IMPERATRIZ, 154 ANOS -- O QUE LAMENTAR, O QUE COMEMORAR
IMPERATRIZ, 154 ANOS
P A R A B É N S E P Ê S A M E S
Nos estudos e pesquisas que fiz quando preparei a Enciclopédia de Imperatriz (para adquirir, ligue 099-9977-4474), fui em busca do que estava por trás do nome do município, que hoje completa 154 anos de fundação. Pois bem: Na base do topônimo “Imperatriz” existe um antigo verbo latino que tem, entre outros, o significado de “esforçar-se para obter”.
Parece algo cármico, algo como uma fieira, que atravessa a garganta dos tempos e os une ou relaciona de algum modo, como se fossem peixes miúdos atravessados e unidos pela guelra, levados em cambo pelo menino pescador das caxienses águas do Itapecuru.
Sim, quedemo-nos ante o relato bíblico: no princípio, era o verbo. Além do verbo etimológico de Imperatriz, “esforçar-se para obter” é o que resume ou une os vários períodos históricos da segunda maior cidade do Maranhão. Ela começou exatamente com um esforço muito grande, que custou tempo, recursos e vidas humanas. Frei Manoel Procópio e as dezenas de pessoas que com ele partiram de Belém, em 1849, passaram mais de três anos subindo o rio Tocantins, remando contra as correntezas, parando aqui e acolá, sendo alvo mortal de doenças e de brigas com índios. Foi o governante da província do Pará, o catarinense Jerônimo Francisco Coelho, o responsável pela decisão e determinação de, mais que um presídio, instalar-se uma povoação à beira do rio Tocantins, que teve frei Procópio como fundador. Não se tem foto ou imagem do frei, nascido no interior da Bahia.
Em 16 de julho de 1852, finalmente, encontrou-se um lugar, uma clareira próxima à margem direita do rio e ali iniciou-se o que viria a ser o município com um dos maiores crescimentos registrados no país, na segunda metade do século 20.
Para infelicidade geral da nação imperatrizense, a energia dos atos de bravura e emprendedorismo dos muitos pioneiros e agentes produtivos não tem sido capitalizada pelos políticos e agentes públicos que infestaram a cidade.
Resultado: essencial e estruturalmente, Imperatriz não se conhece, não sabe de si, como jovem que cresceu demais e não acompanha de cuidados a madureza física em que se encontra. Todos cuidam da sobrevivência, alguns cuidam do acessório e quase ninguém se preocupa com o fundamental para a existência, com qualidade, da vida econômica, urbanística e sociocultural do município. Se, por um lado, imperam arremedos de gestão, por outro grassam medos de elites encasteladas em suas conveniências. Reclama-se muito, mas apenas nos rodapés das conversas e conversinhas em “petit comité”, nunca nas manchetes do quotidiano político, social, empresarial e comunitário.
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A democracia, lamentavelmente, à falta de coisa melhor, é o ambiente mais propício para instalarem-se ditaduras -- a ditadura de incertos políticos, a ditadura do silêncio dos inocentes profissionais de Imprensa, a ditadura do poder do dinheiro e a ditadura do dinheiro do Poder. Em torno disso, como subprodutos e satélites, gravitam, giram dezenas de milhares de desassistidos de toda sorte, vítimas de um premeditado e danoso processo de exclusão do direito a quase tudo: à educação de qualidade, à saúde de qualidade, à urbanização que cause orgulho e nos envaideça e estimule a mostrar nossa cidade a convidados e visitantes. (Recentemente, um empresário saiu de seu estado no Sudeste e veio, pela primeira vez, até Imperatriz, acompanhando a namorada que queria passar uns dias aqui. O depoimento da moça é de entristecer, ante a reação e decepção do companheiro acerca do que viu e, sobretudo, do que não viu em nossa cidade -- e que estamos acostumados a ver...).
O quanto Imperatriz tem de se esforçar para obter (como, carmicamente, já antecipa a origem de seu nome)? A lei do carma prevê transformações para o presente e para o futuro, mas as mudanças não se dão apenas para o lado positivo -- chamado “mocsa”, no hinduísmo e no budismo.
As mudanças positivas para Imperatriz há muito são devidas e há muito deveriam ter acontecido. Oportunidades não faltaram. Potencialidades não faltam.
Alguns registros aligeirados e aleatórios confirmam como Imperatriz vem perdendo o bonde rumo ao verdadeiro desenvolvimento, por falta de vontade política, de planejamento estratégico e de coragem e cobrança “séria”, permanente, da sociedade. De entre umas três dezenas de casos, sintetizo alguns, de memória, sem qualquer critério de seleção.
1) No último trimestre de 2005, um representante de uma entidade binacional de fomento à indústria passou dias em Imperatriz e região. Reuniu prefeitos da região (muitos não foram nem mandaram representantes), mostrou o que o outro país queria, apresentou projetos de instalação de pelo menos cinco indústrias em Imperatriz (que iam de tratores e bicicletas a fraldas descartáveis), além de oportunidades para outros municípios sul-maranhenses. Resultado: ninguém se interessou, exceto um assessor da prefeitura de município vizinho, que ligou pedindo outras informações, mas também deu em nada. Os projetos foram parar no Tocantins e o representante da câmara binacional, um maranhense com trânsito internacional, emocionou-se, frustrado e decepcionado por ver seus esforços não terem a mínima guarida no estado que o viu nascer.
