Concebemos a casa como um espaço de sedução"
Concebemos a casa como um espaço de sedução"
Se o poeta diz que o caminho se faz ao andar, é isso que eles e elas estão fazendo há três anos na região do ABC paulista, exatamente na cidade de Santo André, percorrendo um árduo mas maravilhoso caminho, "em prol da liberdade, da valorização das diferenças, contra a dominação e a favor de modos de vida mais ecológicos". Estamos falando da Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa", e a ANA conversou com alguns membros do Coletivo Ativismo ABC, grupo que mantém o espaço. Confira a seguir a entrevista.
Agência de Notícias Anarquistas > Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa"? Da onde vem esse nome curioso? (risos)
Guilherme < A parte da "Lagartixa Preta" surgiu durante as reformas da Casa, logo no começo. Quando revirávamos o entulho, íamos achando ninhos de lagartixas pretas.. À parte do "Malagueña Salerosa" surgiu do nosso vizinho que na época já tinha uma senilidade avançada e hoje está desaparecido dentro da própria Casa. Ele cantava essa música que os mariachis gostam, como uma espécie de cumprimento local: as pessoas diziam "Malagueña" e ele respondia "Salerosa!". E, às vezes, cantava o resto da música se muito estimulado.
ANA > E já são três anos de espaço, não? Conte um pouco a trajetória de vocês...
Mix < São três anos de espaço sim, mas o coletivo já completa 6 anos, no começo éramos mais um coletivo de ações diretas e intervenções urbanas, até o momento que vimos que com uma sede poderíamos colocar mais em prática aquilo que pensávamos, então começamos a fazer shows "Com Causa pela Casa", foram oito ao total se eu não me engano, muitas bandas tocaram para o "Ativismo ABC" sem cobrar nada, temos muito o que agradecer a elas. Daí foi possível iniciar a Casa, lá nós pagamos aluguel.
ANA > A Casa abre todos os dias, como é o esquema de horários, a logística dela, essas coisas...
Guilherme < A Casa abre de modo intermitente durante a semana. Entretanto, abre com certeza na sexta-feira para o almoço grátis e nos fins-de-semana para as várias atividades.
É uma Casa pequena por dentro, com dois quartos (biblioteca e quarto de oficinas) uma sala (Sala do Ócio), cozinha e banheiro. Tem uma área de entrada, corredores laterais e um grande quintal onde fica a horta-pomar, um gramado no fundo e uma área lateral onde uma senhora
está guardando material reciclável atualmente, mas na qual pretendemos construir um barracão para outras atividades.
Tem um baú de dádivas na entrada e outro na sala, bacias de papel reciclado meio abandonadas na parte da frente, golzinhos de madeira pra usar na rua, jardinzinhos, um captador de água no corredor da direita, uma composteira no fundo, um espaço onde guardamos umas mudas de árvores e, ah, um porão cheio de tralhas.
ANA > E que tipo de atividades promovem na Casa?
Guilherme < Além da horta e da biblioteca comunitárias (esta conta agora com vários exemplares, e uma parte voltada apenas para o anarquismo) e do baú de dádivas, estamos tendo um curso de esperanto mensal, almoços grátis semanais (toda sexta-feira pegamos o que sobra gratuitamente da feira do bairro e fazemos um almoção livre para quem aparecer), temos o Tesinho (um projeto de pedagogia libertária que veio da Somaiê e que usa não só a Casa como espaço mas também parques etc.) com várias atividades no mês, além de outros debates, oficinas, reuniões do coletivo, abertura da Casa para outros coletivos etc.
ANA > Quem costuma freqüentar a Casa? Jovens, estudantes...
Mix < Na verdade pessoas de todo o tipo, estudantes, punks, anarquistas, jovens que querem conhecer um pouco mais o que fazemos, as crianças do bairro, vizinhos (em menor freqüência), pessoas mais velhas, pessoas que vão lá só pela festa. Acho que são pessoas de todo o tipo. Ai, ai, as crianças do bairro são a maravilha... (risos)
ANA > E a receptividade da comunidade, da vizinhança, tem sido positiva?
