que Cristina (a verdadeira culpada, segundo ela), e, não, Gitirana, fosse eliminada por Catingueira. Foi quando Corisco lhe respondeu: Ela deu o que era dela! Ninguém tem nada com isso! Insatisfeita com o andamento da situação, Maria Bonita continuou defendendo a contrapartida masculina: É, mas Português vai ficar desmoralizado!

Já impaciente com aquele confronto, Corisco deu um basta à discussão, exclamando: Ele que cuide da mulher dele! Do meu rapaz, cuido eu! Desde então, essas palavras ficaram célebres, e tal expressão vem sendo utilizada, inclusive, por muitos políticos brasileiros. Eles costumam dizer: Cuidem do que é seu porque, do que é meu, cuido eu!

Em relação ao desenlace amoroso, cabe registrar que o rei do cangaço deu todo o apoio a Corisco. Cristina ficou escondida com o bando, durante alguns meses, e, certo dia, quando estava a caminho da casa de familiares, terminou sendo assassinada: Português tinha esperado o momento adequado, e contratara outros justiceiros para vingar sua honra.

Cabe salientar que Lampião e seus cabras, brigando com os civis que os perseguiam e com a polícia de vários Estados nordestinos, resistiram quase vinte anos. Por todo esse tempo, eles assaltaram propriedades, atacaram povoados, vilas e cidades, roubaram, pilharam, torturaram e mataram os seus adversários. Por isso, tinham que conviver com intensos tiroteios e emboscadas e viver fugindo.

Nesse contexto, um acontecimento decisivo veio mudar a história do cangaço. No dia 28 de abril de 1938, Lampião acampou na fazenda Angicos, no sertão de Sergipe, seu esconderijo de maior segurança. Era noite, chovia muito, e todos dormiam nas barracas. Os soldados chegaram tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Quando alguém deu o alarme, não houve tempo para nada. Os policiais abriram fogo com metralhadoras portáteis e o bando foi pego desprevenido. Dos 34 cangaceiros, 11 foram degolados (Lampião e Maria Bonita estavam entre eles). Os que sobreviveram, ou fugiram, ou se entregaram à polícia.

Na ocasião, Corisco e Dadá estavam bem longe da fazenda de Angicos. O famoso casal, durante a chacina, se encontrava na fazenda Emendadas, no Estado de Alagoas.

Cinco dias após o ocorrido, Corisco, induzido por João Almeida Santos (vulgo Joça Bernardo), o verdadeiro traidor, invadiu a casa do coiteiro (fazendeiro que se tornava amigo dos cangaceiros) José Ventura Domingos, e, pensando estar vingando o culpado, seguiu a Lei do Talião "olho por olho, dente por dente": assassinou o dono da casa, sua esposa e filhos

Por solicitação de Dadá, deixou escapar vivos uma mulher (que estava amamentando um bebê) e seus três filhos pequenos, justificando que alguém tinha de viver para contar a história. Em seguida, degolou os cadáveres, colocou as cabeças dentro de um saco de estopa e, com as seguintes palavras, enviou-as ao tenente João Bezerra:

Faça com essas cabeças uma fritada. Matei duas mulheres para vingar a morte de duas que foram assassinadas em Angico.

Em outubro de 1939, durante um duro combate contra três volantes, na fazenda Lagoa da Serra, em Sergipe, Corisco foi ferido, e nunca mais voltou a se recuperar: ficou com a mão direita paralisada e, o braço esquerdo, atrofiado. A partir desse dia, Dadá se tornou a primeira e única mulher a portar um fuzil.

Um aspecto importante precisa ser registrado: o que sobrava em beleza, em Corisco, faltava-lhe em diplomacia e habilidade para comandar. Ele era cruel, possuía modos bruscos, e os coronéis - dentre os quais se encontravam os grandes fornecedores de munição - não o viam com bons olhos. E isto também contribuiu para o enfraquecimento do cangaço. Além de todos os problemas, como lutar sem o apoio bélico necessário por parte dos coronéis? O bando só conseguiu resistir durante dois anos.

