24/09/05 - 20h:57mDenunciar

CABOCLO : CONGADO DA FESTA DO ROSÁRIO


"Durante três dias, os humildes se tornam senhores da terra. E reinam".
(Revista "Superinteressante")


A principal manifestação folclórico-religiosa serrana, que está para completar 300 anos, pode ser apreciada por ocasião da Festa do Rosário, sempre no primeiro final de semana de julho.

É formada principalmente pelos grupos de Caboclos, Catopês, Marujos, pelo Reinado e pela "Caixa de Assovio". Retrata ricas tradições, conservando elementos das três principais raças que contribuíram para a formação do povo brasileiro e serrano. Este sincretismo não esconde, no entanto, a capacidade dos negros de continuarem cultuando suas tradições, através da incorporação da divindade dos brancos, a Nossa Senhora do Rosário.

No Reinado do Rosário, o Rei, a Rainha, os dois Juízes e as duas Juízas da festa, acompanhados do cortejo real (mucamas e cavalheiros), desfilam solenemente pelas ruas sob guarda-chuvas, o que segundo alguns, representam "reminiscências dos para-sóis como símbolos realengos entre os povos orientais, desde a remota Assíria".

Os catopês (origem na palavra "candomblê") despertam a curiosidade por causa de suas vestes: são cobertos de plumas de emas, peito enfeitado com espelhos e colares, com capas multicores às costas. Tocam tambores, tamborins, xique-xiques e reco-recos. Atualmente, desfilam na festa dois grupos de catopês: o do Serro e o da localidade do Baú, do distrito de Milho Verde. Já os marujos, se trajam de uniformes nas cores branca e azul e tocam violas, violões, cavaquinhos, bandolins, xique-xiques, pandeiros e caixas de couro. E, finalmente, os caboclos, de flechas em punho, com capacetes e saiotes enfeitados com penas coloridas, pulseiras, colares, tornozeleiras e pinturas no rosto.

O longo e emocionado relato de Antônio de Paiva Moura, realizado em 1973, mostra as marcas que a Festa do Rosário tem deixado em todas as gerações: "Em outras cidades de Minas, as Festas do Rosário são apresentadas em janeiro e outubro. Somente no Serro o dia exato é 29 de junho [isto em 1973]. Mas por que? Com a decadência da mineração, mineiro correu para agricultura. No Serro, são pequenos agricultores que vivem da lavoura do milho, engorda de suínos e do famoso queijo. A colheita do milho se faz em meados de junho. É tempo de fartura. É tempo de presentear. É tempo de folgar da tremenda luta pelo cultivo da terra. É tempo de festa e de vestir novas roupas. Não são e nunca foram poucos os gastos com uma festa tão alegórica. Justifica-se a fixação da data... num período de colheitas..."



ROTEIRO DOS TRÊS DIAS DA FESTA


"Na madrugada do sábado, primeiro dia da festa, sai à rua um grupo que leva a Caixa de Assovio, que é composta de três flautas de bambu e duas caixas de couro, e vai de casa em casa ao encontro dos festeiros e mordomos.
Ainda no primeiro dia à noite, o hasteamento do Mastro, com queima de fogos e desfile de marujada, catopê e caboclos".


"Domingo, o grande dia. O ponto alto desta epopéia folclórica. Os desfiles começam ao meio-dia e não param antes da meia-noite. Os primeiros são os marujos: uniforme branco e azul; sons e vozes fazem emocionar a multidão, que se apinha nas ruas e praças do Serro. Em seguida desfilam os caboclos: fantasias de índios, ricas em cores e ornatos metálicos. Caracteriza-se também pela rapidez e ação violenta nas evoluções. O instrumental consiste de sanfonas, caixas, reco-reco, completando-se com arcos e flechas. É impressionante a disposição com que os componentes se lançam às ruas por tanto tempo, em passos rápidos e saltos".

"Os catopês desfilam por último: o mais importante de todos os grupos, pelas convenções hierárquicas e cenográficas que fazem imprimir um caráter de seriedade e expectativas. Levam o rei e a rainha, acompanhados de juízes e demais autoridades do reinado. Flautas e caixas em ritmo mais lento, fazem abrir alas para a passagem do rei e da rainha, ricamente vestidos. Como se diz em voz-corrente: "flautas e caixas fazem um lamento dos escravos".