Guilherme < É sempre algo tenso, entre o positivo e o negativo. No começo eram alguns velhinhos e algumas crianças que vinham até a casa. No último ano a relação com a vizinhança se intensificou bastante, alguns jovens e pessoas que trabalham nas proximidades começam a freqüentar bastante a Casa. Mas também há os vizinhos que não concordam muito com nossas atividades, reclamam do barulho, proíbem os filhos de entrar na Casa etc. (risos)
ANA > A correria, o estresse para levantar grana para pagar o aluguel da Casa continua sendo o principal problema de vocês?
Guilherme < Com certeza. Principalmente porque a maioria dos membros ativos do coletivo estão sempre duros... Alguns desempregados, outros trabalhando... Já tentamos criar umas cooperativas pra dar sustento à Casa e às pessoas. Brechó, venda de livros e outros materiais, papel reciclado etc. Algumas não deram certo porque os interessados começaram a trabalhar para o sistema (o que dá mais dinheiro por enquanto...). A venda de livros e DVDs, por exemplo, dá muito certo mas é uma de nossas maiores fontes de renda, o que inviabiliza que seja voltada para o sustendo dos que estão nela. No geral, o problema está no conflito entre criar um modo de vida paralelo e continuar sobrevivendo dentro do sistema capitalista. Buscamos desvios, temos um certo contato com o "freeganismo", mobilizamos uma "economia" de dádivas, procuramos oferecer a gratuidade ao máximo. Acaba sendo um conflito bom, porque se a gente fosse simplesmente morar no mato seria mais difícil atrair mais gente. Ou não?
Outro problema é que poucos querem assumir a responsabilidade de cuidar do dinheiro e das cobranças... Ninguém quer vestir a máscara do capitalista! (risos)
ANA > Falando em problemas, que história é essa que recentemente receberam a visita da polícia? O que houve?
Guilherme < Na verdade, não sabemos muito bem o que houve. Quem atendeu a porta para homens fardados (!) foi uma catadora com quem temos uma parceria (nós emprestamos para ela uma parte do nosso quintal, onde ela deixa seu material reciclável) e ela não soube nos dizer ao certo o que eles queriam. Eles perguntaram coisas como se era lá que ficavam os desocupados, se fazíamos protestos do passe-livre etc. Pelo jeito, ela os despistou... ou não.
ANA > Na região que vocês estão localizados costuma-se dizer que é área de carecas fascistas. Eles já trouxeram algum problema para vocês...
Guilherme < O problema que trouxeram foi meio que indireto. Sem falar nos boatos de quem não é do ABC e faz essa associação fácil entre "carecas" e "ABC". Isso é um grande mito. Além disso, essas gangues não costumam ter uma postura ideológica clara... Inclusive alguns grupos punks são assim: meras gangues. No começo do nosso coletivo (que vem desde 2001) tínhamos uma relação mais intensa com o movimento punk do que hoje. Somos abertos a punks, mas nossa causa (e Casa) não está mais associada a promover shows, por exemplo.
Mas, vamos ao problema: houve um debate sobre a história do ska na Casa no qual uma banda de ska (cujos membros são libertários, a maioria membros do próprio coletivo) tocou. A casa ficou bastante lotada de gente de todo o tipo. Inclusive membros da RASH ("Red and Anarchy Skinheads"). Porém os ditos-cujos mais problemáticos apareceram e, na porta, dissemos que lá era uma Casa libertária etc. Eles entraram e saíram, não encontraram nada ali para eles. Tínhamos um esquema de segurança para expulsar da Casa qualquer um que causasse confusão, mas não para barrar a entrada de ninguém, já que a entrada era aberta.
Entretanto, por causa disso (dessa entrada), um membro importante do coletivo acabou saindo. Acho que esse foi o maior dano.