Em maio de 1940, o Diabo Louro dissolveu o bando. E, somente na companhia de Dadá, de Rio Branco, e da mulher deste, partiu para o sul da Bahia, à procura de um refúgio seguro, começando uma longa jornada pelo sertão. Para não ser reconhecido, vestiu-se de vaqueiro, cortou os longos cabelos, aboliu o chapéu e as roupas do cangaço, e, com todo o ouro que juntara, planejou levar uma vida diferente.

A Justiça passou a oferecer, por sua vez, uma atenuante de pena aos cangaceiros que, espontaneamente, se rendessem. Se isto representava, para uns, a chance de abandonarem, em definitivo, a vida criminosa, para outros (tais como Corisco), a rendição era algo inadmissível.

No dia 5 de maio de 1940, finalmente, na região de Brotas de Macaúbas, no Estado da Bahia, a volante do tenente José Rufino cercou o que restou do bando. Corisco foi atingido na barriga, por uma rajada de metralhadora, ficou com os intestinos à mostra, e conseguiu sobreviver apenas dez horas. Seu corpo foi enterrado em Jeremoabo (BA).

A sepultura de Corisco, entretanto, seria violada. O cadáver foi exumado, tendo a cabeça e o braço direito decepados. Qual a razão disso? Os responsáveis alegaram que os cientistas necessitavam esses restos mortais para estudá-los. Estes foram medidos, pesados, estudados, e, na ausência de quaisquer deformidades físicas ou mentais, ficaram em exposição, por mais de 30 anos, no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, ao lado das cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros.

No conflito de Brotas de Macaúbas, Dadá foi atingida na perna e, não obstante ter passado por várias intervenções cirúrgicas, teve que amputar o pé direito. Ela declarou, em relação ao confronto final, que os policiais vieram decididos a roubá-los e a matá-los, e que seu companheiro era deficiente físico, e não teve chance para se defender. Mesmo amputada, a viúva de Corisco voltaria a se casar com um pintor (de casas) de Jeremoabo, e viveu mais de meio século. Ela faleceu em fevereiro de 1994.

Durante muitos anos, as famílias dos cangaceiros lutaram para que seus parentes tivessem um enterro digno. O economista Silvio Bulhões, um dos filhos de Corisco e Dadá, se empenhou bastante junto às autoridades, solicitando que aquela exibição pública desumana e macabra fosse interrompida.

Um passo importante surgiu com o Projeto de Lei nº 2.867, de 24 de maio de 1965. O Projeto, estabelecendo que fossem sepultados os restos mortais dos cangaceiros, surgiu nos meios universitários de Brasília, através das denúncias do poeta Euclides Formiga, sendo reforçado pelas pressões do povo e do clero brasileiros. A despeito desse Projeto, no entanto, o enterro demorou anos para ser concretizado, vindo a ocorrer somente no dia 6 de fevereiro de 1969.

Cabe registrar que, um ano antes do surgimento daquele Projeto de Lei, ou seja, em maio de 1964, Glauber Rocha concorreria à Palma de Ouro, em Cannes, no Festival Internacional do Filme, com a película Deus e o diabo na terra do sol (e música de Sérgio Ricardo). No filme, assistia-se a um duelo inesquecível, travado entre Corisco e Antônio das Mortes e, nele, Glauber conseguiu sedimentar o mito desse cangaceiro, como um homem indomável, consagrando-o perante o público. Em uma das cenas clássicas, por exemplo, ouvia-se o matador gritando: Se entrega, Corisco! E, este último, de braços abertos, lutando e respondendo: Eu não me entrego, não! No disco homônimo, a letra da música enfatizava que ele não era um passarinho, para morrer lá na prisão, e só se entregava com a morte.

Mas, quem conhece a história verídica, sabe bem que, no derradeiro conflito, ao ser atingido mortalmente pelos projéteis, o Diabo Louro diria, apenas:

Maior são os poderes de Deus!



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