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African Mask




Podemos encontrar a presença de máscaras em várias localidades do mundo, imersos em períodos distintos da história. Cada relação de tempo e espaço nos remete a uma identidade própria.
No antigo Peru, a descoberta da fundição e do trabalho com chapas de ouro, permitiu que máscaras produzidas em ouro repuxado fossem utilizadas nos funerais sican para o ornamento dos mortos de famílias de castas elevadas. O emprego destas máscaras dotavam ao cadáver uma natureza eterna, de preservação em oposição à degeneração dos tecidos mortos.
O uso da máscara como elemento cênico surgiu no teatro grego, por volta do século V a.C.. Elas eram utilizadas como elemento construtor do personagem. Por meio dela a imagem de uma natureza essencial era transmitido ao espectador. Suas expressões, anunciavam o destino final do personagem.
No percurso da história, o teatro abandonou esta ornamento, porém é possível idenficá-las, ainda, em algumas peças na Commedia dellâArte italiana, também conhecidas pelo nome Commedia Delle Maschere (comédia das máscaras). Este apontamento passa como o tempo a ser o símbolo do próprio teatro. Duas máscaras unidas uma alusão aos dois principais gêneros da época: a tragédia e a comédia. A primeira tratava de temas referentes à natureza humana, bem como o controle dos deuses sobre o destino dos homens, enquanto a última funcionava como um instrumento de crítica à política e sociedade atenienses. Durante um espetáculo, os atores trocavam de máscara inúmeras vezes, cada uma delas representava uma emoção ou um estado do personagem. As máscaras neste caso apresentavam uma grande importância no contexto deste teatro por que auxiliava na ridicularizar o personagem. Sua presença marcante era trabalha com um certo cuidado técnico para que não houvesse prejuízos no ato cênico Para isto, apresentavam um recorte a qual deixava a parte inferior do rosto à mostra. Esta modelagem permitia uma dicção perfeita e uma respiração fácil as quais corroboravam na ação do ator em cena.
Esta importante inserção ao teatro abre os limites do ato cênico e é facilmente assumida pelos grandes festejo e bailes da renascença italiana, no séc. XIV, no período de Paulo II.
No Japão do século XIV, nasceu o teatro Nô, que também utilizou a máscara como parte da indumentária. Este gênero foi patrocinado pelo shogunato no século 14 e é o teatro das máscaras, medieval, com influência xintoísta e zen budista. Ele trabalha o tema da superação da ilusão, essencial ao budismo e era praticado apenas por homens. O Nô trabalha grandes temas e fala do cotidiano apenas como metáforas para questões maiores. As máscaras assinalam a persona ou mais freqüentemente estados de espírito. Os atores distorcem a voz, conferindo-lhe uma entonação extraterrena e expressam as suas emoções através do movimento.
Na arte do séc. XX, em específico o Surrealismo, é percebida uma acolhida á cultura primitiva como elemento propício á novos estilos. Seu estilo próprio e distinto da natureza artística européia transformou-se em objeto de atração á Pablo Picasso em meados do ano de 1905, a qual serviu de inspiração ao movimento cubista. Em sua obra, "Les Demoiselles d´Avignon" marca, segundo STRICKLAND (2004:22), "o ponto de transição da fase de influência africana para o puro Cubismo de Picasso".
Outros nomes como, Max Walter Svanberg, Enrico Baj, Roland Penrose, Magritte, por exemplo, tiveram também um olhar especial para estes elementos as quais tornaram-se pano de fundo para muitas de suas obras.
No Brasil, Na época do descobrimento, havia em nosso país cerca de 5 milhões de índios. Hoje, esse número caiu para aproximadamente 200 000. Mas essa brutal redução numérica não é o único fator a causar espanto nos pesquisadores de povos indígenas brasileiros. Assustados também a verificação da constante a e agora já acelerada a destruição das culturas que criaram, através dos séculos, objetos de uma beleza dinâmica e alegre.
as máscaras para os índios, têm um caráter duplo: ao mesmo tempo que são um artefato produzido por um homem comum, são a figura viva do ser sobrenatural que representam Elas são feitas com troncos de árvores, cabaças e palhas de buriti e são usadas geralmente em danças cerimoniais, como, por exemplo, na dança do Aruanã, entre os Karajá, quando representam heróis que mantêm a ordem do mundo.