Nossa política, no geral, não é barrar a entrada de ninguém na Casa. De certa forma, concebemos a Casa como um espaço de sedução: que ele seduza aqueles que não são ainda "adeptos" de nossas propostas. Nossa casa não é um clubinho para convertidos... Mas, como eu disse, desde que começamos a evitar os shows (que eram o foco para esse tipo de aparição), isso mudou bastante. Quem vem até nós tem mais clareza do nosso compromisso político com a liberdade, a solidariedade e a valorização das diferenças.
Os punks continuam aparecendo, mas com atenção mais para os debates, o almoço grátis etc.
ANA > Falem um pouco mais sobre esse projeto chamado "Tesinho"...
Caio < O Tesinho é um projeto de pedagogia libertária que nasceu dentro da Somaiê (uma vertente atualizada da Soma), onde a galera percebeu que muito do nosso conservadorismo nasceu no processo escolar e familiar que vivemos, desde que nascemos somos "adestrados" a obedecer. Algumas pessoas na condição de pais e educadores começaram a desenvolver um grupo para aprender, teorizar e praticar novas formas de convívio e educação. Esse processo me aproximou do Ativismo ABC e começamos a centrar as atividades com as crianças e o grupo de estudo lá na Casa da Lagartixa Preta e nos parques e espaços do ABC. Todo mês rola atividades práticas com as crianças (colocando em prática a tese de "experimentar a diversidade mundo" como essencial para viver e transformar) e os encontros teóricos (onde estudamos o livro "A Criança Mágica" de Josep Chilton Pearce). Outra idéia que é fundamental no Tesinho é a de que para transformar a educação é preciso se transformar, já que a principal referência da criança é o pai e a mãe. Combatemos a idéia de criar um espaço escolar anarquista para pais brochas colocarem suas crias: participa quem está a fim de se transformar. Sempre é bom se perguntar onde às crianças aprendem a guardar mágoas, preconceitos, conservadorismos e rancores. Ainda rola conversas de educadores que trabalham em diversas escolas públicas e privadas sobre a experiência de tentar e lutar por uma pedagogia libertária em ambientes autoritários.
ANA > "Pais brochas"? Explica melhor isso...
Caio < São aqueles pais que querem uma educação diferente, mas que não movem uma palha para se transformar. Muitos querem transformar a Palestina e o Iraque, mas não mudam suas relações com quem está ao seu lado e continuam reproduzindo relações autoritárias muitas vezes gravadas em nós pelo convívio familiar.
ANA > E qual a média de crianças têm participado deste projeto? Qual a melhor satisfação?
Guilherme < A quantidade de crianças que levamos aos encontros vai de uma (o Pietro, filho do Caio) a cerca de cinco... (risos) Mas, dependendo do local, outras crianças se juntam. O Caio e a Naiê (outra participante do projeto) contam de como incentivando o filho dele a subir numa árvore num parque através do exemplo, várias outras crianças que estavam lá começaram a se juntar e a participar também. Isso faz parte do Tesinho: abrir-se aos estranhos... Outra coisa que já fizemos muito foi, nesses momentos no parque, observar como outros pais lidam com seus filhos. Pra mim uma das experiências mais gratificantes foi uma vez que brinquei de monstro durante uma tarde inteira, perseguindo o Pietro e um amigo dele, encenando estratégias, surpresas e lutas épicas.
Caio < A maior satisfação é buscar e conseguir muitas vezes um lugar de convívio com quem esta na órbita dos nossos corações e lutando pela mesma coisa: transformar-se, mas como é difícil!
ANA > E onde as crianças aprendem a guardar mágoas, preconceitos...
Guilherme < A idéia é distribuir ao invés de acumular. (risos) Subir em árvore, brigar na rua, responder feio, debater (ao invés de obedecer...), abraçar, usar o corpo, lutar. Falando num tom bem leigo, acho que o que chamamos de mágoa vem de uma repressão à fruição das emoções. A idéia é deixar fruir, deixar fazer, permitir, e a práticar também. Não se deve penalizar uma criança que age agressivamente nem incutir nela o preconceito da
"não-violência", por exemplo. A agressividade não é algo totalmente gratuito.
