31/05/09 - 13:28Denunciar

Rafael Bittencourt

Em entrevista para o Reidjou, Rafael Bittencourt nos fala de seu ótimo trabalho solo, Brainworms I, e seus planos para o futuro.

Reidjou! - Rafael, até recentemente, você era o único membro do Angra que não tinha enveredado por um projeto paralelo/solo. Quando você decidiu que era o momento de gravar algo exclusivamente seu?

Rafael Bittencourt: Eu decidi gravar quando eu me senti pronto musicalmente. Não é uma tarefa fácil compor, arranjar, tocar, cantar, escrever letras, ensaiar, produzir etc. Tudo simultaneamente. E isto aconteceu há uns dois anos. Antes disto, não me senti pronto para esta tarefa. Outro fator foi que o Angra deu uma parada que teve um retorno incerto e eu tive que aventar um possível novo caminho. Eu não podia ficar parado esperando, então, entre algumas batalhas judiciais e reuniões para o retorno do Angra, eu comecei este projeto misturando músicas de várias épocas me dedicando com afinco para criar uma identidade artística e musical original.

Reidjou! - Quando, precisamente, você iniciou o processo de composição?

Rafael Bittencourt: Eu estou há muito tempo querendo gravar estas idéias que estavam guardadas, de estilos que fogem do Metal Melódico tradicional e amadurecer como um artista mais completo. Venho praticando, compondo, cantando e almejando chegar aonde cheguei com este CD há muito tempo, e queria criar um CD que mostrasse as minhas diferentes áreas de atuação profissional. Há idéias que já têm mais de dez anos e outras mais recentes, com uns três anos de idade.

Reidjou! - Visto que algumas músicas são da época do Holy Land, por que utilizá-las agora? Por que não foram lançadas como bônus de algum lançamento do Angra?

Rafael Bittencourt: Elas não estavam prontas na época. E fugiam na época do estilo que o Angra queria passar.

Reidjou! - Embora as faixas não sejam tão díspares entre si, cada uma possui uma alma própria. Você, em algum momento, tentou dar um direcionamento ao disco?

Rafael Bittencourt: Eu tenho alguns conceitos que deram o direcionamento. Este direcionamento sincroniza com a imagem que eu queria passar para as pessoas que ouvissem meu disco. Variedade, sinceridade, falta de inibição estética, experimentalismo de estilos, o prazer de fazer foram alguns dos conceitos que deram direcionamento ao disco.

Reidjou! - A sonoridade de algumas músicas, aliadas ao seu vocal, evoca bastante as músicas dos anos 80, em especial o tipo de som praticado por bandas como Asia, Journey e Survivor. Foi algo intencional? E qual a sensação de se tornar lead vocal?

Rafael Bittencourt: A influência de bandas dos 80’ não foi intencional, mas também eu não evitei que elas aparecessem. Afinal, a base do meu gosto musical, do meu senso crítico e estético, do meu envolvimento emocional com a música etc, estão lá nos idos anos 80. Eu estava a fim de cantar, o CD era meu, então fui bem egoísta e cantei inteirinho. Eu fiquei muito emocionado de cantar as minhas próprias músicas, pois eu pude dar a elas a interpretação exata que eu imaginei ao compô-las. Se eu puder, vou continuar cantando nos próximos CDs deste projeto porque isto me dá muita satisfação pessoal. Eu quero criar uma identidade de guitarrista que canta como o Hetfield, o Mustaine, Peter Frampton, David Gilmour, Hendrix e outros. Acho que já estou pronto pra isto. Eu não estava muito preocupado com o que diriam da minha voz porque o tempo inteiro o foco principal são as músicas. Gosto quando sinto que a música tem vida própria independente de quem está cantando ou tocando. E era isto que eu queria, que as músicas grudassem na cabeça das pessoas por suas estruturas, melodias, letras e harmonias. E as pessoas comentam mais das composições do que das performances dos músicos isoladamente. Gosto quando isto acontece. Significa que a música falou mais alto que o ego.

Reidjou! - Você acredita que os músicos ligados ao Heavy Metal conseguem se interligar com outros gêneros, tipo Jazz e Blues, de maneira mais natural do que os outros músicos de outros estilos?

Rafael Bittencourt: Não. Acho que isto é da personalidade individual de cada músico. Há músicos bitolados em seus estilos dentro de qualquer estilo. E há músicos abertos para estilos diferentes dentro de qualquer estilo também. No Brasil, de maneira geral, somos mais versáteis que na maioria dos países. Acho que porque o músico aqui que só toca um estilo morre de fome. Mas, o interesse e a facilidade de se adaptar a outros estilos é pessoal. O músico de Heavy Metal é cheio de limitações também em comparações com outros estilos. A maioria tem dificuldade em ritmo, harmonia, improviso e, principalmente, de entender músicas de andamento lento e desprovidas de massa sonora volumosa.

Reidjou! - Ao lado de sons mais tradicionais como o Rock/Metal, assim como no Angra, você utilizou de sons regionais e latinos, além de algumas sonoridades mais modernas. Em algum momento temeu que isso causasse comparações à sua banda principal?

Rafael Bittencourt: Não, porque eu arranjei de maneira bem diferente. Apenas uma guitarra, um violino elétrico constantemente, acordeão etc. E, minha voz e meu jeito de cantar é bem diferente do que sempre se fez no Angra. Com estes elementos, a minha música já fica bem descaracterizada do Angra.

Reidjou! - Seu disco se chama Brainworms I. Teremos futuramente um Brainworms II Já existe um processo de composição visando isso?

Rafael Bittencourt: Sim, quero gravar outros. Mas, o material que eu tenho ainda está bem cru. Preciso trabalhar mais nisto. Agora estou focado no Angra e em recolocar a banda na cena. Dois anos é bastante e temos que suar para reconquistar a credibilidade dos fãs.