No Nordeste, a cultura carnavalesca, preservada a mais de 50 anos, também mantém viva as máscaras e é no sertão de Pajeú , cidade que fica a 450 quilômetros de Recife, que folguedo de Triunfo acontece.
Os caretas, com suas fantasias coloridas, máscaras e o chicote de madeira percorrem as ruas da cidade e são recebidos pelas famílias com um espírito de celebração.
Foram os personagens deste gênero teatral, como o Arlequim e a Colombina, que serviram de inspiração para as máscaras carnavalescas, das fantasias e a irreverência que se vê nas ruas de hoje nos leva ao passado e sua memorável história.
Mesmo para um contexto menos erudito, a presença das máscaras torna âse elemento de livre acesso. Quem nunca assistiu o célebre Zorro e sua máscara preta, ou Batman e Robin, o Máscara, Coringa, o Fantasma da Opera e dezenas de outros exemplares conhecidos os quais nos deixam sempre o evidente fato de que as máscaras existem e sempre existirão.
Na cultura primitiva e africana as máscaras não são apenas a expressão de algo, mas sim, denotam a presença do mágico e do divino, elemento este que se diferencia das demais ordens de valores.
É possível perceber o abandono das máscaras na história da cultura. Como afirma MONTI (1992) :
"Para o homem moderno, de fato, a máscara, plenamente aceita na aurora da sua história, perdeu significado primário autêntico e, desaparecendo como objeto realmente concreto, transformou-se em disfarce psicológico."
Diferentemente de outras culturas as quais as máscaras foram abandonadas gradativamente de seus contexto, a África as mantém como forte elemento nativo e sua existência a qual não se delimita à uma natureza artesã. No entanto elas estão presentes em todos a cultura negro-africana, deste de tempos bastante distantes até os dias de hoje. Porém, quando relatamos sua presença viva, como obra de arte, não aponta-se esta existência em todo seu continente, mas sim em sua porção ocidental, áreas que se estendem do Senegal á Angola, limitando âse ao "(...)norte pelo Saara, a oriente pelos Grandes Lagos e ao sul pelo deserto de Kalahari."
Este unidade diversa das máscaras angolanas apresenta uma inerente relação entre a dança, a música e a ritualística de seu povo. Esta simbiose é marcada pelos olhares atentos dos anciãos, detentores dos conhecimentos secretos de sua religiosidade.
Existem muitos cerimônias secretas na África e quase todos é possível notar a presença de máscaras. Um destes cerimoniais , do povo Maiaca de Angola por exemplo, marca a passagem do papel social da infância para a puberdade. Este modificação de caracter social é vivificada pela circuncisão desta comunidade. Como relata Milheiros (1967):
"(...) os rapazes dançam em grandes batucadas que duram até cinco dias, comendo bastante criação (galinhas) morta para essa festa e bebendo muito malavo, depois do que entram para o recinto (...) vedado em altura suficiente para que não se veja o que se passa lá dentro.(...) a porta principal que dá entrada ao recinto, é antecedida por um pequeno corredor em forma de S. (...) Neste recinto praticam o corte e ali permanecem os operados cerca de oito meses. (...)Os Muquixes-máscaras (designação que também abrange os homens mascarados com atavios de muquixes) que tomam parte nas cerimónias de circuncisão, dividem-se em dois grupos: Cosso-muquixe vulgar; e, Bau-muquixe com chifres. (...)com cara masculina, enfeitada com mabelas, uma cabeça enorme mais ou menos esférica e três grandes chifres; Quissocolo - máscara semelhante ao Bau, mas com chifres para a frente; e, Maienda - semelhante ao Bau, mas com nariz enorme e revirado para cima.(...); e, o Cacungo - mascarilha simples feita de mabela e junco."
Nesta ritualística, o emprego da máscara personifica o caráter moral de sua simbologia. Por outro lado, os chifres, a cabeça grande, entre outros aspectos, trás para o ambiente uma concepção zoomórfica dos operadores da ação. Nabucodonosor, rei da Babilônia de 604 a.C. a 562 a.C., tinha o corpo coberto por pêlos e alimentava-se de grama. Outro personagem histórico grego, Circe, transformou os soldados de Ulisses em porcos.