Caio < Um amigo comentou uma vez que deu uma bronca na filhinha de 3 anos que chorou e foi embora, depois de 15 minutos ela voltou chamando ele pra ver uma brincadeira dela como se nada estivesse ocorrido, ele percebeu como ela limpou o problema e continuou a vida, enquanto nós ficamos com aquela cara amarrada por coisas pequenas muitas vezes. Acredito que as crianças de tanto conviver com aqueles que não conseguem viver a vida num fluxo sem rancores nas relações de amor acaba reproduzindo os modelos com quais vivem. As crianças aprendem 95% de seu conhecimento convivendo e usando todos os sentidos, é muito pouco que elas aprendem escutando um adulto falar, aliás, aprendem que somos, na maioria das vezes, mentirosos: assistimos uma tragédia na tevê e dizemos: "bom dia querida", a criança se liga nisso. É pensando nisso que uma tese do Tesinho é a de se transformar para transformar a educação, já que somos a principal referência das crianças que vivemos.
ANA > Que história é essa de "freeganismo"?
Ellen < Inspirados/as nas estratégias freegans, em abril deste ano iniciamos o "Almoço Freegan" na Casa todas as sextas-feiras. Isso porque, na rua da Casa tem uma feira livre, onde coletamos muitas folhas de verduras, legumes e frutas, que utilizamos para nosso almoço que é comunitário e gratuito. O almoço é aberto a qualquer pessoa, que chega, ajuda na coleta, e depois todos/as juntos cozinhamos e almoçamos. Tem sido uma da experiência muito boa na Casa, trás pessoas que não freqüentavam o espaço, e há um clima muito bom de cooperatividade, amizade. Entre os freqüentadores, estão desde estudantes de ensino médio de uma escola próxima, a moradores de rua.
Guilherme < Pegamos os restos da feira, aquelas frutas amassadas ou folhas que ninguém quer comprar e, surpreendentemente, dá de sobra para comer! Enterramos o resto na horta. O freeganismo é um conjunto de estratégias de evitação da mercadoria e tentamos usar um pouco delas, não é uma "ideologia" a ser seguida na risca. Resumindo: existe, sim, almoço grátis!
ANA > Penso que o freeganismo está mais ligado à estilo de vida, comportamento. Enfim, não deixa de ser interessante... Mas em questões reais, vocês estão envolvidos com alguma luta ecológica? Um empreendimento como o Rodoanel que vai passar por cima das áreas de mananciais importantíssimas na região do ABC, que privilegia a sociedade motorizada, encontra oposição efetiva dos anarquistas do ABC?
Guilherme < Não somos "adeptos do freeganismo". Como eu disse, o que se chama de "freeganismo" é um conjunto de estratégias e nós escolhemos algumas que achamos interessantes. O almoço grátis é bem real e envolve uma grande quantidade de pessoas tanto na alimentação quanto na quebra do orgulho do valor trabalho, que desclassifica o reaproveitamento de comida. Nossa prática ecológica, além da questão da valorização da diversidade das relações, passa também por plantar árvores pelo bairro, coleta de sementes para fazer mudas... De fato, o coletivo não está envolvido diretamente na luta contra o Rodoanel. Indiretamente a isso, temos tentado promover alternativas como em relação aos meios de transporte, por exemplo: já promovemos duas bicicletadas em Santo André, mas, certamente, ainda não é fácil atrair pessoas pra isso. O ABC é um pólo automotivo e o carro é um valor muito prezado pelos proletários-burgueses daqui...
Mix < A questão do Rodoanel é realmente importante, porém, o fato de não estarmos centrados em um tipo de "luta" apenas faz com que não nos dediquemos mais a isso ou aquilo. No Ativismo ABC temos várias frentes com os quais as pessoas se dedicam, assim, nossas ações são diversificadas. Eu até cheguei a ler um relatório sobre o impacto na região, mas fiquei nisso.
