26/10/09 - 21:56Denunciar

Kiko Loureiro

FAZENDO ACONTECER

Não gosto dessa expressão: “Fazer acontecer” ou “Fulano faz acontecer”. Tem impacto, mas virou lugar comum e chega a irritar quando alguém a usa. Coisa de palestrantes motivacionais. Devo reconhecer, porém, que dias atrás tivemos de “fazer acontecer” em terras do Velho Mundo, na turnê com a cantora finlandesa Tarja Turunen, ex-Nightwish. Solstício europeu, 40 graus, pele ardendo, 20 mil pessoas vestidas de preto acampadas na cidade onde somente os nativos, Romário ou Lula conseguem pronunciar corretamente o cecear castelhano do nome Zaragoza. Apenas 20 minutos foi o prazo que nos foi dado para montar bateria, preparar minhas seis guitarras, violão, baixo, pedaleiras, teclados e infinitos módulos de som, violoncelo com amplificadores e pedais de fazer inveja, monitores in-ear para dez pessoas, trilhas e playbacks com diferentes monitorações para cada um, fazer a checagem das vias e entrar no palco para convencer os fãs e não-fãs de que podíamos ser tão bons quanto o Queensrÿche ou o Motörhead que viriam na sequência. A equipe? No palco, apenas um roadie faz-tudo e um técnico de monitor. Nada pode atrasar, pois, caso contrário, o tempo do show é prejudicado e o set list diminuído. Não existe jeitinho tupiniquim que drible a pontualidade europeia. Enfim, após a colaboração de todos, com cada um trabalhando com dedicação para que a apresentação saísse bem feita, entramos na hora correta. O show foi bom e deu tudo certo. Enfim,“fizemos acontecer”, com o perdão da expressão.

A TURNÊ COM TARJA TURUNEN

Esta é minha segunda turnê com Tarja Turunen. A primeira excursão que fiz com ela ocorreu em terras sul-americanas, em 2008. Desta vez, visitamos o continente europeu. Começamos pela Hungria (terra de Liszt e Bartók), passamos pela Romênia (país natal do conde Drácula) e, em seguida, Eslováquia. Depois, fomos à península europeia, a começar pelo festival em Zaragoza, Espanha. Em seguida, foi a vez do festival Gods of Metal, em Monza, Itália, onde tivemos a oportunidade de estar no mesmo palco que Dream Theater, Slipknot, Heaven & Hell, Mötley Crüe, entre outras bandas. Turnês na Europa são uma experiência completamente diferente da que vivemos no Brasil, principalmente os festivais de verão, onde grandes bandas sobem no mesmo palco com pouquíssimo tempo de troca e montagem de equipamento. É um terror e uma aula de eficiência ao mesmo tempo. Como fazer o mesmo show em que a passagem de som e a montagem de equipamento normalmente duram três horas? Aí está uma grande diferença para os músicos e técnicos brasileiros que não têm a oportunidade de viver esse caos organizado do primeiro mundo. Em situações como esta, algumas coisas são importantes. A primeira é manter a calma e acreditar que tudo vai dar certo no final. Nesse ponto, nós, brasileiros, somos bons. Sempre achamos que tudo deu certo no final, mesmo quando isso não acontece. Os problemas que potencialmente podem ocorrer devem ser checados antes: cabos novos, bem conectados, guitarras com cordas novas, já reguladas e afinadas, saber o ajuste básico do amp etc. A segunda parte, e mais importante, é o monitoramento, que nessa hora não pode ser detalhado. É necessário saber o que é essencial para você se manter dentro da música. Nesse caso, as contagens do metrônomo, que indicam as entradas e mudanças de andamento, são cruciais. Um mix geral da bateria é bom, mas se não der, é melhor ter o bumbo bem claro, pois o resto é sempre possível de escutar pelo som acústico. A guitarra não pode estar muito alta, pois você se sentirá em uma bolha isolada sem escutar o que esta acontecendo à sua volta e, com certeza, irá se perder. Deixe a guitarra mais baixa e, caso necessário, toque perto do amp, pois, em último caso, você pode tirar um dos fones do ouvido até o técnico de monitor ter tempo de melhorar a sua via e a sua vida. Tudo isso é uma soma de experiências de anos tocando nas mais diversas situações. Por isso sempre digo: nunca perca uma oportunidade de tocar, seja qual for a condição, fazendo ou não acontecer, pois é assim que aprendemos e nos sentimos mais aptos e felizes em fazer o que gostamos.

www.kikoloureiro.guitarplayer.com.br

Comentários (1)

thenormas
1. thenormas 27/10/09 8:04

tHe NoRmAs NA COBERTURA DO COHAMA METAL MINHA GENTE. OLHO NO LANCE!!!!! :p

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