Essas alternâncias entre características humanas e animalescas sempre estiveram presentes na história do homem e revelam concepções míticas na formulação dos problemas cotidianos inerentes á cultura. Esta herança cultural remontam a tradição e seus processos os quais são transmitidos ás gerações por meio de encenações presentes nos atos da comunidade local. Com o passar do tempo a idéia desta existência mítica adere á mente de seus povo e por mais distante que este possa estar, quer seja por uma razão temporal ou espacial, estas imagens retornam ao indivíduo. Este voltar acaba mais cedo ou mais tarde projetado nos atos sociais, nos festejos, nas cerimônias, os juízos sociais, tornando-se um ponto de referência, um elo entre o passado e o presente.
Este estado vivo e presente do mito paira sobre as máscaras, estas assumem seu papel material e formal como meio de passagem para estas informações.
É por meio desta arte que o passado perde sua linha do tempo e os valores intrínsecos de seu povo são preservados em torno se sua própria ideologia acerca do divino e sua presença, em seu estado mítico.
Para NIETZSCHE a máscara acentua uma determinada vontade de poder; é uma atuação que desaparece ao final do ato.
De uma forma ou de outra, humana ou sobrenatural, a existência deste elemento suscita uma segunda voz, quer seja ela de natureza moral, religiosa ou ambas em consonante poder. Como diz MONTI :
"(...) o negro africano vê na máscara não só um meio para fugir à realidade cotidiana, mas sobretudo uma possibilidade de participar da multiplicidade da vida do universo, criando novas realidades fora daquela meramente humana. Mascarado, ele poderá ser também um homem-espírito, benéfico ou maléfico, homem-animal, homem-divindade."
O termo "máscara" possui uma série de sentidos nos escritos de Nietzsche. Destaca-se, neste estudo, a sua utilização para designar uma superfície (ABM, 230), a maneira como uma determinada vontade de poder (que é apenas um atuar) coloca-se em cena e desaparece com a própria cena.
A maioria das máscaras de Angola é feitas de madeira , fibra vegetal e resina. As técnicas usadas para a sua construção diferem de comunidade para outra , mas há muitos aspectos que são comuns, como por exemplo ,as funções que elas desempenham .As várias formas da sua decoração , reflectem o quotidiano cultural das comunidades que elas representam .Algumas apresentam figuras antropomórficas , outras zoomórficas e geométricas .
Tendo cada uma a sua própria história , as máscaras angolanas jogam um papel crucial na asserção e consagração das deferentes cerimónias e ritos , tanto de iniciação masculina como feminina , fúnebres ,de entronização ,de casamentos ou de propiciação .Por outro lado , cada cerimónia ou rito é representado por uma máscara considerada sua patrona, responsável pela orientação dos movimentos policêntricos dos bailarinos (uma série de movimentos combinados dos dançarinos guiados pelo mascarado patrono da cerimónia) .
A maioria das áreas sócio culturais de Angola ,considera que as máscaras detém um poder sobrenatural que consagram as instituições e servem de mediadoras entre o mundo dos vivos e dos espíritos dos antepassados. Por esse facto ,determinadas camadas dessas comunidades ,não podem saber a essência que envolve as máscaras, como é o caso das mulheres e dos não circuncidados .
Os mascarados não dançam sem a música e esta não existe sem os seus respectivos instrumentos que a produzem. Na generalidade ,as exibições dos mascarados fazem â se com os sons de batuques . Quando a cerimónia é de grande envergadura , é com uma orquestra de batuques ,coadjuvados por cinguvu e outros instrumentos que os sons apaixonam os bailarinos mascarados.
Quando não há harmonia na música ,isto é ,se os tocadores descompassarem os ritmos ,o que desagrada os bailarinos mascarados , estes correm e dão volta aos tocadores para orientá-los a melhorar os sons. Em alguns casos ,os melhores mascarados já foram também tocadores de batuques , principais instrumentos da música tradicional angolana que efervesce o coração dos bailarinos mascarados .

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Domingo, 30 de Março de 2008
A metafísica das máscaras africanas
texto de Rubens Tiano

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