"Na segunda-feira, os grupos desfilam novamente, por ocasião das posses dos novos festeiros: rei, rainha, juízes e mordomos. São os inscritos na Irmandade do Rosário que conservam e transmitem, de geração em geração, a disciplina, a tradição e os costumes. Mas não falta a saudável capacidade de inovação e criatividade, sem a quebra da tradição. Observamos, como os "Caboclos", este ano, graciosamente, adaptaram em sua bateria, uma calota de automóvel. Ao lado destas improvisações, as barraquinhas e os jogos são espetáculos que convidam as massas ao movimento e à emoção".

Com as pequenas evoluções do tempo, a festa continua no mesmo ritmo. Uma das mudanças foi a data da festa, transferida para o primeiro fim-de-semana de julho, com a finalidade de coincidir com as férias escolares e facilitar a presença dos visitantes, dos festeiros e dos serranos ausentes.

O grande poeta serrano Adão Ventura, no rodapé de seu poema "Festa do Rosário: Danças Típicas", assim descreve os principais grupos folclóricos: "Os Marujos simbolizam o descobridor, o que veio de longe, o estrangeiro de punhos rendados. Os Caboclos simbolizam os índios: uma raça em extinção no Brasil. Ontem, dizimados pelos bandeirantes e demais aventureiros à cata de ouro e pedras preciosas. Hoje, desalojados de suas terras e obrigados a aceitarem uma imposição cultural do sistema. Os Catopês simbolizam os escravos: a força geradora de trabalho da sociedade escravocrata dos séculos do ouro, o eito, o sol-a-sol, o chicote no lombo, as picardias dos feitores e senhores". A Caixa de Assovios, historicamente, representa os gemidos dos negros no cativeiro das senzalas. É atualmente composta por quatro homens, que tocam pífaros e tambores de couro. Desfilam sozinhos, durante a Matina, e juntamente com os Catopês, acompanhando o Reinado.



Antecedentes Históricos:

O culto que diversas comunidades negras do país rendem à Sra. do Rosário é uma peculiaridade tipicamente brasileira. Mas há antecedentes históricos que nos remetem a quase um milênio atrás.

O uso do Rosário remonta ao ano de 1096, proposto por "Pedro, o Eremita", organizador da primeira Cruzada. A primeira Irmandade surgiu com São Domingos (1170-1221), fundador da Ordem Dominicana e dirigente da triste Santa Inquisição, com o objetivo de divulgar a reza do Rosário. A Festa atual lembra a vitória dos cristãos na batalha naval de Lepanto, na Grécia, em 07/outubro/1571, sob proteção da Virgem do Rosário, contra as forças do Islão (muçulmanos). O acontecimento motivou uma comemoração especial pela liturgia da Igreja, por determinação do Papa Gregório XII. Só depois surgiram no Brasil, ao longo dos anos, as lendas, entre as quais aquela do aparecimento de N. S. do Rosário sobre as águas do mar, que foi festejada pelos catopês (negros), caboclos (índios) e marujos (portugueses). Eles pediram à soberana Rainha dos Mares para que viesse à terra, o que somente foi atendido depois que os catopês dançaram, tocaram e rezaram e que, por isto, acompanham de perto o Reinado, durante a festa, e é considerada a protetora dos negros do Brasil. Por outro lado, a festa foi e tem sido de grande importância para a organização social e a preservação da cultura "banto".

A primeira Irmandade do Rosário no Brasil surgiu no RJ, em 1639, espalhando-se depois para as capitais do norte-nordeste. No século XVIII, o descobrimento das minas, ao atrair negros e mestiços de todo o Brasil, trouxe também consigo a semente destas irmandades, implantadas na região do Serro Frio, através da Vila do Príncipe e dos arraiais de Conceição e do Tijuco.


Foto: caboclo José Rabelo (acervo da USIMINAS)

Fonte: "GUIA DO SERRO"


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