24/03/09 - 10:52Denunciar

Rafael Bittencourt

Bittencourt Project é o novo projeto paralelo de Rafael Bittencourt, guitarrista e fundador do grupo Angra, que conquistou fama no Brasil e no exterior com um estilo que funde Heavy Metal, música brasileira e música clássica de uma maneira completamente original.

Guitar Mind: Quais são suas influencias e quando decidiu que iria dedicar sua vida a guitarra?

Rafael Bittencourt: Minhas principais influências são o Angus Young, Tommy Iommi, Blackmore, Brian May, Steve Vai, Steve Morse. E um monte de outros. É difícil agente avaliar quais são nossas influências porque às vezes elas estão lá e agente nem percebe. É possível agente gostar de um guitarrista e nem sabermos e não termos elementos que nos ligam diretamente a ele. A influência só pode ser percebida no nosso estilo quando ela é profunda e nem percebemos que está lá. Eu comecei a tocar por causa do Queen, me fascinei pela banda antes de tocar guitarra. Eu já tinha aulas de piano e flauta, mas não conhecia o Rock e suas bandas. Depois veio o AC/DC e o Iron Maiden. Daí pra frente me viciei e estou até hoje fazendo isto. E gosto muito do que faço. Vejo um pensamento musical muito parecido com o do Brian May no meu jeito de compor e tocar porque ambos temos uma formação com uma base na música clássica.

Guitar Mind: O Bittencourt Project tem deixado seus fãs de "boca aberta", de onde vem tanta inspiração para compor?

Rafael Bittencourt: A inspiração é a minha vida de maneira geral. A maneira que eu percebo as coisas, os fatos em que estou ou não relacionado. Depois vem a maneira que eu vejo a composição musical e o que penso da arte de se fazer música. Quero que meu som não só toque as pessoas, mas que também as inspirem a ouvir coisas melhores no dia a dia, que sejam mais exigentes e que lutemos para que este tipo de composição mais elaborada não venha a morrer ou se transformar algo totalmente à margem da mídia. Somos vistos como esquisitos por amarmos a música de maneira tão doentia, num mundo onde o som virou apenas um pano de fundo para vidas tão superficiais e pouco importa o que está sendo tocado e sim o umbigo de quem está ouvindo. Eu gosto de trabalhar o meu som até parecer que se esgotaram as possibilidades de cruzamento de idéias, desenvolvimento e estruturação. Gosto de me utilizar das técnicas de composição para surpreender a cada vez que uma melodia retorna e nos dá aquela sensação de segurança, medo, incerteza ou reflexão. Não tenho mais sentimentos do que qualquer outra pessoa, o que eu aprendi foi a externar estes sentimentos em forma de canções e aprendi também que meus sentimentos não são exclusivos meus e sim coisas que muitos sentem e pensam. Então procuro caminhos pra que haja identificação na minha música de coisas que são de todos.

Guitar Mind: Você ainda mantém uma rotina de estudos diária?

Rafael Bittencourt: Não. E nunca tive. Porém não aconselho ser assim como eu: bagunçado e porra-louca. A falta de um método atrasa os resultados. Porém sempre tive mania de vivenciar tudo na vida sob o prisma musical. Observo o movimento dos carros, as cores das coisas, o tom das conversas, o conteúdo de uma carta com a organização dos sons. Quanto mais natural é a organização dos sons, quanto mais relação se tem com eventos reais, maior a sintonização das pessoas. Mais coerente e fluente é o discurso musical. Então, sempre fui preguiçoso pra tocar guitarra, mas sempre fui dedicado a encontrar métodos de composição que eu não precisasse de um instrumento na mão para escrever. E isso eu conquistei.

Guitar Mind: Qual a diferença entre o Rafael que gravou o Reaching Horizons e o que está tocando no Brainworms I hoje, a sensação é a mesma em gravar um CD?

Rafael Bittencourt: A maior diferença é que o Brainworms I foi algo que eu participei de todas as etapas comandando sozinho. É claro que tive participação de gente fenomenal, mas a organização de tudo estava na minha responsabilidade. Apesar de eu na época saber que estava criando algo super inovador em termos de estilo, que eu já tinha algumas idéias de como transformar um grupo de músicos em uma banda de impacto, nome, conceito, músicas etc. A Demo Reaching Horizons foi o resultado do esforço de várias pessoas talentosas. O Rafael lá de trás, não tinha a maturidade musical, profissional ou emocional pra tomar conta de tantas pressões ao mesmo tempo sozinho. Isto é algo que eu não teria feito antes com a mesma qualidade. E, eu quis ter certeza de que só faria quando tivesse certeza de que o resultado seria de alto nível. Estou super feliz com o resultado do Brainworms I. É importante que o registro de nossas músicas sejam motivo de orgulho e não de constrangimento. É ruim ficarmos nos martirizando por um resultado aquém das expectativas. O Brainworms I me representa muito bem na fase musical que estou hoje, mostrando a variedade de estilos que eu sempre prezei, com um bom acabamento e me orgulho dele.

Guitar Mind: Os fãns do Brainworms I terão chance de ouvir o segundo?

Rafael Bittencourt: Acredito que sim, mas é um plano para 2010 ou 2011. Agora quero divulgar o Brainworms I e me esforçar pra colocar o Angra na estrada de novo.

Guitar Mind: Dê um conselho as guitarristas que estão começando a tocar.

Rafael Bittencourt: O maior conselho é estar sempre descobrindo novas maneiras de ouvir música. Sem perdermos o sentido intuitivo que ouvimos. É comum, conforme vamos estudando e entendendo os mecanismos harmônicos, que agente vá racionalizando a audição demais. Quando isto acontece, podemos perder o interesse por músicas que nos emocionavam anteriormente, mas que não geram interesse lógico, ou seja, não contêm estruturas ou harmonia sofisticadas. Ou, é possível que passemos a sentir constrangimento em admitir gostos musicais que podem ser julgados muito vulgares ou pobres. É importante nunca perdermos a relação sentimental com a música, nunca podemos deixar de amá-la. A racionalização, o conhecimento das leis e teorias, devem nos ajudar a admirá-la ainda mais e não fazer com que nos afastemos do que nos impulsionou a estudá-la. Temos que ser humildes e não querer dominá-la. A música não é para ser dominada e sim admirada. É como os antigos gregos às viam: como deusas lindas e indomáveis. Isto é o mais importante. O resultado na prática demora um pouco mesmo. É difícil para todos, não é muito simples de se entender. Mais um conselho de lambuja: não desista porque vale a pena!

Entrevista originalmente publicada no site Guitar Mind:

www.guitarmind.com.br

Photo by Mayangel

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