ANA > E o que vocês cultivam na horta?
Ellen < No momento a horta está descansando e aguardando um novo plantio de hortaliças. Nos dias 06, 07 e 08 de julho realizaremos o "1° Fim-de-semana Eco-Libertário" que terá atividades de plantio na horta em forma de mandala (entre outras atividades).
Porém há as ervas que estão sempre lá: orégano, hortelã, menta, alecrim, cebolinha, picão, tanchagem, confrei, boldo, entre muitas outras! Bem como pimentinha, tomatinho cereja, café, mandioca, e as árvores: o abacateiro, o pitangueira, a mangueira, o limoeiro e a goiabeira, que estão bem pequeninos.
ANA > Concordam com a idéia de que muitas vezes os anarquistas são infiéis à solidariedade financeira, que dão pouco apoio aos projetos libertários reais?
Guilherme < Sim...
Mix < Depende, no Brasil vivemos uma situação muito diferente que na Europa, Argentina. Mas aqui, das vezes que precisamos de apoio financeiro de anarquistas, eles nos ajudaram.
Também penso que a solidariedade financeira poderia ser mais internacional... Mas...
ANA > E o que falta para que isso mude? Vergonha na cara? (risos)
Guilherme < Acho que falta assumir a duplicidade da questão do dinheiro. Algumas pessoas trabalham e vivem suas vidas no dinheiro, mas, quando o assunto é anti-capitalismo elas chamam o movimento que pede dinheiro de "hipócrita". Mas espera aí: se ela precisa do
dinheiro e ainda assim é anti-capitalista, por que com o movimento seria diferente? Nós precisamos pagar aluguel (ainda)... Achamos que isso é mais seguro para nossa biblioteca e certas outras finalidades... Então o que falta é parar com auto-ilusão e assumir, sim, que estamos com um pé lá e outro cá e que isso não é ruim, afinal, para dar um passo precisamos botar um pé e depois o outro.
ANA > Como vocês escolhem as atividades na Casa? Há alguma demanda, uma temática que procuram destacar?
Jão < As atividades na Casa acontecem de uma forma espontânea, algumas vezes fazemos algumas atividades relacionadas a datas comemorativas, por exemplo, o dia 8 de março, onde promovemos o mês inteiro com debates sobre as mulheres, nesse mês acontece um evento sobre o meio ambiente, temos atividades permanentes também que no caso são almoço freegam toda sexta-feira e a oficina de esperanto.
Ellen < Talvez as temáticas estejam quase sempre afinadas com as experiências tidas no espaço, ou então algo que desejamos praticar.
Guilherme < Tem muito a ver com nossos princípios de solidariedade, liberdade, ecologia, valorização das diferenças, busca da autogestão... Mas também somos abertos a quem quiser chegar e propor coisas. Temos tido atividades com stêncils, vídeos, até de rádio livre ao vivo...
ANA > E dentre todas as atividades que organizaram na Casa, qual juntou mais gente?
Mix < Não acho que essa seja a questão, mas sim o fato de sempre termos atividades diversificadas rolando na Casa e penso eu que isso faz com nem sempre apareçam às mesmas pessoas. Ecologia, Anarquismo, Mulheres, Vegetarianismo, Rádio Livre, Festa da Pizza, Mutirão, Rússia, Cooperativas, para a gente nada está separado, tudo se interliga, é uma rede de pesca, mas existem pessoas que se interessam por temas em si.
ANA > O que vocês fizeram no começo das atividades da Casa e não faria agora de jeito nenhum? (risos)
Guilherme < Pra ser sincero, cara, eu não sei. Talvez os shows dentro da própria Casa. Mas mesmo assim ainda sentimos aquela vontadezinha. (risos) Ah, tem uma coisa séria que não fazemos mais: arrasar a horta. Fomos aprendendo aos poucos (e também com o contato com coletivos como o Erva Daninha ou com a permacultura) a manter uma horta mais ecológica, que não precisa "limpar" o terreno todo para plantar nem fazer uma agricultura planificada.
