06/05/10 - 10:15Denunciar

Kiko Loureiro

IMPROVISAÇÃO

Ainda no Velho Mundo, em meio a poltronas apertadas dos voos, palcos, culturas, línguas diferentes e muito tempo de espera. Horas e horas para percorrer Itália, França, Inglaterra, Alemanha e Finlândia. Aliás, o músico profissional deve primeiro aprender uma coisa: esperar. É o que mais fazemos nessa profissão. São horas de van, ônibus, avião, salas de embarque, check-ins, raio-x etc. Tudo isso para subir ao palco por 90 a 120 minutos. Tive de aprender a saber utilizar um pouco deste tempo. Nos dias livres, chamados universalmente de “day off”, tenho estudado guitarra, para variar... Escolhi passar algum tempo revendo standards de jazz e praticar improviso sobre essas harmonias ricas e desafiadoras. Por isso, imaginei ser um bom assunto para dividir neste blog.

Para os não simpatizantes do estilo, ressalto a importância desse estudo. Tomem-no como um remédio amargo, mas garanto que, em pouco tempo, revelará um mundo novo de possibilidades musicais. Assimilar e expandir.

A princípio, procure temas de poucos acordes ou baseados no blues. Acredito que estes não apresentarão dificuldades inibidoras ao iniciante. O ideal seria tocar com outros músicos, mas, na clausura dos quartos de hotéis, com o vento soprando a zero grau lá fora, eu sigo o seguinte método de estudo:

Escolho a música. Analiso a harmonia. Aprendo a melodia. Toco os acordes por algum tempo. Familiarizo-me com a forma e estrutura da música – geralmente, a forma padrão é AABA. Procuro improvisar um pouco, com ou sem metrônomo, experimentando os arpejos e escalas possíveis.

A partir deste ponto, é importante partir para a pesquisa. Ouvir! Afinal, pesquisa é parte fundamental do estudo, senão é só treinamento. Assimilar e expandir. Começo a ouvir gravações de diferentes intérpretes (o YouTube é ferramenta essencial nessa pesquisa). Escutar como uma versão de John Coltrane pode ser diferente de uma de Frank Sinatra, ou de Gonzalo Rubalcaba ou de Scott Henderson. Se possível, começo com a versão original. Depois, presto atenção nas alterações harmônicas, introduções, levadas diferentes e, principalmente, nos improvisos. É neste momento que cada músico expressa sua personalidade. O improviso é a voz do músico. Então, retorno para mais um pouco de improviso sozinho, procurando utilizar as novas ideias encontradas nos vídeos e gravações. Em seguida, é bom ter os famosos playbacks para simular uma futura situação real. Se você não tiver, grave a harmonia em um pedal de loop ou no computador. Varie o estudo entre ter e não ter a harmonia ao fundo. Isso proporcionará a consciência harmônica da música, além de sua estrutura e forma.

Não sou jazzista, mas creio que esse procedimento é uma boa prática. Depois, é tocar e tocar de verdade com outros músicos e desenvolver a linguagem.

Nesta mesma viagem à Europa, dei um pulo nos estúdios do Lick Library, a organização que criou o evento Guitar Idol. Nada como respirar o ar deste país, berço de tantos ícones do nosso instrumento e aprender um pouco mais com as pessoas que mantêm a aura límpida da tradição do rock inglês.


kikoloureiro.guitarplayer.com.br

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