2) Este ano, veio a Imperatriz um especialista em implantação de centros de fomento a eventos de negócios e de apoio a visitantes, o tal Convention & Visitors Bureau (C & VB), entidade de sucesso presente nas grandes cidades do Brasil e do mundo. Em reuniões preparatórias, alertei ao empresariado e às autoridades políticas e administrativas presentes sobre a “síndrome do carro velho” que é endêmica, de Imperatriz: muito “arranque”, muita fumaça e nenhuma velocidade ou continuidade no caminho da realização dos projetos. Isso foi em março. O convidado (um europeu) veio, deu palestra, foi embora e parece que, sem querer querendo, colocaram escondido em sua bagagem o ânimo dos imperatrizenses que se autoproclamavam envolvidos com o C & VB. Do jeitinho que fora antecipado. Por enquanto, ninguém mais fala nisso, nem os empresários, nem as tais autoridades municipais, nem as universidades que, a princípio, se diziam co-atores do projeto.
3) Antes disso, em fevereiro deste ano, outra bomba de fumaça foi relançada pelas autoridades, na presença do empresariado (algo idêntico já ocorrera em 1997, igualmente sem nenhuma ação posterior). Uma tal promoção chamada “Liquida Imperatriz” (assim mesmo) pretendia dar mais dinamismo à economia local. Com pompa e circunstância, auxiliado pelos recursos da Informática, exibiu-se pavoneamente o esboço do rascunho da minuta do anteprojeto da promoção. Marcaram-se dia e hora para, ainda em fevereiro, o negócio começar. Até hoje. Já se mudaram algumas das autoridades envolvidas, tanto as do setor público quanto da iniciativa privada, mudaram-se os tempos (agora é só eleições), só não se muda esta reiterada incapacidade de sermos testemunhas e avalistas de lançamento de “foguetes” e “bombas” -- que, se eram parte de um plano de ação, transformaram-se em artes de prestidigitadores e ilusionistas, nada mais que os mesmos mágicos (ou, pelo menos, a mesma magia) de sempre.
4) Na segunda metade da década de 1990 esteve aqui o presidente da Eletronorte. Reuniu políticos, imprensa, empresários e autoridades diversas. Fez uma palestra sobre o que estava vindo para região. Ao final, abriu para perguntas e debates. Ninguém perguntou nada. Ante o silêncio de uma platéia pretensamente interessada e conhecedora do ambiente e das realidades regionais, alguém faz duas perguntas e pede duas coisas: a cópia da palestra e o compromisso da Eletronorte de destacar, às suas expensas, uma equipe de técnicos para estudarem a realidade de Imperatriz e produzirem, ao final, documento com análises e sugestões para o desenvolvimento da cidade e sua região. Na sua resposta, o presidente disse ter aprendido a ler à luz de lamparina no interior do Maranhão e agora dirigia uma das maiores empresas de energia do mundo, assinava cheques que correspondiam a centenas de milhões de dólares e que, atender àquela solicitação, era o mínimo que ele poderia fazer como colaboração e demonstração de interesse. Só pediu o seguinte: que as autoridades da cidade formalizassem o pedido. O interesse pelo desenvolvimento tecnicamente planejado dependia de um ofício mixuruca -- entretanto, a correspondência não foi assinada... Parece simplório, mas é, antes, triste e trágico.
Bom. Poder-se-ia detalhar sobre coisas e causas deixadas ao léu, ao deus-dará, por absoluta ignorância e inapetência das autoridades. Entre os diversos tópicos, o conhecimento, uma pesquisa de uma federação empresarial nacional, as pesquisas da Fundação Getúlio Vargas e revista Você S. A. (da Editora Abril, São Paulo), o Maranhão do Sul, o Distrito Industrial, o estudo do Prodiat (Programa de Desenvolvimento Integrado da bacia do Araguaia—Tocantins), o decréscimo da produção econômica, as empresas que queriam mas não puderam se instalar em Imperatriz, os empresários e empreendedores que levam anos para obter licenças de autorização para seus negócios e financiamentos em bancos oficiais de desenvolvimento, o Eixo Araguaia—Tocantins (ATO), o Corredor Centro—Norte de Exportação. Talvez a gente fale disso em ou na próxima edição. Talvez não. Depende.
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Por tudo que ela é, mas, em especial, por tudo que já deveria ser, parabéns e pêsames, Imperatriz, pelos seus 154 anos de existência.
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(P. S. – Diversas imagens históricas de Imperatriz, divulgadas por televisões locais nestes dias, foram copiadas da “Enciclopédia de Imperatriz”, que as fez ou as obteve, com exclusividade. Por direito legal e, sobretudo, por dever ético, profissional, deveria, no instante da exibição das imagens, ser colocado o crédito da publicação. Isso é feito até pelas grandes emissoras. Mas grandeza não deveria ser só uma questão de tamanho...)
(P. S. 2 – A propósito de tamanho, a área de Imperatriz NÃO é 1.538 quilômetros quadrados, como se tem divulgado e repetido por aí. Desde 2002 o município perdeu mais cerca de duzentos quilômetros quadrados. Sua área, portanto, é de 1.367 km2. Também não adianta dizer que a população é de mais de trezentos mil habitantes. O fato de ser morador ou nascido na cidade não dá competência legal, nem muito menos técnica, para inflar-se artificialmente o número de habitantes em mais de 25%. Imperatriz tem pouco mais de 230 mil habitantes).
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EDMILSON SANCHES, jornalista e consultor de empresas (edmilsonsanches@uol.com.br)
(Ilustração: foto de pôr-do-sol no rio Tocantins, o rio da fundação de Imperatriz, em 1852. Foto: amatur.gov)
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