Reidjou! - O CD conta com vários convidados. Como rolou a participação deles? Houve alguém que não aceitou ou não pôde participar?

Rafael Bittencourt: Cada um teve uma estória para acabar participando do meu disco. Mas todos que participaram são pessoas que eu me identifico musicalmente e pessoalmente. Houve pessoas que eu queria que participassem, mas demandaria em atraso para a data de mixagem ou envolveria um custo que eu não poderia pagar. Mas, basicamente, todos que eu chamei participaram e fizeram um excelente trabalho.

Reidjou! - Kiko Loureiro, ao contrário do que poderia se esperar, toca piano na faixa “Torment Of Fate”. Foi algo proposital?

Rafael Bittencourt: Bom, eu queria ressaltar um lado do Kiko mais desconhecido. Que ele toca solos fenomenais todos sabem, mas que ele é também um bom pianista de música brasileira e latina é uma novidade. Eu quis que este diferencial fosse mostrado. A agenda dele estava intensa durante a época da gravação de Brainworms I e a programação das gravações também. Eu queria que ele tivesse tocado muito mais, mas fiquei muito contente porque a idéia dele do tango agregou muito à música porque deu um toque meio surrealista.

Reidjou! - Além de Kiko, rolou também a participação de Ricardo Confessori, que está de volta ao Angra. Como se deu essa reunião?

Rafael Bittencourt: A idéia inicial foi do Thiago Bianchi que me ajudou durante a pré-produção e nas gravações de bateria do disco. Ele é muito próximo a mim e ao Ricardo, então facilitou um reencontro que foi muito saudável e sim, eu gostaria que ele pudesse participar um dia de um show do Bittencourt Project. Ele é um dos pioneiros neste estilo Metal/Forró e foi perfeito para estas faixas. Ele sabe tocar com pegada e swing ao mesmo tempo e estas são qualidades bem autênticas dele. Ali foi o começo do reencontro dele com o Angra.

Reidjou! - O CD vem acompanhado de um encarte extra, contendo comentários e traduções livres das faixas, algo pouco usual. Como se deu essa idéia? A gravadora abraçou a causa?

Rafael Bittencourt: Bom. Logo depois que os CDs do Angra são lançados, eu sempre vejo na internet traduções das minhas letras que não me agradam. Geralmente as pessoas traduzem literalmente perdendo um pouco da magia poética e do sentido real das frases. Portanto, desta vez eu quis traduzir e explicar os meus sentimentos e motivações por trás das composições. A gravadora gostou da idéias pois acabou sendo um diferencial para o disco.

Reidjou! - Após o lançamento de seu projeto solo, você acredita que seu crescimento como músico e/ou sua visibilidade aumentou, ou você acha que permaneceu da mesma forma?

Rafael Bittencourt: Acho que aumentou. E foi para isto que eu me dediquei tanto. Para criar uma imagem de artista desvinculada ao Angra. Fiz um CD atemporal desvinculado de modas etc. Para que os fãs deste estilo possam descobrir meu CD sem achar datado daqui há dez anos ou mais. Me destaquei bastante este ano junto com meu CD. Fui eleito melhor guitarrista pelos leitores dos principais meios de mídia especializada, de maneira mais expressiva que em todos os meus anos de Angra, sendo que o Angra estava parado. Portanto, só me resta concluir que foi o Brainsworms I que deu esta empurradinha.

Reidjou! - Como você vê hoje a acessibilidade à informação por parte dos músicos e fãs levando em consideração o seu início como músico onde tudo era muito difícil de se conseguir?

Rafael Bittencourt: Muito melhor hoje em dia. Na minha época tudo era mais difícil. Acho também que embora a qualidade das produções hoje sejam melhores, a qualidade artística de hoje caiu muito. A criatividade de hoje se resumi a copiar e colar. É um monte de padrões que se repetem sem criatividade nenhuma. Faltam atitudes originais. Hoje todos são cópias de alguém que já morreu (ou não) e a juventude não tem opinião definida sobre as coisas, porque embora tenham acesso a muita informação, crescem alienados.

Reidjou! - Você chegou a realizar alguns shows. Como soou as músicas ao vivo? Como foi a aceitação? Alguma faixa se destacou?

Rafael Bittencourt: As músicas soam muito bem ao vivo e agora que estamos fazendo algumas apresentações já tenho algumas idéias para uma sonoridade ainda mais original nos próximos CDs. O pessoal curtiu muito as músicas e, para minha surpresa, uma das faixas em português é a que o pessoal mais gosta. O titulo é "Nacib Véio" e tem forte influência de Raul Seixas. Por isto minha surpresa. Esta era uma faixa que eu estava em dúvida de colocar no disco. Porque me expõe demais e difere completamente do que o público do Angra gosta. Por fim eu pus e a galera curtiu. Sempre pedem nos shows.

Reidjou! - Com a volta do Angra a ativa, como ficará sua carreira solo?

Rafael Bittencourt: A prioridade é o Angra. Mas, quando posso vou respondendo à entrevistas, marcando algumas apresentações, toco minhas músicas nos WorkShops. Em Junho estarei na Venezuela tocando estas músicas em WorkShops e eu já estive na Colômbia e em várias cidades do Brasil.

Reidjou! - Obrigado pela atenção, Rafael. O espaço é todo seu para uma ultima mensagem!

Rafael Bittencourt: Queria agradecer este espaço. É muito difícil levar adiante um projeto independente e eu valorizo cada espaço que agente tem para divulgar. Obrigado também àqueles que me apóiam e tiveram paciência e interesse de ler estas linhas até o final. Até breve!

MS Metal Press

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