ANA > E que dicas dariam para quem pretende abrir um espaço anarquista, antiautoritário?
Guilherme < Primeiramente, vale a pena fazer um planejamento, traçar uma estratégia, pensar o que é melhor para o interesse do seu coletivo. Por exemplo, no nosso caso, com a biblioteca e com a vontade de criar alianças com o bairro e a região, uma ocupação ainda não nos parece viável (não para a Casa da Lagartixa Preta, mas talvez para uma segunda casa seja...). Mas pra isso, seja pra ocupação, seja pra locação, é preciso ter um grupo bem coeso. Nosso coletivo já existia havia alguns anos... E no caso da locação, vale juntar dinheiro antes (fizemos vários shows para arrecadar uma grana). Outra coisa é não desanimar com o sumisso das pessoas. Porque quando o projeto vai se fortalecendo, novas pessoas vão surgindo. E, talvez, é necessário ter claro alguns princípios orientadores do coletivo, que acabarão dando um rumo pro espaço.
ANA > Tenho a sensação que, às vezes, alguns espaços do campo antiautoritário se parecem mais igrejas, com as mesmas pessoas falando, atividades, discussões celebrando grandes feitos, e que muitas vezes não estão conectadas, tencionadas com o dia-a-dia, o espaço não é uma extensão da luta anarquista, mas um fim. Bem, o que quero dizer é que um local anarquista, libertário... não pode ser nunca um fim em si mesmo, correto?
Guilherme < Opa, certamente que não. Acho que é um meio... É uma entrada para algumas pessoas, ou um meio para nós não só difundirmos como também produzirmos aquilo em que acreditamos. Pode ser também um lugar de passagem ou um espaço aberto a experiências libertárias. Um "centro de cultura" em si e para si não faria muito sentido... Pessoalmente, vejo a nossa Casa como um passo (estou usando muito essa idéia, heim?): o coletivo ficou anos "só" protestando, agora está mais uns anos gerindo esse espaço e, provavelmente, num futuro não tão distante, estará explodindo suas fronteiras para novas propostas.
Se bem que, por um lado, o espaço pode ser considerado um fim já que ele serve para realizar várias - ou algumas - propostas libertárias.
ANA > Para finalizar, vou pedir para vocês contarem uma história engraçada que tenha se passado na Casa...
Mix < Uma só não... (risos) Na verdade os momentos que estamos juntos, ou que estamos na Casa, sempre damos risadas de alguma coisa. Estamos rindo, gargalhando. Mas vou citar dois momentos: nossa primeira guerrinha de bexiga d'água, que depois virou guerra de qualquer coisa d'agua (não é corriqueiro isso não, hein..) e nossa noite de esconde-esconde, nossas partidas de futebol na rua... Mas como disse, sempre temos momentos engraçados, mesmo estando em duas pessoas, em três, em quinze.
Jão < O jogo de futebol na rua contra o Araraquara (o pessoal do Gieps, no encontro Expressões Anarquistas), a gente estava ganhando e eu me machuquei, por isso perdemos o jogo por 10 x 9 para eles...
Mau! < A festa do Diego, quando pulávamos, gritávamos e cantávamos funk na sala do ativismo e quase tudo veio abaixo, todos completamente descontrolados e embriagados pela amizade coletiva.
ANA > Algo mais? Valeu!
Mix < Gostaríamos de agradecer a entrevista, agradecer àquelas pessoas que nos ajudam, aos coletivos, as pessoas que participam das nossas atividades. E deixar nossos contatos para quem ainda não conhece o Coletivo e nosso Espaço. Saúde e Anarquia!
Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa
Rua Alcides de Queirós, 161 - Bairro Casa Branca, Santo André, São Paulo
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Sítio: www.ativismoabc.guardachuva.org ou www.fotolog.com/ativismoabc
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